Pride

Casamento de brasileira transexual com italiano cis era sonho, mas virou pesadelo em MS



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A história de amor de uma cabeleireira transexual e brasileira – que prefere não revelar o nome – e de um advogado italiano cis virou pesadelo no Mato Grosso do Sul. Tudo porque os dois, que já vivem juntos desde janeiro de 2014 em Lisboa, Portugal, enfrentaram transfobia ao oficializar a união no Brasil.

Em reportagem ao Campo Grande News, ela conta que conheceu o marido pela internet e que se mudou para Portugal para ficar mais  próxima do amado. Em visita ao Brasil, eles decidiram se casar. Inicialmente foram ao cartório para a união estável. Depois, para convertê-la em casamento. Mas daí começaram os entraves.

O cartório questionava a documentação do estrangeiro, pedia uma tradução e o registro dele com a chancela do consulado. Detalhe: ele diz que a sua documentação era legal e que já estava traduzida pelo português de Portugal. Depois o cartório orientou que eles se casassem em Las Vegas ou na Alemanha, porque era mais “fácil”. Foram quatro pedidos negados

O casal precisou procurar o Ministério Público Estadual, o Ministério Público Federal, além da militante Cris Stefany e o Centrho (Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia). A brasileira chegou a ser chamada pelo nome de registro, não pelo nome social, no MPE.

Quando o pedido chegou ao MPF foi finalmente aprovado. Eles conseguiram converter a união estável em casamento no dia 15 de julho pela Justiça Itinerante.


FINAL FELIZ?

Mas engana quem pensa o casal conseguiu ter alguns dias de paz. Ambos queriam promover uma festa de casamento para os familiares, mas acabaram sendo alvo de uma agressão da própria família dela. Ela foi chamada pela mãe e o irmão arrombou a porta e partiu para cima dos dois.


A cabeleireira pediu para que o marido não interferisse porque aquela "era a família dela". “Meu irmão e a minha mãe começaram a bater em mim”. Sem saber o que fazer, o advogado ligou para o 190 das 20h59 até 21h20 – confirma a jornalista. Foram nove ligações e 15 pessoas agredindo o casal.

Passada uma hora, os policiais chegaram e prenderam... o casal! “A polícia chegou e era só: ‘cala a boca, seu filho da p..., seu merda de italiano e foram empurrando, agredindo meu marido”, diz ela. O advogado tentava argumentar que ele mesmo havia chamado a viatura para que os policiais os defendessem, mas a única coisa que escutou foi “cala a boca”. Já ela, por sua vez, recebia a pergunta “qual era o nome de verdade”.

Eles foram levados separadamente para a Casa da Mulher Brasileira de camburão. E ficaram lá por quatro horas sem conseguirem se ver ou se falar. “Eu falei dá-me um documento do porquê está mandando a prisão. E eles só diziam: você não é nada aqui”. E eu perguntei: a gente é preso assim? Sem direito de fazer uma chamada? E me disseram que é assim no Brasil. Isso não é direito humano".

Eles foram liberados após assinar uma ocorrência que trazia o relato da confusão em família bem resumida. Mas na última sexta-feira (22) foram até a Corregedoria da Polícia Militar denunciar o caso. A corregedoria da PM informou que os procedimentos legais estão sendo instaurados para averiguar a conduta dos policiais militares.

VIDA NO BRASIL

Nenhum dos dois pensa em continuar ou a viver no Brasil – uma possibilidade que pensavam anteriormente. “Imagina? Essa cultura? Eu que nunca fui preso, nunca me mandaram para a prisão... Não quero mais morar aqui, nunca mais”, afirma.

Já ela lamenta todos as agressões que sofreu e os entraves que quase afastaram ela e o marido. “Eu imaginava que viria para o Brasil em paz ver o túmulo do meu pai casar e fazer uma festa bem grande com a família”, diz.

De qualquer forma, que os lamentáveis casos sirvam de exemplo para que outros casos não ocorram. Que as adversidades sirvam para os unirem ainda mais. E que este seja o começo de uma história feliz. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Nova Rafael disse...

Depois as pessoas não entendem o motivo de serem feitas tantas campanhas e mobilizações: porque na nossa cultura um mínimo de respeito ainda é difícil de conseguir. O Brasil é um país intolerante a ponto de se tornar criminoso e cruel com as diferenças.

miguel_martins79 disse...

Poderiam se casar em Portugal e viver cá como já faziam que nós por cá tratamos as pessoas por igual independentemente da sua identidade de genero

Andreia Vargas disse...

80% desta história que ela conta é pura mentira.Sou prima dela,sou transexual e ela não vale nada.Entao antes de julgar minha família que é maravilhosa , procure saber os verdadeiros fatos ocorrido . Obg

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