Entrevista

De barba, batom e saia, Carlota Miranda fala sobre polêmica sobre nome social e banheiro feminino



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Por Neto Lucon

Estudante da PUC-RS,
Carlota Miranda provocou debate na última semana. Tudo porque mostrou nas redes sociais ter conseguido usar o nome social na universidade e informou que frequenta o banheiro feminino. Nada diferente se Carlota não tivesse barba, batom e se não fosse encarada por parte da militância trans como uma afronta aos direitos conquistados.

Para muita gente, Carlota não passa de um homem cis se apropriando dos direitos conquistados pela comunidade trans, debochando dos mesmos e atrapalhando a luta pelo reconhecimento da identidade. Sobretudo num momento em que o direito ao banheiro de pessoas trans é dificultado e confrontado por discursos de possíveis figuras ditas masculinas em tais espaços.

Outras pessoas defenderam Carlota, dizendo que estavam fazendo exatamente o que muita gente transfóbica já faz: delimitar espaço por caraterísticas e padrões do que é ser mulher, feminino e passável. Seja por uma vagina, por uma perna com pelos ou por uma barba. O debate continuou, dividiu opiniões e deixou muita gente sem saber o que opinar.

Como várias leitoras solicitaram que nós do NLUCON não ficássemos quietos. Resolvemos, então, fazer o básico e o que pouquíssimas pessoas se permitiram: escutar os discursos da própria Carlota, que topou uma entrevista franca e direta. Esperamos que contribua para o debate.

- Carlota, como você se identifica e como posso te tratar?

Me identifico como uma pessoa não binária, de gênero neutro. Mas existe esta dificuldade com a língua portuguesa de não haver um gênero neutro, um pronome neutro como no inglês e no alemão, por exemplo. [Carlota escreveu todo o texto com “x” para não se referir aos gêneros masculino ou feminino, mas como já fomos avisados de que o “x” acaba dificultando a leitura de pessoas deficientes visuais, substituímos o "X" por “e”. Obviamente com a autorização da fonte]

- Quais foram os processos para você se entender uma pessoa não binária?

A desconstrução se deu através das leituras que fiz na faculdade, das minhas vivências enquanto pessoa, das leituras sobre as políticas queer, sobre o não binarismo de gênero, através de Judith Butler inicialmente. E das falas que faço em colégios e outros eventos dos quais sou convidade a falar.

- E de qual maneira se dá essa identidade na vivência? Pergunto isso porque algumas pessoas estão dizendo que você é “apenas um homem gay cis com batom”...

Uso saia diariamente e quem me conhece sabe disso: batom, salto, glitter. Fui incorporando aos poucos. E sofro diariamente uma vigilância, pois não sou lido como um homem gays cis, pois estes símbolos ‘bagunçam’ este lugar. Estes mesmos símbolos não possuem gênero para mim, mas foram incorporados como sendo femininos ou masculinos. A saia, por exemplo, desestabiliza alguém que a lê como uma peça exclusiva do vestuário feminino. O batom, o salto... Faço por gostar e não por incorporar o gênero a estes símbolos.





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- Por que você acha que causou tanta polêmica sobre o nome social e o banheiro justamente da comunidade trans?

A polêmica da foto eu acredito pelo fato do nome ser lido como um nome feminino e eu estar de barba. Sei que muitos não conseguem me ler como uma mulher, pois tenho barba e é um marcador masculino. Mas não me identifico como mulher e nem como homem. Mas como uma pessoa não binária, como te disse no início. Barba, bigode, saia, salto são marcadores de gênero, que para mim estão desconstruídos. Também sou lido como uma pessoa que flui entre os gêneros – apesar da barba – que causa confusão em relação à leitura que fazem. Pois estou deslocando esses lugares compreendidos como naturais, mas gênero é uma construção, um discurso político, uma categoria engendrada e reafirmada todos os dias.

- Você acha que o grande problema foi a barba? 

Acredito que o fato de eu não me identificar como binário causou tanta polêmica, já que o uso de nome social até então é uma política para pessoas binárias, que se identificam com o gênero feminino ou masculino. Mas, sim, a barba é um marcador de gênero que está colado ao gênero masculino.

- Ok... Mas existe uma maneira como você se vê e a maneira como você é lido... Como a sociedade lida com você e você lida com ela?

Sou xingade, riem da minha cara, fazem piadas de todo tipo, pois o que seria um homem de barba e batom caminhando de saia pela cidade, que tipo de aberração é essa? Que confusão é essa? Onde está a harmonização sexo/gênero desta pessoa? É o que sinto, é o que vivo. Meus amigues sabem da minha luta diária, das piadas, das hostilizações quando entro em um ônibus de barba, bigode, saia, batom e às vezes salto também. Sabem dessa confusão que gera, da insistência de alguns de quererem me colocar num lugar normativo, seja feminino ou masculino. Este lugar para mim não tem gênero, é subjetivo.

