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Profissional do sexo e doutoranda, travesti Amara Moira lança livro “E Se eu Fosse Puta”




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Por Neto Lucon
Foto: Bruno Poletti

“E Se eu Fosse Puta” é o nome do livro da travesti Amara Moira que chega às livrarias a partir do dia 5 de agosto (a próxima sexta-feira). Profissional do sexo e doutoranda em crítica literária pela Unicamp, ela relata as suas experiências nos últimos dois anos em um texto envolvente, rebuscado e necessário. Ah! E com tirinhas da cartunista Laerte Coutinho. 

A obra de 216 páginas é publicada pela editora Hoo (R$ 34,90) e traz um relato em primeira pessoa e sem clichês de "uma travesti que se descobre escritora ao tentar ser puta e puta ao bancar a escritora". Os processos de sua transição de gênero, olhares que recebeu, transfobias que enfrentou e a entrada na profissão do sexo em Campinas, interior de São Paulo, são relatados na obra. 

“O livro é um apanhado de histórias concatenadas. Mas é mais que um livro sobre prostituição. É um livro sobre a construção da minha identidade. Pois foi lá que eu descobri quem eu era, que eu fui me tornando mais segura de ser quem eu era”, declarou ao NLUCON.

Dividindo a prostituição com o doutorado, Amara discorre sobre os processos de construção de sua identidade, a relação com a família (como a primeira vez que aparece com roupas consideradas femininas para a vó de 92 anos), o contato com as colegas de trabalho - além dos detalhes dos programas com os clientes, ora incríveis ora perturbadores. Aborda tanto as angustias – como ser considerada uma aberração – quanto os prazeres de ser desejada à luz do dia.

A PROSTITUIÇÃO ME MOTIVA ESCREVER

"Comecei por safadeza mesmo, assumo, carência brutal, vontade que me desejassem, pegassem, pagassem por mim, mas rapidinho eu vi que não era assim bom como eu sonhava e aí escrever sobre, poder escrever sobre, começou a ser razão de eu continuar. Hoje já nem sei mais se me prostituo pra escrever ou se escrevo pra me prostituir, essa é a verdade".

Antes do livro, ela já escrevia em um blog homônimo - E se Eu fosse Puta - que fez sucesso nas redes sociais e foi um dos primeiros contatos de muita gente sobre a profissão do sexo. As postagens mais populares são "Monólogos do Lixo", "Nas coxas: meu dia de puta na Europa", "Faz isso não, eu vim para comer" e "Agora você já ganhou os seus vinte".  



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Para quem acompanha o blog, Amara afirma que os textos do livro vão muito além dos relatos que já fez. “Trouxe histórias que não havia escrito e escrevi radicalmente outros que já havia publicada. Não porque inventei algo, mas porque me permiti dar detalhes e me permiti escrever na perspectiva de quem processou a informação, e não de quem viveu na hora. O livro vai ser um pouco disso: da Amara que sou hoje, dois anos depois da transição”.

Ao comentar o que o livro representa, a escritora afirma que se trata sobretudo da ocupação de um espaço que a população de travestis ainda não está representada. Além da desmistificação de alguns dos preconceitos envolvendo a profissão do sexo e suas trabalhadoras.

“Como não entendo a prostituição como algo negativo, não é minha prioridade tentar desfazer a ideia de que a maioria das travestis é prostituta, mas sim lutar por um outro olhar sobre a prostituição, um olhar que nos valorize enquanto trabalhadoras, que reconheça a importância do nosso trabalho... E daí eu querer usar a prostituição para escrever, invadir as livrarias, bibliotecas, quem sabe um dia cair no vestibular. E dizer ainda que não é porque sou prostituta que não sei escrever literatura ou livros que mereçam ser lidos. É disputar esse espaço e mostrar para a sociedade que nós temos um potencial que está até então inexplorado”, diz.

Amara espera que com a sua obra surjam outros livros com travestis e transexuais profissionais do sexo. “Certamente elas também têm muita coisa para dizer”, finaliza.

Você pode encomendar e comprar o livro "E Se eu Fosse Puta" clicando aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Raissa Rosseto disse...

Neto, te acompanho a tempos, já nos falamos algumas vezes, e devo te dizer que ela disse muito do que eu queria dizer... tenho um livro pronto também é estou atrás de publica-lo... vou hoje mesmo procurar a mesma editora!!!
Parabéns para Amara, pelo livro e a você por toda sua militâncias e apoio... Obrigada!!!

Tbm tenho um blog, se quiser e puder divulgar, tem alguns textos, mas é novo... o outro meu foi rackeado!!

O endereço é http://raissarosseto21.blogspot.com.br

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