Pop e Art

Documentário aborda rotina da Miss Trans Universo e mostra muito mais que glamour e beleza



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Por Neto Lucon

Eleita a mulher transexual mais bonita do universo, a miss brasileira Aleikasandria Barros é a estrela do documentário inédito “Muito Além da Coroa – Pelo Resgate da Cidadania para as pessoas trans”, da Tejera Studios, divulgado nesta sexta-feira (15) pelo NLUCON.


No longa, Aleika mostra o que ocorre em seu cotidiano, fala sobre transfobia e algumas das funções que uma miss desenvolve na Espanha. Como ações de combate ao preconceito, navegar pelas questões de direitos humanos, de combate ao HIV/Aids e em núcleos de proteção aos animais.

A ideia do documentário surgiu da vontade da miss – que está próxima da idade limite para os concursos, que vai de 18 a 37 anos - em mostrar a realidade da comunidade trans muito além do glamour. “A miss sempre aparece deslumbrante nas festas, mas eu queria iniciar um trabalho diferente, que mostrasse pessoas trans através da sua representante, que tivesse uma ligação mais aprofundada com a realidade das pessoas trans”, declara.

Por meio de um discurso lapidado e didático, Aleika aborda rejeição, bullying, evasão escolar, violência transfóbica e assassinatos. “Buscamos mostrar a nossa rotina, que só não é igual a de qualquer outra pessoa por conta de todos os estigmas e violências que sofremos e da falta de discussão nos países”.




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Ela destaca a importância de ações afirmativas para a comunidade T do mundo, como o Transcidadania do Estado de São Paulo – que oferece bolsas para trans que abandonaram as escolas devido ao preconceito voltarem a estudar – e a recomendação do presidente dos EUA, Barack Obama, em permitir que pessoas trans usem o banheiro de acordo com a identidade de gênero – inclusive nas escolas.

MISS MILITANTE

A miss revela que sempre esteve ligada em questões relacionadas aos direitos humanos das pessoas trans. Tanto que apoiou a criação da AMOTRANS em Pernambuco. “Aprendi com a vida que eu não devo somente cobrar. Devo também fazer a minha parte para colaborar para que os avanços aconteçam e que abranjam toda a população de travestis e transexuais”, declara.

Neste ano, ela encabeçou ao lado de outras misses o ensaio fotográfico “Sou trans e tenho direito à vida”, em que repudia todos os crimes transfóbicos do mundo, sobretudo os que acontecem no Brasil. Afinal, de acordo com a ong Transgender Europe, trata-se do país que mais matam travestis e transexuais no mundo.

Em outra ação, ela visitou a LLEIDA Anti-SIDA, que combate o HIV/Aids, e disse que este é um estigma que persegue a comunidade trans. “Muitas famílias brasileiras são tão ignorantes em relação à transexualidade que, quando uma filha fala sobre a sua identidade de gênero, automaticamente dizem que ela vai pegar aids em breve. É muito doloroso”.



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Aleika destaca que o principal em relação ao hiv/aids é a prevenção e o tratamento, jamais o estigma e o preconceito. “Achei importante visitar um centro de combate ao hiv para mostrar a rotina de quem trabalha se dedicando para levar essa informação e consequentemente ajudar a proteger vidas”, defendeu.

OUTRAS AÇÕES

Mas se engana quem pensa que a bela foca em ações voltadas apenas para a comunidade T. Neste ano, ela visitou o, e a Amics Dels Animals del Segrià, que protege os animais abandonados (cerca de 130 animais, que estão disponíveis para a doação). E também fez uma ação, ao lado de outras travestis e mulheres transexuais, com pessoas em situação de rua, independente de sua identidade de gênero. 

“Tenho uma paixão por cães e gatos muito antiga, gosto do convívio com animais e da relação de cumplicidade que estabelecemos. Quis mostrar uma das formas que temos para protege-los das constantes agressões humanas. Todos os projetos de proteção aos animais têm um papel fundamental dentro da sociedade que vivemos”, defende Aleika.
"Se lutarmos juntos, podemos chegar a um
resultado excelente nesta sociedade"

Do contato que teve com militantes de diversas áreas, ela afirma ter entendido o amor de quem ajuda pessoas e animais. "Esse aprendizado seja muito válido, pois acabamos conhecendo novas pessoas, fazendo novas amizades e descobrindo que todo mundo vive a sua história de luta. Se pudermos nos unir para lutarmos juntos, podemos contribuir muito e chegar a um resultado excelente no final”.

O LEGADO DE ALEIKA

Com diversos títulos de miss desde 1998 - dentre eles o vice do Miss International Queen, da Tailândia em 2007, a atual Miss Trans Universo defende que o documentário visa deixar a mensagem de que já passou do tempo de concursos de beleza focarem apenas na casca. E que a candidata deve ter consciência de que é a porta-voz de um grupo.

“No caso de uma miss t, que vai representar uma população violentada e marginalizada, ela precisa ter o dom da palavra, ter argumento plausível e saber de todos os assuntos que abrangem a população LGBT, com foco nas trans. Isso seria o que chamo de beleza com propósito”, diz.

Ela afirma ainda que espera que o vídeo seja assistido por todas as pessoas que lutam pelos direitos das pessoas trans. E que consigam absorver a mensagem para um mundo com menos exclusão, transfobias e direitos garantidos. “Recebi muitas mensagens depois que lançamos o vídeo. Isso é confortante, pois sabemos que fizemos o nosso melhor e tentamos colaborar com a causa T de alguma forma”.

Que sirva de exemplo às futuras misses...

Assista ao documentário: 




About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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