Entrevista

Longe da TV, Patricia Araújo abre salão de beleza e fala sobre espaço para atrizes travestis



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Por Neto Lucon

Chamando atenção pelo quesito beleza, Patricia Araújo tem o seu nome garantido entre as travestis e mulheres transexuais que brilharam na mídia brasileira. E que são consideradas musas do grupo.

Amada, venerada e também alvo de críticas, Patricia galgou espaço antes mesmo de a questão trans se tornar “moda” na mídia. Em sua passagem, desfilou no Fashion Rio em 2009, posou para ensaios sensuais e foi destaque de novelas como Salve Jorge em 2013.
No Fashion Rio, em 2009

Nos últimos anos, preferiu se afastar dos holofotes, pintou o cabelo de loiro e procurou ter uma vida anônima no Rio de Janeiro. Até um estabelecimento comercial – um salão de beleza – ela abriu ao lado de uma amiga para seguir a nova fase.

Parceiríssima do NLUCON, Patricia topou falar sobre as novidades, por onde anda e comentar sobre a bandeira de que haja representatividade trans em personagens que tenham as mesmas características em novelas e outras produções. “Boas oportunidades para travesti na TV só aparecem de década em década”.

- Todo mundo me pergunta: por onde anda a Patricia Araújo? Eis a oportunidade de perguntar...

Estou no Rio de Janeiro, vivendo a vida, cuidando de mim. Depois de toda a exposição que tive, daquele boom, precisava dar uma sumida, me recolher e pensar em tudo. É claro que sempre recebi elogios, mas também era muita gente falsa se aproximando, muita energia negativa... E eu sou da paz, do amor, gosto de energias positivas. Optei por dar uma sumida e ter uma vida de anônima por um tempo.

- Neste período, você chegou a ficar loira...

Realmente, a minha ideia era de ficar loira e passar sem ninguém me reconhecer mais. Mas você acredita que acabei chamando mais atenção ainda? (risos) Não mais como a Patricia Araújo, mas como uma loira, alta... Tanto que tive que voltar a ficar morena de novo. Foi bom para mudar, para ver como ficava loira, mas as pessoas estão acostumadas comigo morena.

- E o que você fez de lá para cá?

Muitas coisas. Como eu disse, procurei cuidar de mim, da minha vida e das minhas coisas. Viajei para fora do Brasil e, depois ao voltar, abri um salão de beleza aqui no Rio de Janeiro. É meu com uma amiga de sócia. As pessoas sempre elogiam, dizem que eu sou bonita, então acabo sendo um modelo e atraindo as mulheres para o salão. A minha ideia é expandir e abrir outro. Então, hoje em dia sou empresária e vivo uma vida de menina-mulher.
Patricia em fase loira e atualmente em seu salão de beleza



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- Desistiu da carreira artística?


Na verdade, boas oportunidades para travestis aparecem uma a cada década. Então não dá para contar apenas com esse trabalho e nem dá para pensar só nesta carreira. Você vê que a Rogéria – que é um dos nomes que as pessoas mais veem como exemplo - teve uma participação em Tieta nos anos 80, daí volta sempre em participações especiais. É sempre bem rapidinho, nunca como uma personagem do começo ao fim. Não é como as outras atrizes (cisgêneros), que emendam novelas inteiras e já estão escaladas para as próximas. Comigo e com as outras travestis e mulheres transexuais é a mesma coisa. Falta oportunidade de trabalho, da gente mostrar o nosso talento.

- A Glória Perez trouxe você e outra atriz trans em Salve Jorge, 2013. Foi o seu grande momento na TV?

Eu tenho um carinho e um respeito muito grande pela Glória. É uma mulher que está à frente do seu tempo e que sempre escreve assuntos relevantes para as pessoas. Sobre Salve Jorge, fiquei muito feliz que o convite partiu dela. Nós nos conhecemos em outro momento e ela sempre foi uma fofa comigo. Com certeza, interpretar a Priscila foi uma experiência muito importante e que mostrou que a gente também pode interpretar, trabalhar, mostrar beleza e talento. Depois, chegou a ser lançado o filme O Vendedor de Passados, com o Lázaro Ramos, e eu fiz uma participação em Viver à Vida.

- Tem algo certo para você participar em “À Flor da Pele”, a próxima novela dela que vai abordar também o tema da transexualidade?

Não tem nada certo, mas toparia fazer principalmente por se tratar da Glória, que me respeita enquanto profissional. Eu amo contracenar, fazer o que nasci para fazer. Além da Gloria, não aceitaria mais fazer aquelas participações que fazia há alguns anos. Quero que haja mais tempo para trabalhar a personagem. Às vezes, a gente é convidada em um dia e já começa a gravar no outro, às pressas. E eu gostaria de entender, estudar e viver mais a personagem, para que as pessoas possam ver que tenho talento. Travesti não é bagunça, né? (risos).




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- Você acha importante a questão de representatividade, de que atrizes travestis e transexuais tenham espaço?


Com certeza, porque temos meninas lindas e talentosas. É só procurar que acha. Se não colocou, não dá para dizer que não tem ou que não encontrou. É só procurar que acha. E não falo só de mim. Temos aquela menina linda, a Valentina (Sampaio), temos a própria Lea (T), que é fina, educada, uma fofa, a Carol (Marra) e tantas outras que estão aí. E não dá para falar que não têm experiência porque muitos atores começam a aparecer na televisão e vão aprendendo com o tempo. A Grazi (Massasfera) não tinha experiência, começou a atuar e agora arrebentou em Verdade Secretas, não é verdade?

- E a carreira de modelo? Daqui três anos, faz 10 que você desfilou no Fashion Rio... 


O Fashion Rio foi um divisor de águas. Não se fala sobre modelos travestis ou transexuais, e eu fui lá e fechei o desfile. A mídia falou que eu estava ocupando o lugar da Gisele (risos). Depois surgiram outras oportunidades, mas acho que o meu perfil e as minhas medidas vão mais para modelo de fotos. Tanto que cheguei a fazer alguns editoriais, posei nua e também para uma matéria do Virgula. Eu amo fotos e estou planejando nos próximos meses um novo trabalho.

- Você acha que houve uma transformação nos últimos anos no tratamento de travestis e transexuais?

Ah, com certeza. Acho que as pessoas estão mais preocupadas em nos tratar com respeito. Eu tenho um escudo contra o preconceito, mas sei que muitas meninas não tem. Vejo a mídia mudando o foco ao mostrar, por exemplo, o casamento da Leonora Áquilla e do Chico. Mostrou que o importante é o amor. Veja ela mudando quando uma empresa chama uma transexual para ser garota-propaganda ao lado da Juliana Paes. Ou quando a gente vê notícias positivas. Então, tenho esperanças para os próximos anos e para as próximas gerações.

- Quer deixar alguma mensagem?

Só muita paz, amor e união a todos.

Confira fotos de Patricia:








About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

já gozei muito com as cenas pornográficas que ela fez anos atrás

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