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PSOL se manifesta contra filiada que destilou transfobia à Daniela Andrade

O Setorial LGBT da Insurgência, tendência interna do PSOL, emitiu uma nota durante a semana em que repudia as declarações consideradas transfóbicas da filiada do PSOL RJ, a advogada Eloísa Samy, contra a militante transfeminista Daniela Andrade por meio das redes sociais.

A polêmica iniciou depois que Daniela apontou que a filiada deslegitimava e atacava constantemente as identidades de gênero das pessoas trans, não reconhecendo os privilégios cissexistas que possuía. Foi quando Eloísa desrespeitou a identidade de gênero de Daniela, passou a chamá-la de Danielo e tratá-la no masculino, desencadeando dezenas de outros ataques transfóbicos de radfem nas redes sociais.

Diante da polêmica, o PSOL se manifestou: “Este tipo de ataque tem sido recorrente: militantes transfeministas estão sendo alvo de discursos de ódio, operado pela difamação, pela exibição de nome de registro, pelo escracho e pela denúncia de seus perfis nas redes virtuais por falsidade ideológica, fazendo utilização transfóbica de uma burocracia cissexista para invisibilizar, discriminar e impedir a fala de militantes”, declara a nota.

O PSOL se posiciona dizendo ainda pretender ser um instrumento de luta contra a triste realidade de vida imposta às travestis e transexuais brasileiras. “Atravessamos um contexto político de acirramento do conservadorismo e de perseguição aos nossos corpos e aos nossos direitos. Neste sentido, Eloisa Samy está absurdamente desconectada do que o partido tem acumulado no movimento das pessoas trans. Não fala em nosso nome e envergonha a militância LGBT do PSOL”.

No Facebook, o PSOL RIO se manifesta que mantém a mesma postura: “acompanhamos e apoiamos a luta das pessoas trans pelo reconhecimento legal e social de sua identidade de gênero e de todos os seus direitos civis”, bem como a aprovação da Lei 5002/2013, conhecida como Lei João Nery, e as declarações da então presidenciável Luciana Genro, que falou sobre transfobia na televisão.

PÓS NOTA


Nas redes sociais, Eloísa pediu apenas para que seus seguidores “não ataquem Marcelo Freixo, pois ele havia a ajudado e que não pertence à Executiva Estadual do Partido, logo não assinou a nota e nem estava sabendo da polêmica com as transfeministas”.

Já Daniela diz que muitas pessoas dizem que entenderam a agressão apenas como um desrespeito a um pronome. E rebate dizendo que as agressões resvalam no tratamento nada humanizado que as pessoas trans recebem de parte da sociedade. “Surpresa, também somos humanas e devemos ser respeitadas; transfobia não é algo ligado à gramática, mas ao desrespeito aos direitos humanos”.


Confira a nota na íntegra:

Nota de repúdio à agressão transfóbica praticada pela filiada Eloisa Samy contra Daniela Andrade.

Nós, militantes do Setorial LGBT da Insurgência(Insurgência Babadeira), tendência interna do PSOL, repudiamos a agressão transfóbica praticada pela filiada do PSOL RJ, Eloisa Samy, contra a militante transfeminista Daniela Andrade por meio das redes sociais. Declaramos nossa irrestrita solidariedade e apoio à Daniela.

Daniela Andrade corretamente travou uma polêmica com Eloisa Samy, apontando que a filiada deslegitimava e atacava constantemente as identidades de gênero das pessoas trans, não reconhecendo os privilégios cissexistas que usufrui, militando pelos direitos humanos sem incluir os direitos humanos das pessoas trans. Lamentavelmente Eloisa referiu-se a Daniela com deboche e ironia, chamando-a publicamente de Danielo, no masculino, deslegitimando seu processo de construção identitária e a soberania de sua auto-identificação. Isto é inaceitável.

A postagem de Eloisa agredindo Daniela (29/05 – 23:46, ficou online durante três dias) teve milhares de curtidas e inúmeros compartilhamentos e comentários. Um grau de visibilidade grande que suscitou ataques ainda mais violentos contra Daniela Andrade. Este tipo de ataque tem sido recorrente: militantes transfeministas estão sendo alvo de discursos de ódio, operado pela difamação, pela exibição de nome de registro, pelo escracho e pela denúncia de seus perfis nas redes virtuais por falsidade ideológica, fazendo utilização transfóbica de uma burocracia cissexista para invisibilizar, discriminar e impedir a fala de militantes.

Esse fato configura um inquestionável ato de transfobia, violência e desrespeito não só contra Daniela Andrade, mas contra todas as pessoas trans. Não bastasse as violências e negação de direitos cotidianas impostas pela sociedade burguesa, misógina, cissexista, normativa e transfóbica, é profundamente lamentável que tais práticas sejam reproduzidas também por militantes de esquerda e lutadoras anti-opressões.

O PSOL pretende ser um instrumento de luta contra a triste realidade de vida imposta à travestis e transexuais brasileires. O Brasil é o pais que mais mata pessoas trans no mundo em crimes violentos, com requintes de crueldade. As pessoas trans experenciam a falta de acesso ao mundo do trabalho, a expulsão dos ambientes escolares, violências psicológicas e físicas dentro do âmbito familiar. Pessoas trans têm uma expectativa de vida muito inferior da média do povo brasileiro (35 anos), além de terem direitos básicos, como ao nome e ao uso do banheiro, muitas vezes dificultados pelo próprio estado brasileiro e suas instituições.

Atravessamos um contexto político de acirramento do conservadorismo e de perseguição aos nossos corpos e aos nossos direitos. Neste sentido, Eloisa Samy está absurdamente desconectada do que o partido tem acumulado no movimento das pessoas trans. Não fala em nosso nome e envergonha a militância LGBT do PSOL.

Nossa organização entende que não há enfrentamento desta forma de violência sem o enfrentamento simultâneo do capitalismo, do racismo, do capacitismo, do colonialismo, do extermínio cultural, do especismo, da devastação ambiental e do assassinato diário de milhares de pessoas e animais. Não enfrentaremos o patriarcado sem atacarmos frontalmente a transfobia. Esta luta é central para nós e toda hora é hora para denunciar esta opressão.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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