Entrevista

Mulher transexual é tradutora de dublagem e conta com Pokémon XY no currículo



.
Por Neto Lucon

Qual é o lugar da mulher transexual ou da travesti? Enquanto a sociedade aponta para um destino, diversas pessoas saltam a margem, transgridem e arrasam em um leque de profissões. Mostram que representatividade é importante.

Aos poucos, deparamos (e divulgamos) uma professora transexual, uma atriz travesti, um atendente homem trans, uma advogada travesti, uma diretora transgênero... E, agora, uma tradutora para dublagem mulher transexual, Iara de Delacruz.

Há cinco anos, ela é responsável pela tradução para dublagem de diversos filmes, séries e desenhos famosos que assistimos na televisão, no cinema ou na Netflix. O mais famoso, o desenho Pokémon: A série XY, cuja tradução foi elogiada por fãs da série. Dentre os estúdios que presta serviço está a Centauro Comunicaciones e Lexx.

Iara revela que, ao ser convidada para uma matéria ao NLUCON, decidiu revelar pela primeira vez que é uma mulher transexual no trabalho. Um ato de coragem em tempos de transfobia latente. Mas que dialoga perfeitamente com suas grandes inspirações: a personagem Ellen Ripley, de Aliens – O Resgate, e a cartunista Laerte Coutinho. Sim, trata-se de uma trans geek!

O resultado você fica sabendo no bate-papo abaixo:

- Como iniciou a sua história no universo da tradução para dublagem?

Comecei em 2010. E três fatores facilitaram a minha entrada: eu já trabalhava como técnica de som no estúdio Centauro Comunicaciones, sabia inglês e tinha um domínio razoável de português, que também é fundamental. Ah! E aprendi inglês jogando videogame, e isso é para quem acha que jogar videogame não serve para nada (risos). Falei para eles: manda umas traduções para eu fazer. E, como já conhecia como era o procedimento do estúdio, como eram feitos os detalhes e as minúcias, tive bastante facilidade. E fui traduzindo...

– E já entrou de cabeça...

Foi aos pouquinhos. Recebia o trabalho em uma semana, na outra recebia outro, daí passavam duas semanas e eu ficava sem receber trabalho. Mas com o tempo, mais precisamente em 2012, eu comecei a trabalhar bastante. Foi a hora que eu comecei a morar de aluguel, a precisar do dinheiro, e comecei a focar nas traduções para dublagem.

- Como é o seu processo de trabalho?

É bem puxado. É um processo muito dinâmico e que exige muita prática e um ritmo acima do normal. Eu recebo um script num dia e às vezes tenho que entregar no dia seguinte. É um trabalho especializado, porque não é só traduzir o que está escrito. Você tem que traduzir pensando que o texto vai ser falado, que vai ter que bater com a boca da personagem que está no filme. Ou seja, tem a questão de linguagem e até de interpretação, porque mesmo que o tradutor não interprete, às vezes uma vírgula, uma exclamação e um ponto faz a diferença. Às vezes você tem que realçar no texto uma palavra para que o dublador entenda a entonação da personagem. Por exemplo: você não é rei, EU sou o rei.

- E como você faz para enfatizar?

Negrito. Foi uma solução simples, porque no tempo como técnica, eu não via nenhum tradutor fazendo isso. Apesar do tempo apertado, eu sempre tento mandar o trabalho o mais redondo possível e na métrica certa para dar o mínimo de trabalho no estúdio. Mas com cinco anos de trabalho, eu ainda me considero em começo de carreira.


- Uma dúvida: o que você faz quando observa termos politicamente incorretos como “transexualismo, homossexualismo”? Você pode mudar?

Eu não peguei termos assim ainda, mas temos que levar em conta várias questões. Se for um documentário para conscientizar as pessoas sobre homossexualidade, alguém diz “homossexualismo” e você percebe que foi um erro da produção, daí você pode ir lá e colocar “homossexualidade”. Mas se for um homofóbico que está falando uma besteira, do tipo “homossexualismo é errado”, você tem que colocar do jeito que ele falou. Neste sentido, temos outra coisa curiosa que é em relação a palavrões e linguagens chulas, que por padrão a gente deve evitar. É por isso que você vê pérolas em filmes como “Seu filho da mãe”.

- (risos) Quais são os trabalhos mais marcantes que você fez de tradução?

Tem muita coisa, mas vamos lá. Traduzi o (filme de ação) Machete Mata para o estúdio Lexx Comunicações. Traduzi (a série) Continuum, traduzi vários episódios do reality show Face Off, ambos do Syfy. Recentemente fiz vários trabalhos de O Sócio, que passa no History. E uma certa série aí que eu não posso falar muito a respeito, mas eu posso falar qual série é.