- Como se deu a escolha do nome Carlota? E como foi a busca pelo nome social?

O nome  social foi dado há quatro anos (a resulução é de 17 de maio de 2012). Fui incorporando na minha desconstrução enquanto gênero, na minha identidade não binária e subjetiva. A carteira de nome social existe no Estado onde vivo há quase seis anos. É uma política para pessoas trans e travestis. Não tive nenhuma dificuldade em fazê-la.

- Existe uma luta do movimento de travestis e mulheres transexuais de terem o nome social respeitado, e a utilização do banheiro de acordo com a identidade de gênero. Uma das resistências para isso não ocorrer é que daria margem para que “homens” entrassem nesses espaços. Por você esbarrar justamente nessa leitura de "homem", você não acha que pode prejudicar essa luta?

Existe uma grande polêmica em relação ao uso do banheiro. Sei que pessoas trans e travestis sofrem em relação a isso, para utilizarem o banheiro de acordo com a sua identidade de gênero. Mas também sei que muitas destas pessoas não são lidas de acordo com o gênero que se identificam, pois não possuem passabilidade e sofrem resistência. Eu não uso exclusivamente o banheiro feminino, mas algumas vezes, por me sentir vulnerável pela maneira como me visto e como sou, o utilizei sem sofrer nenhum tipo de resistência por parte das mulheres. Entendo a luta das pessoas trans e travestis e não a deslegitimo. E sinto pela minha falta de empatia e alteridade em utilizar um espaço tão caro para tantas mulheres.




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- Tem conversado com algumas pessoas trans?

Estou falando com algumas pessoas trans. Estava a pouco conversando com um homem trans e buscando entender o que estão sentindo.

[ Carlota para e pergunta: A sua página é independente? Peço que me esclareça, por favor, antes de continuar respondendo. Tenho sofrido inúmeros ataques e tanta gente enviando mensagem que estou perdide no meio de tudo isso]

- O NLUCON é uma página que fala exclusivamente sobre identidades trans. Admito que não tenho trabalho com pessoas não-binárias, mas porque não encontro AINDA um discurso que contemple muitas pessoas. Ainda vejo que parte muito das esferas individuais.

Sim, chegamos ao ponto. Acredito ter tido uma atitude individual ao fazer a carteira de nome social, de não ter pensado e medido as consequências coletivamente. Mas pessoas não binárias dificilmente estão organizadas em coletivos ou engajadas em lutas coletivamente. Porque, quem sabe, ao viver de maneira não classificatória também não queiramos classificar outras pessoas e institucionalizá-las. É um dos pontos que eu acredito, mas nossa luta não deixa de ser luta por não estarmos engajados coletivamente.

- Gostaria de falar algo para as pessoas trans?

Que sinto muito por tudo que causei, que jamais tive a intenção de invisibilizar a luta de pessoas trans ou de tomar o seu protagonismo nesta luta, que é diária. Minha luta também é diária. Tenho sofrido tantos ataques na rede, aqui na minha cidade também, estou desestabilizade, não consigo sair de casa. Estou triste, estou devastado diante de tudo que está acontecendo. Agradeço a todas as pessoas, amiges que estão do meu lado, pela força e pelo carinho.

- Diante do que aconteceu, você acha que foi um erro?

Não foi um erro, talvez um equívoco em tomar uma atitude individualmente, mas assim como pessoas trans e travestis lutam pelo direito de viverem como se identificam, eu também luto para ser respeitade e viver da maneira como me vejo. Esta é minha identidade, quem eu sou. Como me vejo. Como me leio, como me sinto, como me sinto feliz. Luto por um lugar de liberdade, para além dos rótulos e das convenções tão rígidas da norma. Eu já estive dentro dela e me senti muito presi. Estamos vivendo um novo tempo, em que rótulos estão sendo desafiados a norma sendo questionada, em todos as esferas da sociedade. Me sinto parte desta luta, estou caminhando para frente, com mais consciência, mais forte! Pessoas não binárias merecem também visibilidade!




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- Depois dessa repercussão, muda alguma coisa no seu discurso?

Pessoas não binárias lutam para serem respeitadas para além do seu gênero, que é neutro, que é fluido, claro que nossa sociedade é genereficada e temos a consciência de que o biológico pesa nas relações e leituras sociais. Fortalece o meu discurso e a necessidade de respeito e visibilidade para pessoas não binárias também.

- E no uso de banheiro feminino?

