Entrevista

“Gordofobia é forte no nosso meio”, diz a militante travesti Amanda Marfree



.
Por Neto Lucon

Quem mora em São Paulo e participa de eventos de militância certamente já se deparou com a militante carioca Amanda Marfree. Aos 31 anos, ela é presença assídua em encontro, debates e projetos envolvendo a comunidade de travestis, mulheres transexuais e homens trans.

O engajamento começou há dois anos, logo após participar do projeto Transcidadania – que visa incentivar a volta de travestis e transexuais à escola. Na época, ela trabalhava como profissional do sexo e queria conseguir uma vaga no mercado formal de trabalho.

Agarrando a oportunidade com unhas e dentes, ela foi a primeira aluna a se formar e a conseguir trabalho formal. Atualmente, trabalha no Centro de Cidadania LGBT – Laura Vermont – na Zona Leste. E diz querer ajudar pessoas sujeitas à vulnerabilidade social, assim como um dia foi ajudada.

Em entrevista exclusiva, Amanda fala sobre a sua passagem pelo projeto, reflete sobre transfobia, gordofobia e militância. E faz importantes apontamentos. Vamos lá! 

- Você é um marco no projeto Transcidadania, em São Paulo, por ser a primeira aluna a se formar em 2015. Quando iniciou, sabia que poderia ser algo que mudaria tudo?

Entrei no projeto para tentar concorrer ao mercado de trabalho formal. Porque sem o estudo você não consegue nada, né? E também para conhecer quais eram as políticas públicas voltadas para mim. Porque, quando eu comecei a minha transição, há alguns anos, não adiantava eu me formar porque não conseguiria ser contratada para nada. Se me formasse, eu seria uma travesti com o diploma no bolso tendo que me prostituir na esquina. Não existia expectativa de vida, não existia uma política que nos apoiasse, não existia nada que nos tirasse dali... Esse projeto foi a luz no fim do túnel.

- Algumas pessoas criticam as bolsas e questionam a eficácia do projeto. Mas sei que você chegou a ser considerada uma das melhores alunas e foi uma referência positiva, né?

Dei o meu melhor e tentei me agarrar nessa oportunidade. Eu estava ficando velha e não tinha muita expectativa nas esquinas. Até porque eu não estava gostando mais, devido a violência dos clientes e das próprias meninas. Então sabia que tinha que agarrar com unhas e dentes essa oportunidade de estudar. Fui a melhor aluna da Penha, onde estudei, ganhei honra ao mérito no primeiro bimestre. E, detalhe, fui estudar num colégio cheio de heterocisnormativo. Não foi no Cambuci, onde muitas meninas trans vão e os professores estão preparados É claro que fui aceita tudo direitinho, mas também mostrei o que queria: uma coisa para o meu futuro.




.
- E, de fato, você conseguiu um emprego. Como foi estar inserida no mercado formal de trabalho?

Depois de três meses e pouco de formada, fui chamada para trabalhar no Centro de Cidadania LGBT do Arouche. Agora, há um mês e meio, trabalho no Centro de Cidadania LGBT da Laura Vermont, da Zona Leste. Foi ótimo, porque eu nunca trabalhei registrada. No início, fiquei muito emocionada com isso tudo. Porque a minha vida até então era ir pra rua, atrás de ponto. E o Transcidadania foi uma das melhores coisas que poderia acontecer na minha vida. É igual ao filme do Chico Xavier, Nosso Lar. Eu estava nas trevas e fui levada para a luz. Admito que quando entrei, estava muito nervosa, porque não estava acostumada com o trabalho formal, mas com o tempo fui aprendendo, fui me dedicando...

- Você trabalha no Centro de Cidadania Laura Vermont, que remete ao caso da travesti de 18 anos que foi covardemente agredida por cinco e que não foi socorrida por policiais. Esse caso mexe com você?

Mexe muito! Eu conheci a Laura de vista, pois ela era da zona leste, onde eu moro. Sempre penso: o que aconteceu com ela, poderia ter acontecido comigo. Hoje, o caso mexe pelo contato que  tenho com a mãe dela, a Zilda. Você não tem noção de quanto aquela mãe ama aquela menina. Lá no centro, ela foi com o pai, com o amigo da Laura, levou um quadro, só publica coisas da filha, chora. Você vê que realmente foi uma perda muito grande. Essa mãe é um exemplo para todas as mães. Se todas fossem como ela, não haveria tantas dificuldades que a gente passa. E, para você ver, mesmo quando a família aceita, a transfobia acontece.

- Você teve aceitação familiar?

