Pride

Ativista revela que homens trans são mais aceitos que mulheres trans em cultura paquistanesa



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O ativista Sabah Choudrey, homem trans de 23 anos, deu uma entrevista à BBC para falar sobre as primeiras paradas Trans que promoveu na Grã-Bretanha. E afirmou que, na cultura paquistanesa, revelar-se homem trans é mais aceitável que dizer ser uma mulher transexual.

Sabah, que na verdade é britânico e vem de família que mantém os valores da cultura paquistanesa, revela que a cultura dos avós avalia que ser homem é um privilégio. E revela que, quando explicou aos pais que era um homem trans há três anos, a reação foi positiva.

“Na verdade, a cultura paquistanesa tem muito preconceito com as transexuais que mudaram do gênero masculino para o feminino, já que ser homem é visto como um grande privilégio. Para eles ser homem é a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa, então abrir mão disso para se tornar uma mulher simplesmente não faz sentido. É por isso que não senti preconceito da minha família quanto a ser um homem trans”, declarou.

Apesar de ele ter sido aceito dentro de casa, isso não significa que não tenha sofrido ou não sofra transfobia em outros espaços. 
O relato de Sabah mostra sobretudo como a cultura de outros países pode responder de maneiras diferentes às diferentes vivências, orientação sexual, identidade de gênero...

DESCOBERTAS E PRECONCEITOS

Mas nem sempre o machismo foi um "privilégio” em sua trajetória individual dentro de casa. Antes de se perceber de fato homem trans, ele afirmou que a família foi bastante preconceituosa quando revelou que era uma mulher lésbica. “As lembranças da época em que saí do armário são nebulosas e distantes. Nem gosto de lembrar das coisas que eles me disseram”, diz.

Apesar de ter vivido uma fase na caixinha “lésbica”, ele afirma que sempre se percebeu um garoto. Tanto que passou parte da infância lendo livros, lidando com a vontade de externalizar o garoto que era e enfrentando o medo da reação dos pais. “Eu acho que a maneira com a qual meus pais foram criados definitivamente impactou suas visões sobre gênero e sexualidade, simplesmente porque era um assunto que jamais foi explorado em sua educação e criação. A cultura do sul da Ásia é assim”.




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Após revelar-se homem trans - ser aceito pela família e iniciar o processo transexualizador - o garoto encontrou resistência de amigas lésbicas, que não entendiam muito bem a questão da transexualidade ou transgeneridade, e o consideravam um traidor do grupo. Ele também conta que, ao sair da casa dos pais, foi difícil lidar com a transfobia na comunidade de Brighton.

"Para mim, pessoalmente, foi mais difícil pelo fato de eu ser do sul da Ásia e nunca ter conhecido outra pessoa transexual do sul da Ásia em Brighton. Eu acho que também não há muitas lésbicas do sul da Ásia na região. É uma área predominantemente ocidental, e eu tive que enfrentar, superar mesmo, os dois estereótipos", conta.

PARADA DO ORGULHO TRANS


Organizador da Parada do Orgulho Trans, ele afirma que a comunidade de mulheres e homens trans ainda precisa enfrentar questões semelhantes que gays e lésbicas cis enfrentavam nos anos 70.

Dentre elas, os estereótipos negativos, a rejeição quase total da sociedade, a dificuldade de entrar no mercado de trabalho, dentre outras situações que inibem a simples circulação de pessoas trans na rua. 


"Eu espero que este evento aumente nossa visibilidade, mostrando às pessoas que somos uma comunidade, e não um fetiche, um caso médico, ou algum tipo de aberração. A história dos transexuais é bastante obscura, e não vem tendo tantos progressos como a história dos gays", diz.

De acordo com ele, a Parada também ajuda na comemoração das trajetórias pessoais e pequenas grandes vitórias, sobretudo nas famílias. Ele diz que os pais finalmente podem vê-lo como um homem feliz e que sentem orgulho dele.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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