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Saiba o que rolou no programa “Mariana Godoy Entrevista” sobre identidade de gênero



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O programa “Mariana Godoy Entrevista”, exibido nesta sexta-feira (24) pela RedeTV!, abordou a pauta “identidade de gênero” e "diversidade sexual". E trouxe diversas pessoas trans para debater o assunto. Dentre elas, a cartunista Laerte Coutinho e a ativista Jacqueline Rocha Côrtes.

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Na atração, Laerte disse que é importante discutir gênero, não só por conta das identidades trans, mas porque se trata de um assunto que afeta a todos e todas.

“Quando falamos de desigualdade de gênero, estamos falando do que as mulheres sofrem também do que o patriarcalismo criou, como papéis de homens e mulheres, de submissão, de opressão. E, nisso tudo, a existência das identidades trans”, defendeu.

Jacqueline, que contou ser a primeira mulher transexual a passar pela cirurgia de redesignação sexual sendo soropositiva em 2001 no Hospital das Clínicas, afirmou que a diversidade humana é ampla. E que as individualidades devem ser respeitadas. “Se nós rotulamos aquela de mulher trans, então aquela é mulher cis, mas todas são mulheres. Para além de qualquer identidade classificatória, eu tenho a minha identidade íntima e ela é legítima”.



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A ativista comentou que a experiência na Organização das Nações Unidas foi fundamental para romper com alguns paradigmas e preconceitos. “Jacqueline chegava lá, a mulher que ela é, e os homens todos tendo que me dar beijinho. Isso foi quebrando paradigmas a ponto de quando saí da ONU, eles falavam: ‘você não deve sair, porque simboliza a diversidade das Nações Unidas’. Foi uma escola para mim e para eles”, afirmou.

FAMÍLIA E LEIS

Uma história de uma família com quatro integrantes trans também foi abordada pelo programa. Helena, por exemplo, diz que tentou cometer suicídio pela falta de apoio da família. Já Klaus, que é homem trans, relatou que não conseguia comprovar ser quem era após ser roubado e precisar refazer todos os documentos.

O advogado Paulo Iotti, que é presidente do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual, falou sobre os entraves para retificar o nome e gênero de pessoas trans no Brasil. "Para mudar o nome é preciso entrar com uma ação na Justiça, provando que é conhecido por outro nome. Para as pessoas trans, infelizmente, muitos juízes ainda exigem que se realize a cirurgia. A luta do movimento é para poder mudar o nome e o gênero no documento, independentemente da cirurgia de transgenitalização", disse.

Paulo também disse ser necessário que haja uma lei que puna a homofobia e a transfobia no Brasil. “A ideia é fazer com que a transfobia e a homofobia sejam equiparadas ao crime de racismo e, no texto que trata do tema, acrescentar a orientação sexual e a diversidade de gênero”.

Em outro momento, Laerte defendeu que é necessária que a lei 5002/2013 – João W. Nery, a Lei de Identidade de Gênero - seja aprovada. “Não se trata de um benefício para uma parcela da população, é um benefício para todos”, frisou.

OUTROS DISCURSOS

No programa, a coordenadora do Programa Transcidadania da Prefeitura de São Paulo, Symmy Larrat, explicou que o projeto que oferece bolsas para auxiliar a qualificação da população trans tem ajudado o grupo a encontrar maior oportunidade no mercado de trabalho. De acordo com a ANTRA, mais de 90% das travestis brasileiras trabalham na prostituição.




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Ela explicou que "a imensa maioria das pessoas que estão no programa estavam na prostituição" e deixou claro que a prostituição não é a única alternativa que essas pessoas têm.

A modelo e atriz Viviany Beleboni esteve presente e falou sobre o polêmico protesto em que aparece crucificada na Parada do Orgulho LGBT de 2015. Segundo ela, a sua intenção foi retratar “todas as travestis que são mortas, que não conseguem emprego, os gays que recebem pauladas”.

Ela declarou que chegou a ser vítima de preconceito em diversos momentos, até mesmo na escola. E que a sua luta é por igualdade. “Eu faço tudo para que as pessoas nos vejam como normais. Se está na Constituição que todos somos iguais perante a lei, é um direito nosso. Mas a gente vive num país que não é laico”.

Liza Crazy, que é repórter do TV FAMA, da RedeTV!, contou que foi aceita como mulher transexual na emissora. Ela destacou também a importância do nome social, que está em seu crachá e é respeitado por todos dentro da emissora. Mas lamentou os preconceitos sofridos dentro da faculdade de jornalismo. "Não é fácil lidar com o preconceito".

CRIANÇAS TRANS

Mariana também abordou a infância de pessoas trans e a consciência de que elas existem. O psiquiatra do Ambulatório de Diversidade do Hospital das Clínicas, Saulo Ciasca, comentou que o contato de uma criança trans de quatro anos transformou o seu pensamento sobre diversidade.

“A identidade de gênero se consolida aos dois ou três anos de idade”, declarou ele, salientando que a identidade de gênero fora de um sistema cisnormativo (baseado no genital e gênero) acaba gerando conflitos.

Jacque, por exemplo, afirmou que com quatro anos já era possível saber e perceber que se identificava com o universo feminino. “Na minha cabecinha eu era uma menina”.



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Questionado se é possível uma pessoa nascer trans, Saulo explica que há teses que dizem que sim. “Não só é possível como acontece. A gente já tem evidências suficientes para dizer que se nasce homossexual e que se nasce transgênero”. 

Ele ainda deu um recado para os pais:

"Quando a gente vai atender crianças, os pais vão atender crianças e tudo mais, tem que pensar como se fosse uma planta. A gente não tem como dizer pra essa planta o que ela vai dar de frutos, o fruto vai vir e vai vir o fruto que der. A gente tem que amar a planta do jeito que der, então é cuidar das condições pra essa planta poder crescer pra direção que ela for crescer, porque a direção você não consegue mudar", declarou.

POLÍTICA

Laerte afirmou que não pretende assumir nenhum cargo na política, mas alega que a sua vida comporta atividade política. “O modo como me relaciono com as pessoas é a política que todo mundo deveria fazer”, diz ela que aponta que ações como a de Viviany, Liza, Helena e Jacque também são políticas.



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Jacque finalizou a sua participação no programa falando sobre religião – tema que sempre é utilizado para atacar as identidades trans. "O que determina o caráter, o amor a Deus, a ética de um indivíduo não é seu gênero, sua identidade de gênero. São as suas ações. Compaixão é olhar o outro com bons olhos, com boa vontade".

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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