No início foi bem complicado. Hoje em dia a minha mãe me ama. Para mim, é Deus no céu e a minha mãe na terra. De família, considero só eu e a minha mãe mesmo. Até falo com a minha irmã, os parentes eu não tenho tanto contato. Os meus sobrinhos não me aceitam, mas eu não tô nem aí para eles.

- Você classificou a prostituição como estar nas trevas. É isso mesmo?

Muitas são empurradas para a prostituição, sim. Eu mesmo fui empurrada, porque não tive opção. Mas quando eu estava ali, não existia esse problema todo porque eu gost... Não que eu gostasse, eu fazia aquilo sem problema, sabe? Era adolescente, aquilo tudo era novo para mim, eu gostava de sair com os homens, então gostava por causa disso. Mas com o tempo você vê que aquilo é uma ilusão, que é não é positivo, que não é legal. E que você tem outras capacidades. Vejo que muitas ainda hoje são empurradas, porque as famílias continuam não aceitando, a sociedade continua não aceitando e esse é o único meio de sobrevivência. Ir para as esquinas e ter uma mãe, que é a cafetina. Se eu tivesse apoio, eu poderia não ter me prostituído, mas por outro lado poderia ter saído com os mesmos homens.

- Só que de graça, né?

Pior... (risos).



- Na prostituição você já tinha consciência dos seus direitos enquanto cidadã?

Tinha pela convivência com outras. Via algumas coisas da Daisy Almeida e em alguns momentos eu ia com ela. Mas com o Transcidadania é que aflorou. Eu não sabia, por exemplo, que poderia lutar pelos meus direitos na Câmara. Eu nem pensava que poderia entrar ali dentro, porque a minha vida era tão restrita àquele submundo que eu nem sabia que tinha esse direito. Eu também aprendi que somos todos iguais perante a lei, que não deveria haver essa desigualdade que eles fazem com a gente. E que temos que nos lutar pelos nossos direitos, sim. Eles querem fazer uma separação, dizer que nós somos errados e eles são os certos. E quando você cai nessa vida (de prostituição) você compra essa ideia, pensa que está errada e que não tem direitos. Muitas ainda hoje não sabem, são bem chucras por não terem acesso à informação.

- Hoje em dia você sofre transfobia?

Já sofri algumas situações e conheço várias amigas que sofrem preconceito. Principalmente se ela tiver características que, aos olhos da sociedade, mostrem que ela é uma travesti. Hoje em dia, talvez por eu ser gordinha e passar mais por mulher (cis), as pessoas não mexem tanto. Não posso falar que sofro tanto, porque é mentira. Há momentos em que as pessoas levantam do banco e dão para mim, pensando que eu estou grávida (risos).

- Só para confirmar: você se identifica como travesti, né?

Sim, porque aceito o meu corpo, o meu órgão e me sinto mulher. Eu sei que existem mulheres transexuais que também se aceitam, mas eu vim de uma época com mais travestis, que tive mais convivência com travestis, e que me considero travesti. É isso, travesti.

- Muitas dizem preferirem outros termos, porque a palavra travesti carrega muitos estigmas...

Mas as pessoas tem que aprender que a gente é como qualquer outra. Porque rola aquela coisa de achar que é travesti e, portanto, é um bicho de sete cabeças. E sinceramente na sociedade em geral, não existe essa coisa de travesti ou mulher trans. É tudo travesti. Se eu chegar no meu bairro e falar “não me chame de travesti, sou mulher trans”. Vão me dar uma na cara e me chamar de traveco. Então a sociedade ainda associa todas nós com vulgaridade, roubo... Algumas são assim, mas nem todas são. E mesmo aquelas que são, as pessoas tem que ver que a sociedade é que a empurrou e formou aquela pessoa. Se elas tivessem apoio, como a maioria dos héteros cis tiveram quando eram mais novos, tenho certeza que grande parte não faria nada daquilo. Afinal, temos capacidade, valores e muita coisa a contribuir. Antes de ficarmos brigando pela melhor definição, temos que mostrar que todas nós somos pessoas com bons potenciais.

- E em relação à gordofobia?

Existe muito também, né? Mas é mais forte no próprio meio. Uma que fica falando para outra: “tá gorda”, tirando sarro, fazendo a podre. As meninas implicam comigo e eu sofro preconceito por ser travesti e gorda. Se for de pessoas que eu tenho amizade, até relevo. Mas se for de pessoas que eu não conheço, eu não gosto. Porque parece que é apenas uma brincadeira, mas é uma forma de diminuir a gente, sabe? De deixar a gente pra baixo, sem autoestima, sem vontade de sair... As pessoas ainda têm que aprender a ver o nosso interior, e não o exterior. A gordura é detalhe. Sempre digo que ainda posso emagrecer, mas e a pessoa que é podre por dentro? 