Eu entendo que o banheiro é um espaço de socialização, mas na sociedade brasileira também um espaço de violência. Banheiros femininos não possuem mictório, logo pressupõe-se que haverá uma porta e, portanto, privacidade. Todas as vezes que utilizei o banheiro feminino jamais sofri resistência por parte das mulheres, mas sei que o fato de eu ser lido como homem (pois tenho barba) causou indignação, repulsa e apropriação de um espaço que não me pertence. Após o que aconteceu passei a entender o quão caro o banheiro é para a categoria feminina, visto a opressão e violência que mulheres sofrem todos os dias por parte dos homens. Reconheço isso, peço desculpas a todas as mulheres que se sentirem invadidas no seu espaço. Mas deixo uma reflexão para todas as pessoas. Porque entre amigos e familiares utilizamos o mesmo banheiro sem classificar as pessoas? Sejam mulheres ou homens todas as pessoas utilizam o mesmo espaço. A violência está em todos os lugares, não somente no espaço público, mas também no privado. Se o banheiro é privativo por exemplo, todos podem utilizar. Mas se o banheiro é coletivo, mas possui uma porta qual o problema do gênero? A questão está na violência impregnada no gênero. Historicamente pelos homens

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

17 comentários:

Anônimo disse...

Ridículo

Cibelle Montini disse...

Olha a liberdade de ser o que se é e o que se quer ser todo mundo tem,agora te digo a Carlota, voce vai ser que correr atras da sua dignidade e respeito, as mulheres transexuais estao ai a anos e estao bem de acordo com o que a sociedade quer, e nao sao aceitas, entao seja uma das pioneiras, mas resultados agora voce nao vai obter, isso leva anos e mais anos, seram coisas para as geraçoes futuras, boa sorte.

Anônimo disse...

Burguesinho desocupado (desocupado não, fica lendo butler... grandes coisas), que não tem o que fazer, só dá nisso. Se este cara tivesse que ralar para pagar contas, não estaria aí fazendo papel de trouxa, desrespeitando e interferindo negativamente na luta das pessoas trans, das mulheres trans, especificamente. Além de mimado, irresponsável e egoísta.

Anônimo disse...

Ai ai... mais uma pessoa pseudo intelectual com os mesmos discursos, as mesmas palavras, que quer ser "diferente" apenas para validar-se ao obter a atenção das pessoas. Não levo a sério, não tenho respeito algum por essa pessoa. Agora "virar trans" virou modinha. É a personificação da esquerda brasileira que vivem no seu mundinho particular. Se as mulheres trans já lutam tanto contra o preconceito uma coisa dessa só faz com que nos levem menos a sério ainda. Cansada... saturada desses termos "descontrução", "protagonismo", "vivência", o mesmo vocabulário é usado por todas (ou seria todes?) as pessoas igualmente pobres de espírito e de inteligência. Trata-se de um ser desocupado, narcisista e egoísta.

Anônimo disse...

marcadores de gênero são construtos sociais, tipo: salto, maquiagem, terno, gravata. a barba pode até ser relacionada ao gênero masculino, mas ela é, antes de tudo, um marcador SEXUAL. só os machos( salvo algumas exceções) têm barba. é sério que a gente tá equiparando barba à maquiagem? é sério que a gente tá naturalizando gênero a tal ponto de achar que saia diz respeito à mulher e salto à homem?

Lívia Apra disse...

Usar maqueagem e saia nao te daz mulher. Se dizer mulher por gostar de maqueagem e saia é reforçar estereotipos.

Para de ler butler e vai ler sheila jeffeys.
paciencia zero pra pos moderno burgues de universidade.

Gabriela Rocha disse...

MAIS UM OMI DESCONTRUIDÃO DA PORRA, sai daqui o seu burguesinho de merda!
Usar sainha e batonzinho, não te faz mulher não! Se te pego no banheiro comigo, faço um escândalo! tomara que as mulheres não tolerem um MACHO dentro do banheiro.

Anônimo disse...

vcs tao tudo loco

ninguem se importa se tu tem barba ou não, cara... te liga, isso aqui é uma publicação inteira só falando sobre as sutilezas do que tu acha que as pessoas acham que tu acha que elas acham de ti.

eu olho pra um individuo de barba e penso "é homem", eaí??? não me importo que pensem que eu sou mulher porque não tenho barba. não vou perder meu tempo com essas especulações. até porque não é todomundo que tem tanto tempo pra perder..

claudia disse...

pessoais que não tem o que fazer são as que deixa de cuida da sua vida para da palpites nas das outras. vai cuidas da vida de vocês e deixa cada um viver a sua o mundo é livre cada um verve como quer o gosta nem uma de voces que critica paga a conta deles. vai procura algum pra fazer e viver a vida de vocês e deixa a vida aleia de cada um viver como e gosta. boa noite

Anônimo disse...

