Entrevista

Cantora Melany Marinho supera transfobia no universo sertanejo e sonha cantar com Paula Fernandes



Por Neto Lucon

A cantora Melany Marinho, de 25 anos, vem galgando espaço e fazendo sucesso na música de Manaus. E é – até onde sabemos – a primeira cantora transexual que atravessa a música sertaneja no Brasil.


A voz se assemelha à de Paula Fernandes – artista famosa que ela adoraria dividir o palco – mas que tem a consciência de que cada uma tem o seu próprio brilho, talento e espaço. “Não imito, sou a Melany”.

Com altos, baixos e interrupções, a carreira da talentosa artista começa a deslanchar nos últimos dois anos. E Melany diz enfrentar, além das corriqueiras dificuldades de qualquer artista, as transfobias do dia a dia. Dentre elas, a de cantar e ser alvo de risadas.

Ela afirma ser uma mulher corajosa e que não vai desistir dos seus sonhos, tampouco do seu espaço. E traz consigo a letra da música “Tocando em Frente”, de Almir Sater. “Ando devagar porque já tive pressa/ E levo esse sorriso porque já chorei demais/ Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? / Só levo a certeza de que muito pouco eu sei/ Nada sei”.

Confira o bate-papo:

- Como começa a sua história na música sertaneja? É verdade que iniciou ao lado de seu irmão gêmeo?

"Se disser que não sofro transfobia estaria mentindo"
Sim, comecei cantar aos cinco anos com o meu irmão. Mas nunca tivemos o apoio de nossas famílias. Para eles, a música não era um meio de trabalho ou algo que pudesse explorar grandes conhecimentos futuros. Porém, eu sempre fui teimosa. Acreditei, lutei e fui para cima dos obstáculos que eu tinha que enfrentar.

- Quais são as suas referências?

O sertanejo de raiz é o meu forte. Dentre as cantoras, adoro as Irmãs Galvão, a Roberta Miranda, a Sula Miranda... Já entre as atuais, gosto da Paula Fernandes, Marilia Mendonça, Maiara e Maraisa. E também gosto muito de escutar artistas country como Shania Twain, Dolly Parton e Dixie Chicks.

- Quando começou a levar a habilidade de cantar como profissão?

Aos 18 anos, formei a minha primeira girl band com quatro amigas chamada Space. Era 2008 e cantávamos de tudo, sem esquecer a essência sertaneja. O grupo não deu certo. Então em 2010 retornei gravando vídeos pelo celular, cantando a capella e divulgando músicas de outros artistas. Os vídeos eram muito amadores, mas chegou um dia que um fã me abordou no shopping e pediu para tirar uma foto comigo. Vi que ali as coisas estavam ficando sérias (risos).

- Você chegou a ter outra interrupção, né? Cheguei a ver várias fotos de você com uma amiga que lutava contra o câncer...

Em 2012, eu estava me dedicando e investindo totalmente, mas um ano depois tive que parar de novo. A minha melhor amiga, Maria Cristina, e o meu pai foram diagnosticados com câncer e eu parei. Em 2015, depois de eles terem falecido, foi que as coisas voltaram. Estou até hoje graças a Deus e às pessoas que acreditam em mim e na força do meu trabalho.

- Algumas pessoas dizem que a sua voz se assemelha à da Paula Fernandes. O que acha disso?

Sim, sim. Logo no começo da minha carreira, as pessoas diziam que eu não cantava ou que não tinha voz. E que, principalmente, eu imitava a Paula Fernandes. Mas eu enfrentei isso de forma ampla, tendo a consciência que a Paula Fernandes é a Paula Fernandes e que eu sou a Melany Marinho.

- Qual é o seu repertório?

Faço aquilo que agrada o público e que não fica na mesmice. Meu repertório vai desde as raízes sertanejas, ao arrocha, country e também músicas internacionais. Todos retribuem de forma maravilhosa.


- Essa foi um dos leitores que pediu para perguntar... Dentre tantos cantores considerados galãs, quais você mais gosta?

Luan Santana (risos). Claro que sempre tive sonhos com ele, cantando no mesmo palco. O último sonho eu tive que estava compondo junto com ele.

- Dizem que o universo sertanejo é um tanto machista. Você concorda com isso?

Na verdade o machismo existe em todos os lugares ou estilos... Seja no pop, sertanejo, forró, funk, enfim... Logo no começo, muitos não acreditavam em mim. Até mesmo artistas que eu admirava por aqui diziam para eu desistir e eu me decepcionei. Mas sempre tive consciência de que esse momento está passando e que as mulheres estão mostrando seu potencial, a sua garra e a sua diferença de fazer música e conquistar o seu espaço.