- Tem algum episódio que tenha te marcado?

Hoje mesmo, você não viu? A menina fez um comentário de uma foto nossa no Facebook: “Precisa engordar mais” e deu risada. Olha que coisa feia de se falar para alguém. Principalmente na página da pessoa, onde todo mundo vai ver. Eu acho que isso é no mínimo desnecessário. São pessoas que não sabem respeitar o próximo e quer respeito. Mas o principal para ser respeitada é também respeitar o seu próximo. Se ela está tomando a liberdade de me chamar de gorda, eu vou tomar liberdade para falar dela também.




- Vira uma bola de preconceito. Além disso, as pessoas acham que a gente que é gordo é infeliz, mal amado, que é doente...

Um absurdo, né? Eu fiz exames, não tenho colesterol, não tenho nada. Ando pra lá e pra cá, tenho uma vida ativa. Sobre a beleza, são tabus que seguem os padrões e que querem fazer a gente sofrer. Mas eu não sofro, me acho bonita e os homens também gostam, viu? Tem muita gente que gosta de mulher gordinha, fortinha... Então não são esses padrões que ditam quem deve ser valorizada ou não.

- E porque você usa o diminutivo para falar? Acha que gorda é uma palavra muito agressiva?

Nãooo (risos). Não tenho problema. Tanto que na época dos programas, tive um que era “Travesti gordona de Itaquera”. Foi quando eu mais ganhei dinheiro. Porque não tinha travesti gorda fazendo programa. A maioria é magra, acinturada ou mais normalzinha, então essa fatia de mercado vinha tudo para mim. Já que eu sou gordona, BBW.

- O que é BBW?

Big Beautiful Women (risos). Uma grande linda mulher. 

- Fiquei sabendo que você já foi convidada para uma agência de modelos. Conta...

Sim, fui para uma agência de modelos pluz size. Me chamaram pelo Facebook para fazer um teste. Mas como eu cheguei lá, eles queriam que eu ficasse a semana toda disponível para eles. Daí eu falei: “não, eu trabalho, não vou poder, só aos fins de semana”. Então deixei para lá, que não vou deixar o trabalho fixo que conquistei por algo tão duvidoso como a carreira de modelo plus size, né?

- Você acha importante ter esse espaço na moda, essa representatividade?


Eu acho importante valorizarem outros tipos de beleza, mostrar que nós gordas também temos beleza, que também temos valor. Às vezes pinta uma coisa ou outra. Teve uma vez que a (militante) Nicolle Mahier fez uma campanha “Meu corpo, minhas regras”, que foi para o Fórum Municipal Paulista, a gente tirou fotos. Sai até no carro da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Também estive na figuração da série Sense8, da Netflix.



- Amanda, percebo que além das rixas que rola na militância, você faz parte e participa de diversas ações. Independente de quem faça, se te chamarem, você vai...

Penso assim: Já somos muito criticadas pela sociedade, muitos já nos atacam lá fora. Então, quando chegam no nosso meio, eu penso que a gente tem que se unir. E não ficar se digladiando porque uma é de um partido, outra é de outro, uma é de um Fórum, a outra é de uma ONG. Gente, o foco é o mesmo! Todas nós lutamos por direito e igualdade para travestis, mulheres transexuais e homens trans. Acho que todas precisam entender isso e se unir.

- Profissionalmente, você pretende o quê?

Pretendo fazer uma faculdade. Quero fazer serviço social e poder atual na área. Eu acho que é uma profissão que abrange pessoas vulneráveis. Eu acho que, por ter sido introduzido ao mercado de trabalho, sinto essa vontade de ajudar as pessoas, não só as LGBT, mas todas as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social. E pretendo subir no trabalho também, tanto quanto recepcionista ou articuladora.

- Tem algum sonho?

Quero me estabilizar, sabe? O meu sonho bate no maior medo, que é tudo isso acabar, que entre uma gestão nova e que eu tenha que voltar para a rua. Não que eu tenha alguma coisa contra a rua, mas é que não gostaria de depender mais dela. Não tenho mais idade e nem mais corpo para isso. Eu até posso ir de vez em quando, mas não quero mais ficar dependente disso. Quero ter a minha estabilidade, o meu emprego, o dinheiro certo no fim do mês. Isso vale muito para mim hoje. 

- Esse medo é algo que as pessoas cis geralmente nem imaginam, né?

Não. Elas sabem que se perder trabalho, tem pai, tem mãe, tem parente que ajuda pra comer, pra pagar o aluguel. Procura outro emprego e não precisa pedir nome social, banheiro, não tem nada disso, né? Então é mais fácil para se inserir. Para a gente é quase como uma condenação.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.