Pride

Vozes de travestis e mulheres transexuais ecoam contra a cultura do estupro




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Por Neto Lucon

O caso da adolescente cis de 16 anos que foi estuprada pelo menos duas vezes por vários homens no Rio de Janeiro evidenciou a chamada “cultura do estupro”. Mas apesar de muita gente ficar chocada, este não é um caso único. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no país.

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Para combater essa violência, que afeta sobretudo pessoas do gênero feminino, ativistas e militantes travestis e mulheres transexuais se engajam em manifestações, atos, campanhas e outras ações que visam a conscientização e combate ao estupro e a cultura que o promove.

Em Aracajú, a ativista feminista, LGBT e transfeminista Linda Brasil (foto abaixo) participou do ato “Por Todas Elas”, que reuniu cerca de 600 pessoas no dia 1º deste mês na praça da Catedral Metropolitana de Aracaju. A ação foi organizada pelo coletivo de mulheres de Aracajú que se revoltaram com o episódio do Rio.

“Sentimos a necessidade de organizar protestos sobre o estupro coletivo porque, mesmo com vídeo e fotos nas redes sociais, com os estupradores confessando a barbárie, mesmo assim, a mídia, o delegado e vários homens ainda tentaram negar o ocorrido e culpabilizar a vítima. E nós queremos denunciar essa violência monstruosa”, declarou Linda ao NLUCON.
Linda Brasil na ação "Por Todas Elas", contra a cultura do estupro


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A advogada Luisa Stern esteve presente Na Caminhada Lésbica de São Paulo, que abordou o tema no dia 28 de maio, e também no evento “Por Todas Elas” contra a cultura do estupro no dia 1º em Porto Alegre. “O que me levou a participar foi o sentimento de solidariedade às vítimas. Muitos momentos me marcaram, especialmente quando vi amigas minhas desabafando sobre situações de estupro e assédio que já sofreram”, conta.

A promotora de vendas Amanda Paschoal participou do “Por Todas Elas” em São Paulo. A transfeminista Geovana Soares marcou presença no evento em Aracajú. A escritora e estudante de Serviço Social na UFRJ Lana de Holanda esteve na manifestação do Rio, dentre muitas outras. “O que mais me toca é a empatia feminina e por saber que todas estavam ali pela mesma revolta, pela mesma angustia, o mesmo nó na garganta. E por saber que, se uma cair, milhares vão se levantar”, diz Geovana.

TRAVESTIS E TRANSEXUAIS TAMBÉM SOFREM

Muito mais que apenas mostrar solidariedade e apoio à população de mulheres cis, as travestis e mulheres transexuais também sofrem com a cultura do estupro. Para algumas, de maneira ainda mais cruel, naturalizada e pouco debatida.

A militante e atriz Bárbara Aires, que participa da campanha #NuncaMeCalarei, afirma que desde a infância uma mulher transexual ou travesti podem sofrer com abusos e violências. “Pode ocorrer desde a criação e socialização, como gostam de dizer. Se a travesti ou a mulher transexual tiver "traços femininos" ou for "efeminada" desde criança, sofrerá agressões homo transfóbicas, dada sua imagem ainda cis associada à não representação social da masculinidade esperada. Será alvo de piadas e chacotas, podendo inclusive ser molestada, abusada e estuprada. Eu mesma sofri muito com tudo isso desde minha tenra infância. Já na idade adulta, sofremos os mesmos assédios e "cantadas" que as mulheres cis, e ainda julgam que estamos dispostas para o sexo 24h simplesmente por sermos trans. Isso quando não nos alisam, roçam e, se a gente reclama, acham ruim, dizendo que "somos viados e gostamos".

Geovana destaca as experiências de estupro em que travestis e mulheres transexuais passam ao trabalharem como profissionais do sexo. “Tenho inúmeras colegas que já foram estupradas e que nunca foram na delegacia denunciar por medo de ser mais uma vez violentada. Quando falamos em violência, sabemos que a população trans é a mais afetada”, alega.

Lana de Holanda (foto ao lado) concorda e diz que, ao mesmo tempo em que “travestis são estupradas o tempo todo”, “ninguém fala sobre isso”. Ela aponta a transfobia institucionalizada e naturalizada como as justificativas de o debate não ser promovido. “Violência com travesti é algo normal aos olhos da sociedade”, diz.

Linda explica que a naturalização das opressões ocorre porque, dentro de uma sociedade machista e cisnormativa, as pessoas não entendem como alguém pode renegar o papel atribuído de homem para vivenciar a sua identidade feminina. “Ainda vivemos numa sociedade onde os espaços de poder é dominado pelos homens. Quando negamos essa condição de ‘privilégio’ para exercer uma condição feminina, isso é visto de forma negativa por toda a sociedade”, afirma ela.

Lana acrescenta: “Muitos homens sentem ódio daquela que ousou se tornar feminina. E se tornar feminina é como se rebaixar, porque as mulheres são vistas como figuras menores”. Não é por acaso que a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos, que 90% desta população está compulsoriamente na prostituição e que o Brasil é considerado o país que mais mata pessoas trans com alto requinte de crueldade.

O MITO
Geovana no ato Por todas Elas - foto de Fernanda Siqueira
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Mas se por um lado não fala-se sobre estupros cometidos contra travestis, há uma tentativa de inserir travestis e mulheres transexuais como causadoras. Isso ocorre sobretudo quando tentam negar que travestis e transexuais utilizem o banheiro feminino, alegando o "medo" de que escondam possíveis abusadores vestidos de mulher.


