Pride

Ao lado de mulheres cis, mulher trans Ledah Martins participa de ensaio contra o machismo


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Por Neto Lucon

Num país onde uma mulher é estuprada a cada 4 minutos, é mais que urgente falar sobre machismo e cultura do estupro. E foi pensando nisso que a artista plástica Bárbara Goy em parceria com o C41 Estúdio, do fotógrafo Léo Pinheiro, promoveu o projeto Habeas Corpos.

Nele, sete mulheres – seis cis e uma mulher trans, a DJ Ledah Martins - aparecem nuas e carregam em seus corpos textos empoderadores por meio da arte grafitada de Bárbara. Fazem denúncias, observações e dão os seus gritos de liberdade, munidas pelo poder de ser mulher.

“Mulher é mais que genital”, escreveu Ledah em seu corpo. Já as modelos – Giovanna Victor, Amanda Barros, Adriana Fernandes Mota, Eugenia Maraston, Maria Alice Floriano e Priscila Rodrigues – ecoaram “Chega de culpar a vítimas”, “Meu corpo, minhas regras”, “Respeite as miga, as minas, as mona, os mano, os gay, as lésbicas, as negras e os negros”.

Durante o ensaio, o fotógrafo Léo – que foi o único homem envolvido no projeto – registrou cada palavra, cada arte e cada corpo com muita delicadeza, respeitando sempre a vontade de cada uma das mulheres fotografadas. A produção foi de Carol Fontes e a maquiagem é de Bárbara Fraga. E o resultado ficou tocante e empoderador.



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“SOFREMOS DUAS VEZES COM O MACHISMO”

A modelo e DJ Ledah afirma que foi convidada para o ensaio após ser indicada pela drag queen Angelina Lovelace, que mora em Dublin e que foi fotografada por Léo. Ela diz que considerou importante a participação, uma vez que o machismo e a cultura do estupro também afetam as mulheres trans e travestis.

Sendo uma mulher trans, Ledah afirma que é duas vezes vítima do machismo. “Sofremos em dobro, pois na cabeça do homem machista a mulher trans abriu a mão da sua superioridade masculina para ser uma mulher – o que não é uma verdade. Já escutei de homens: Você escolheu ser mulher, então tem que cozinhar mesmo, abaixar a cabeça, ser submissa”.

Dentre outros exemplos, ela aponta o mercado de trabalho e a vida amorosa, cujo machismo ganha o plus da transfobia. “O mercado de trabalho, que já não é bacana com a mulher cis, é ainda pior com a mulher trans. Já cansei de fazer entrevista, em que tinha o perfil ideal para a vaga, mas que não peguei porque sou trans. Aqui a luta não é por salário igualitário, é por qualquer oportunidade”.

Ledah destaca a dificuldade até no meio LGBT, onde os empresários da noite são em sua maioria gays cis. “O cenário noturno é dominado por homens gays cis, uma identidade masculina. As performers e as DJs mulheres, sejam cis ou trans, têm pouco espaço de trabalho em relação aos profissionais homens cis, que apesar de serem gays também oprimem”.

Já sobre os relacionamentos: “Enquanto a mulher cis enfrenta o machismo de que existe uma mulher para casar e a outra não – o que já é um absurdo – com mulher trans nem isso existe. Ela nunca é para casar, pois o homem vê a sua masculinidade ameaçada ao aparecer ao lado de uma mulher trans. É machismo e transfobia”.

UNIDAS SOMOS MAIS FORTES



Apesar de cada vez mais parte do feminismo ter se aberto para a comunidade de travestis e mulheres transexuais, ainda há a resistência de grupos de mulheres cis que são chamados de feministas radicais ou terfs. Para elas, a genitália define quem é mulher.

Ledah afirma que não se surpreende com a postura frente a tantos outros discursos extremistas, como de Bolsonaros e Felicianos. “Eu entendo a luta radical, ela é necessária, mas neste caso ela não deixa de ser transfóbica e desatualizada. Ela reforça a questão da ditadura da genitália e da binaridade, como se só existisse homem cis e mulher cis. Nós sabemos das várias possibilidades”.

Considerando-se de centro, a DJ afirma que as pessoas precisam ser mais tolerantes e empáticos. “O feminismo acredita na igualdade entre os sexos, seja na questão financeira, política, econômica, de direitos... Ele não oprime e não se pauta pelo preconceito. Ele entende que as mulheres trans também são mulheres. E que temos que nos unir. Todas as mulheres”.

Veja as fotos:














About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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