Agora banheiro feminino é casa da mãe joana? Ok mulheres trans usarem porque são mulheres, mas chega uma pessoa de barba batom e saia que eu leio como homem pra usar o banheiro que é um lugar onde tu n tem que se preocupar com homem. Me poupe. Não se sente confortável no banheiro masculino não vem tirar minha confortabilidade no meu espaço. Banheiro masculino também tem box se o problema é a privacidade, vamo toma vergonha na cara né?

Anônimo disse...

Acho que a única confusão que elx mesmo fez foi a questão da barba ser marcador de gênero masculino. Olha, é. Mulher não tem barba. Quem tem barba é homem, por isso é assustador estar com um homem de barba no mesmo banheiro, entende? Barba não é acessório como salto, saio, glitter que são tidos pela sociedade como marcadores do gênero feminino. Mulher não passa barba como se fosse maquiagem. É isso. E eu realmente espero que você seja feliz, C.

Anônimo disse...

Você tem privilegio de homem branco sim, pelo amor de Deus, utencilios femininos não te fazem uma pessoa sem genero, isso é só personalidade tsc tsc

bella karoline disse...

No banheiro da nossa casa usamos o mesmo banheiro que todos usam justamente porque é a nossa casa e nela frequentam pessoas que confiamos. É completamente diferente de usar banheiro em um lugar público, onde pessoas completamente desconhecidas também frequentam. Não é questão de o banheiro ter cabine e ter privacidade, estupros acontecem da mesma forma e não tem como saber se a pessoa que tá entrando lá e não binária, trans mesmo ou apenas um homem cis que foi lá observar, fetichizar ou ate pior, estuprar mulheres. Isso abre margem para homens acharem que podem usar o banheiro feminino, isso mesmo, aquele mesmo homem que estava encoxando uma mulher no ônibus, o mesmo que ejaculou em uma mulher no metrô. Então para com essa falsa simetria e pare de tentar ocupar um dos pouquíssimos espaços exclusivos para mulheres. Sugiro que vocês não binários, trans e outros gêneros lutem por vocês mesmos para que consigam o próprio banheiro, mas não venha querer se apropriar do nosso.

Déh Dullius disse...

"Mesmo errando ao menos fez."
Lembra quando a gente dizia que não era o gay discreto e normativo mas a bichinha de batom pegando ônibus que muda o mundo? Pois então.
Entendo que as discussões sobre lugar de fala e a fetichização do desconstruísmo confrontem as muitas lutas da letra T na sigla, esta que é a mais agredida, vilipendiada e que sangra até a morte todos os dias especialmente neste país, no entanto está mais do que na hora de discutirmos (nós, que somos parte do famigerado arco-íris) as coisas visando o bem, o entendimento e a integridade de tudo aquilo que não é o bicho hetero cis de extrema direita que ama nos demonizar e cercear direitos.
Falando em direitos, também não vejo a necessidade de assinar uma carteira de nome social sem ser o T da sigla, mas agora que está feito, já serviu pra provar o quanto a hipocrisia e o ódio é inerente ao ser humano, de quaisquer gêneros. Presumi que uma vez fora do armário estaríamos juntos nessa. Não estamos.

Mayara Farias disse...

"pessoas não binárias" é um termo bem mais abrangente que "trans",
que tende a se limitar ao sexo, e cai na armadilha do comércio das cirurgias genitais. bacana a entrevista, sem contar que a/o Carlota está muito bem estilosa/o nas fotos,
sobre wc femino é uma oooutra questão que está inserida
no cenário de violência contra nós mulheres...

Design + Industrial.com disse...

Já que ele se considera não-binário, gostaria de saber o porque gosta de usar "marcadores femininos", e/ou masculinos? Pois não tenderia a ter um comportamento andrógeno neste caso, sem forçar estereótipos?
E como elx não se identifica nem como homem e nem como mulher, porque o nome "Carlota Miranda"? Não seria mais condizente algo tipo "Ariel"?
Enfim, são só questionamentos, quanto a barba, sim é símbolo de opressão sobre as mulheres, ainda mais em banheiros femininos, falo por mim pois me sentiria intimidade se visse uma pessoa como tal de frente em um banheiro sozinha.

Anônimo disse...

kkkkkkk os comentários estão mil vezes melhores que a matéria. Não tenho paciência pra ficar lendo uma entrevista com um narcisista esquisofrênico que se acha O DIFERENTÃO e por isso acha que tem uma identidade única só pq usa batom e saia.

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