- Já escutou algo que tenha te marcado?

A mais tocando de todas foi ouvir: “Você não vai dar certo”, vindo de pessoas que eu admirava e que não acreditavam em mim. Mas hoje eu lido com o preconceito não ligando para o que essas pessoas falam. Não ligo, sigo em frente e ainda danço e mostro o meu potencial e o meu valor no palco.



- Você atribui isso à transfobia?

Se eu disser que não sofro transfobia, estaria mentindo para todos os leitores e para todos que me acompanham. Enfrento isso todos os dias e já fui agredida uma vez. Sei como as trans se sentem ao passar por esses momentos. É muito triste e traumático nos darem rótulos sem nos conhecer. E é mais assustador ainda quando as trans são mortas. O Brasil é o número 1 no ranking de assassinatos de pessoas trans. Poderia ser eu, então fico horrorizada quando eu vejo.

- Em Manaus, as pessoas sabem que você é uma mulher transexual?

Na verdade, sim. As pessoas sabem que, sim, há uma mulher transexual representando outras mulheres no ramo sertanejo. E me orgulho disso, não ligo para o que pensam ou falam. Em muitos shows que fiz, vi as pessoas rindo de mim, debochando de mim, mas ao descer do palco, recebo um aperto de mão, um abraço, um elogio. E isso é que fazia a diferença. Aliás, toda a diferença.

"As pessoas sabem que há uma mulher transexual
representando as mulheres no sertanejo"
- Anteriormente, quando te convidei para uma entrevista, você não quis que eu abordasse a questão trans. Você sente medo de que atrapalhe a sua carreira? O que te motivou a querer falar?

Eu sempre fui uma mulher corajosa. Meu pai sempre me incentivou a ser respeitosa com todos, a ser sincera e verdadeira. No começo não quis falar, não devido à minha carreira, mas por achar que as pessoas não estavam preparadas para lidar. Para eles, o assunto ainda é caótico, mas para nós ele é importante. 

Depois pensei: nunca falei sobre mim e todos já sabiam... Para quê esconder quem eu sou? O respeito com o público que sempre me respeitou foi o motivo para que eu passasse a ter mais respeito comigo mesma.

- Você conhece outras cantoras trans?

Em Manaus não conheço, mas em outros estados, por meio de grupos nas redes sociais, sempre vejo. E acho digno ver. Aqui em Manaus não tenho contato com outras meninas trans e travestis, mas sempre acompanho nas redes sociais. São grandes profissionais na área da beleza, estética e arte. 

- Como foi a sua vivência trans em Manaus?

Infelizmente não é fácil. Muitos amigos de infância e vizinhos sabem de perto o que eu passava – principalmente em casa – e que é muito forte falar desses assuntos que você quer esquecer. Aos quatro anos, eu já sabia o que queria. Mas só com 15 é que as mudanças aconteceram. O apoio da minha família foi muito difícil, pois eram muito rígidos e tradicionais. Muitos me respeitaram, mas eu tinha que lidar com o deboche no dia a dia. 

Na escola, ainda na infância, havia um menino que não gostava de mim e que não suportava ter uma trans na mesma sala que ele. Ele chegou a reunir uns amigos e me bateu fora da escola. Com o passar dos anos, eu comecei a ser bastante popular e respeitada na escola. Acho que foi a maneira como eu agi. Decidi encarar a realidade de forma justa, respeitando a todos e tendo consciência de que somos iguais perante a Deus.



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- O seu irmão continua contribuindo ou incentivando a sua carreira?

Ele me apoia e até me dá uns carões devido ao estilo de roupas que eu uso (risos). Hoje ele tem a própria carreira e também está na luta pelo seu próprio espaço. A nossa dupla terminou por divergências, mas admito que eu sempre tive sonho de ser uma artista solo, de ser uma referência e de fazer a diferença.

- Quais são os seus maiores sonhos hoje?

Bom, poderia dizer que é viajar, conhecer lugares do mundo, ser rica (risos). Mas prefiro me realizar com as coisas mais simples que amo fazer. O que me faz sentir orgulhosa é conquistar o meu espaço, quebrar tabus e preconceitos. O meu sonho é fazer a diferença, pois é por meio do diferente que o reconhecimento vem.

- Gostaria de deixar alguma mensagem aos leitores?

Gostaria de agradecer a todos que estão lendo essa esta entrevista. Meu grande beijo e abraço para todas as trans e homens trans que admiro. Juntos somos mais fortes. Jamais desistam dos seus sonhos, pois tudo o que é impossível pode se tornar realidade. Basta ter fé e força de vontade. Pois quando uma porta é fechada, Deus nos reserva várias janelas abertas.

Assista Melany cantando:






About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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