“Devemos ressaltar que nunca existiu alguém que tentou se passar por mulher trans para estuprar outras mulheres nos banheiros. Isso é mais do que lenda urbana, é mentira, má-fé e mau-caratismo. Homens estupram em inúmeras situações que lhe favorecem, mas não conhecemos um que se vestisse de mulher para cometer estupros”, declara Luisa.

Linda afirma que essa “preocupação”, utilizada até por quem diz lutar por direitos humanos, é mais uma forma de camuflar a transfobia. “É um discurso altamente desumano. Desde que assumi a minha transgeneridade, sempre usei o banheiro feminino e sempre vou usar. Basta de sermos tratadas como aberrações ou potenciais estupradoras. O que se faz no banheiro mesmo? As pessoas usam para fazerem suas necessidades íntimas ou fazerem sexo? Insinuar isso é uma atitude criminosa”.

Já Geovana afirma que mulheres cis que afirmam se sentir inseguras de dividir banheiro com mulheres trans são no mínimo egoístas, uma vez que ao forçar uma mulher trans a ir ao banheiro masculino podem estar contribuindo para a violência, agressão e estupro. “Convido as mulheres cis, principalmente as que fazem uso dessa justificativa a se pôr no lugar de uma mulher trans, tendo que usar o banheiro junto com homens cis. Tenho certeza que a possibilidade de estupro é muito maior para nós”.

Luísa Stern durante a Caminhada Lésbica de São Paulo

O FEMINISMO QUE ACOLHE

Nas redes sociais, é comum encontrar grupos considerados feministas radicais que excluem travestis e mulheres transexuais. Mas não é o que acontece em vários movimentos e grupos feministas, que entendem que há vários tipos de mulheres e de mulheridades: negra, branca, baixa, hétero, alta, lésbica, asiática, magra, bissexual, gorda, cis, trans...

Linda é integrante do Coletivo de Mulheres de Aracaju e da AMOSERTRANS (Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis). E afirma ser acolhida pelas parceiras. “Não acredito num movimento feminista que não seja interseccional e que não faça recortes ou que não incluam as violências e exclusões que as mulheres trans sofrem. Para o movimento trans, penso que o caminho para mudar essa triste realidade que vivemos é se juntar a causa feminista, já que a causa principal da transfobia é o machismo impregnado em nossa sociedade”.

Bárbara explica que incluir pessoas trans no feminismo é importante para o reconhecimento destas identidades como femininas na sociedade. "Atualmente discutimos protagonismo e empoderamento trans. Incluir mulheres transexuais e travestis nessas discussões de gênero, e de violência contra a mulher, além de visibilizar a violência que sofremos, legitima e respeita nossa identidade de gênero. E afirma que somos, sim, mulheres. Mulheres trans e ainda assim mulheres".


Sobre aquelas que não reconhecem as mulheres trans como mulheres, Lana faz uma classificação: totalmente transfóbicas. “A parcela radical é muito danosa. E são danosas para as próprias mulheres cis, pois elas reduzem a mulher ao genital, ao útero, a menstruação. Reduzir qualquer ser humano à sua biologia, ignorando sua subjetividade é muita ignorância. Vamos então viver como bichos, como macho e fêmea. Mas aí estaríamos justamente entrando no discurso fundamentalista religioso de que "Deus fez macho e fêmea". Seriam então as feministas radicais na verdade feministas fundamentalistas? Deixo essa pergunta solta para elas”.



Mas, ao contrário do que acontece nas redes sociais, ela afirma que se sente plenamente acolhida nas passeatas e manifestações feministas que já participou. “A energia de todas aquelas mulheres, com suas particularidades, e todas juntas contra a violência sistêmica e a cultura do estupro foi muito bonito. Houve dois momentos em que senti que homens me olhavam torto – sim, homens cis também estavam no protesto, mas em menor número – mas eu não me deixei abalar. Segui firme com as manas, as cis e as trans”.

O COMBATE

As parcerias, as manifestações e a luta contra a cultura do estupro não acabou. Várias campanhas estão sendo realizadas, como a “Abaixo à Cultura do Estupro”, do PCU e Viva Melhor Sabendo Jovem, de Belém, que incluiu uma mulher trans (assista ao vídeo acima). E também como a #NuncaMeCalarei, do fotógrafo Márcio Freitas, que trouxe Bárbara.

“É uma campanha que busca trazer à tona a discussão sobre machismo, misoginia e cultura do estupro tão latentes em nosso país. É para mostrar que não aconteceu só com você, mulher que está lendo essa matéria agora, cis ou trans. É para que todas, e todos, vejam o quanto infelizmente isso é comum no nosso cotidiano. O quanto algumas histórias se repetem. É para que, conscientes dessa questão, lutemos contra. É para aquela mulher que sofreu algum assédio ou violência, não se cale. Saiba que pode, e deve falar”, afirma.




Linda defende a importância e a urgência do debate sobre gênero em todos os espaços da sociedade: “Discutir gênero é de fundamental importância, para que os jovens possam compreender aos causas de todas as opressões, que as pessoas tem a liberdade de ter exercer sua sexualidade da forma que ela quiser, e que não só existem uma forma de se relacionar, bem como existem pessoas que não se sentem adequadas ao gênero que foi designada ao nascer e tem o direito de exercer sua verdadeira identidade de gênero e que essas pessoas precisam, sim, ser respeitadas".

* Cultura do estupro é quando a violência sexual se torna algo comum, usual, naturalizada e replicada em diversos níveis, ações e espaços: desde uma cantada, propaganda, culpabilização da vítima, desrespeito ao 'não', entre outros. É quando, diante de tantos casos, parte da população não consegue entender a importância de discuti-la e combatê-la. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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