- E qual é?

É Pokémon (XY) e eu traduzi recentemente duas temporadas. Mas é algo que eu não posso falar muito, porque eu assinei um termo confidencialidade. 

- Mas chegaram a te eleger uma das melhores tradutoras de Pokémon, não?

Foi uma matéria da PokeblastNews (leia ela clicando aqui), que fez uma reportagem sobre Pokémon XY. O menino chegou a visitar o estúdio para ver, aí tá lá na reportagem: “uma das coisas mais legais que vi foi a tradução, que é coerente, concisa, muito boa, fiquei muito contente que entregaram a tradução para essa pessoa e espero que ela continue por muitos anos”. Quando olhei o texto, fiquei feliz, fiquei contente com isso, né?



- De todas essas traduções, as pessoas sabem que se trata de uma mulher transexual nos bastidores?

Na verdade, eu me assumi oficialmente trans no trabalho hoje. Mas eles faziam ideia. Duas pessoas que também trabalham com dublagem me adicionaram no Facebook, eles devem ter falado ali e a notícia se espalhou. Quando você me chamou para fazer essa entrevista, eu falei: “Não posso fazer essa entrevista sem antes comunicar a empresa, né?”. Então, juntando o útil ao agradável, já que tenho que me assumir de qualquer jeito, vou me assumir logo de uma vez.

- E como eles receberam a notícia?

O gerente foi muito gentil, receptivo. Ele até ficou um pouco espantado no começo e eu vi pelos olhos, mas não vocalizou nada. Chegou a comentar da Caitlyn Jenner, que o estúdio também faz a dublagem. E eu falei que era um risco contar pelo preconceito. Mas ele afirmou que, “dado o meu histórico na empresa, eu não preciso ter medo de nada, que nada vai impactar no meu trabalho e que eu sempre posso contar com o apoio que precisar”. O mais bacana foi que, após contar e falar que o meu nome é Iara, ele estendeu a mão para mim e disse: “Prazer, Iara”.

- O que significou essa “saída do armário” no ambiente de trabalho?

Eu me senti acolhida. Até porque já aconteceu de ter me assumido em outro lugar que eu trabalhava e o empregador disse: “Não tem problema, não temos preconceito”. Mas veio a época de férias e, quando eu voltei, trabalhei um dia e ele já veio me dar uma desculpa qualquer para eu ir embora. Ele disse que ia me chamar assim que precisasse de novo, e nunca mais chamou.

- Há outras mulheres transexuais na tradução de dublagem? Você acha importante a questão de representatividade?

Tenho uma grande amiga, a Mayane Lins, que também quer trabalhar com tradução. Eu acabei a treinando e ela está tendo trabalhos. Ela também gosta deste mercado e quer participar. E estou dando uma força. Acho que é mais que importante vermos trans saindo de um lugar imposto para estar ocupando todos os outros. É necessário.

 Nós também somos seres humanos que merecemos o nosso lugar ao sol. Então é mais que certo que haja representatividade trans. Estou gostando de ver, por exemplo, esse desabrochar nas mídias, de pessoas trans trabalhando em cinema, mas ainda está tímido. Precisamos de mais séries como Sense8, Orange is the New Black, Hit and Miss, apesar desta última, a protagonista trans ser interpretada por uma atriz cis... De mais trans ocupando várias profissões e espaços.


- Por falar em representatividade, há alguma pessoa trans que tenha te inspirado?

A Laerte. Em meados de 2010, quando eu estava ensaiando para iniciar a minha transição, a minha psicoterapeuta Irene contou para mim: “Você viu que a Laerte se assumiu?”. E quando eu fui assistir ao Roda Viva eu falei: “Uau, que legal”. Se eu achava que tinha algum problema se assumir depois da minha adolescência, quando eu vi a Laerte se assumindo em seus 60 anos, falei: foda-se, vou me assumir também”. Mas eu nunca tive coragem de agradecer. Até estive na passeata em memória da Laura Vermont e ela estava lá do meu lado, mas eu não tive coragem de falar com ela, porque sou muito tímida e bocó (risos).
A cartunista Laerte Coutinho, a atriz Laverne Cox e a tradutora Iara Delacruz


.
- Você costuma ver o seu trabalho quando já está disponível para o público?


Quando eu pego na TV ou na Netflix eu assisto. E é uma bosta a experiência, porque eu sou muito crítica. Eu só fico catando defeito, “podia ter feito diferente, poderia ter melhorado aqui, ali”. Sou doentemente crítica e é até perigoso ficar assistindo, porque corro o risco de travar no processo de tradução.

- E quando vai ao cinema você prefere filme dublado ou legendado?

Tanto faz. O que me desestimula é quando eu vejo que a legenda está errada ou quando a dublagem está ruim. Aí eu troco e torço para que o outro formato esteja melhor. A dublagem boa é quando você começa a assistir ao filme dublado, passa cinco minutos e você esquece que ele é dublado. Até quando saiu o Despertar da Força – pode colocar aí que eu sou fã doente de Star Wars – eu assisti várias vezes no cinema dublado e legendado.

- Você já pensou em querer ir para o outro lado e também fazer a dublagem?

Tenho sentimentos mistos em relação a isso. Já pensei nisso, já fiz curso de teatro, já considerei bacana emprestar a minha voz para as personagens. Mas ao mesmo tempo eu me sinto tão bem dentro do que eu faço que não sei se gostaria de mudar. Talvez eu até devesse tentar para ver se me encontro melhor dentro dessa questão. O que eu posso dizer é que, caso eu faça dublagem, não vai ser com pressa.

- Quando os créditos sobem, não é o seu nome social que está lá. Como é isso para você?

Eu sei que os dubladores podem colocar o nome artístico. Mas para tradutora não sei como funciona a parte legal dos créditos. Como eu não havia comunicado oficialmente que sou uma mulher transexual, tudo o que traduzi foi com o meu nome de registro. É óbvio que eu preferiria que subisse o meu nome social, mas eu particularmente não me incomodo que as pessoas saibam do meu nome anterior. Eu estou passando pelo processo de transição, mas não quero apagar o meu passado. Conheço muitas trans que queimam as fotos antigas, que não querem lembrar de nada de antes, mas eu guardo tudo, para mim é registro da minha vida.
Alguns dos filmes e séries que contam com o trabalho de Iara Delacruz

- O que você pensa profissionalmente a longo prazo?

Eu amo trabalhar com tradução. É um nicho que encontrei e que me encaixei perfeitamente. E tive uma sorte tremenda de ter conseguido entrar nesse meio e de me sentir em casa. Para eu deixar esse trabalho, só se encontrar algo muito melhor. Mas não consigo visualizar uma coisa tão melhor agora.

- Sei que você é geek e que nesse universo há muitas reclamações de machismo. Você sofre transfobia?

A pessoa nerd também cresce sofrendo muito preconceito da sociedade. Os amigos querendo diminuir na escola, dizendo que é menos homem porque é nerd. Na escola eu sofria isso: me chamavam de boiola, de mocinha. Mas não porque eu tinha trejeitos, eu não tinha, era só porque eu era nerd e ficava na minha. Talvez seja por isso e pela própria indústria, que investe em personagens masculinos, heróis que salvam as mocinhas, que muitos nerds também se tornam machistas, transfóbicos, homofóbicos. Eu procurei um grupo no qual eu me sinta segura. E encontrei o Minas Nerds, que eu participo e posso interagir com essas pessoas sem medos de sofrer transfobia. Como o meio se mostrou meio tóxico, nós Minas Nerds nos unimos. Um beijo pra Tamires, Cecília e Sarinha.

- Certa vez, você fez uma linda e marcante ilustração para nós no Dia Internacional da Mulher. Pensa em explorar esse lado de ilustração?

Não considero um trabalho, faço por hobby. Eu gostaria de explorar mais, fazer uma revista em quadrinhos, e deixar isso ao público. É claro que terei personagens trans, mas não como tema central – do tipo, a história de uma pessoa trans que está se assumindo, não. O gênero que eu curto é ficção científica e também porradaria, é tiro, bomba, facada, de guerra. Star Wars, Aliens – o Resgate. Ou seja, vamos ter personagens trans descendo a porrada e saindo muito bem.


Fora isso, eu também tenho um hobby de plastimodelismo. Você compra um kit de um veículo, avião ou tanque, e você tem que montar e pintar. Eu estou na parte de montar aviões de plástico. É uma coisa muito divertida, terapêutica, até porque gosto de aviões temáticos. Eu fiz um avião em homenagem ao meu cachorro Buddy. E transformei um avião caça T-50 da Rússia, em um avião trans. O T de trans, que bombardeia 50 transfóbicos por dia e pintei o avião nas cores da bandeira trans. Uma resposta à lei transfóbica e homofóbica que há na Rússia. 

- O que você acha que ainda hoje a sociedade tem que desmistificar em relação às identidades trans?

As pessoas precisam parar de enxergar a gente como algo de outro mundo, como objeto sexual, como aberração. E passar a enxergar a gente como simples pessoas que também estão aí na batalha, tentando viver as suas vidas, que tem sonhos, que tem desejos e que querem conquistar uma vida digna. Mas infelizmente ainda temos que lutar por um direito básico, que é o direito à vida.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.