Pride

Identidade nova? Reportagem de 1959 revela um dos primeiros homens trans noticiados no Brasil




Por Neto Lucon
* Agradecimento à historiadora Astrid Beatriz

É muito comum dizerem, até mesmo em espaços de militância, que homens trans formam uma identidade contemporânea e que até pouco tempo não era possível encontrá-los. Mas o que acontece de fato é uma invisibilização transfóbica. Prova disso é que, se pesquisarmos, é possível encontrar vários homens trans ao longo da história.

Um deles foi retratado em 1959 pela extinta revista “O Cruzeiro” – considerada a mais importante revista ilustrada brasileira na primeira metade do século 20 – numa reportagem que fazia menção a um homem trans que passou por duas cirurgias e que, assim, teve reconhecida a sua identidade masculina aos 18 anos.

Intitulada “Maura Maria virou Mário”, a reportagem aborda a história de Mario da Silva, que foi designado mulher ao nascer, mas que não se identificava com nada que fosse atribuído ao universo feminino. Ao contrário, subvertia todos padrões e causava espanto na cidade de Itajaí, em Santa Catarina.

“Fez a primeira comunhão com vestidinho branco e coroa de flores na cabeça. Estudou no grupo escolar na classe das meninas. Em casa, a princípio, lavava os pratos, varria e ajudava a vó. Nunca aprendeu a cozinhar. Gostava era de ordenhar vacas toda manhã, laçar bezerros e montar cavalos bravos. Ganhou disparado muito desafio de vaqueiros. Gente ficava de mão no queixo, vendo as habilidades”, dizia a reportagem.



.
MÉDICO AJUDOU NO PROCESSO

O jovem, que até então era lido como mulher, também demonstrava não ter interesse em nenhum homem. Não dava bola para ninguém enquanto a bandinha da cidade embalava ao vivo os sucessos da época. Tudo mudou quando o tecelão José Carlos, apaixonado por aquela pessoa tão difícil, foi até a avó de Mauro para fazer promessas. Naquela época a opinião da família valia muito para futuros casamentos, mas o coração de Mauro não amoleceu.

“Até a vó ficou surpreendida com a reação da neta. Havia algum mistério por trás daquela resistência. Aliás, sempre achava esquisitas as maneiras da neta. Talvez fosse o caso de consultar um médico. Maura concordou”, informou a reportagem.

Primeiro, foram a um médico mais próximo e, depois, acabaram sendo encaminhados para o Dr. José Eliomar da Silva, que era muito conceituado em Itajaí. O médico era formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e compreendeu que se tratava de um desacordo entre o gênero imposto e a identidade do jovem – detalhe, os estudos sobre gênero começaram a ganhar força nos anos 60 e estamos falando de um caso de 1959. 

Mauro foi internado no Hospital de Itajaí ainda com cabelos longos, vestido estampado e sapatos altos...“Submeteram-na a duas cuidadosas operações. Quando saiu, vestia calças cumpridas, calça listrada, cabelos aparados e quando havia a apresentação a alguém, dizia: Muito prazer, Mario da Silva ao seu dispor”, afirma. 

Ainda hoje não se sabe quais foram essas duas operações que ele se submeteu. 

DESAFIOS QUE SE ANUNCIAVAM

Todas as mudanças fizeram de Mauro um homem muito mais feliz. “Sinto-me como se estivesse no céu”, disse ao jornalista. Ao mesmo tempo em que dava pistas daquilo que aconteceria anos depois referente aos direitos das pessoas trans. E que acontece ainda hoje, 57 anos depois.



.
Além de a casa do rapaz começar a ser frequentada por curiosos, até mesmo quando ele não está lá, a questão da documentação não foi superada com a cirurgia – pelo menos é o que informa a reportagem.

Em uma das legendas, o jornalista escreve: “Morreu uma moça sem atestado de óbito e surgiu um rapaz sem registro de nascimento. A questão jurídica suscitada não vingou”. 

Não há outros relatos sobre a vida e morte de Mauro, mas ficou registrado um dos primeiros casos de homens trans noticiados no país. Tão antigo e legítimo quanto a história das travestis e mulheres transexuais.  

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Léo Paulino Barbosa disse...

Neto, vc contribui muito para nossa história.
Mesmo com os ataques constantes a sua pessoa, saiba que, vc é parte impostante na militância de travesti, mulheres transexuais e homens trans.
De mim, vc só tem agradecimentos e minha amizade <3
Obrigado

Design + Industrial.com disse...

Ótima reportagem! Ainda não conhecia a história, legal saber que naquela época ao menos um médico em SC teve esse entendimento e ajudou ele!
Um fato histórico a ser guardado e lembrado!

João WalterNery disse...


Quer saber onde anda uma figuraça da sua cidade? Pergunte que o DIARINHO vai atrás. Só não vale político.

O homem que fez a primeira cirurgia de troca de sexos no Brasil

INTERNA_12_por-onde-anda_dr-eliomar---timbuca_foto-felipe-vt

O polêmico doutor José Eliomar vive entocado em seu apê no centro de Itajaí

Ele fez a primeira cirurgia de transformação de sexo no Brasil, foi deputado estadual, brigou com as freirinhas do Marieta e até escreveu um livro. O polêmico doutor José Eliomar da Silva, o Timbuca, aos 86 anos admite que pendurou as chuteiras e curte a vida descansadamente em seu apê, no 14º andar do edifício Catarinense, no centro de Itajaí, entre leituras e a bela paisagem que tem da boca da barra.

Entre os retratos pendurados na parede do escritório onde Timbuca recebeu o DIARINHO, o destaque é a fotografia em que aparece ao lado de Ivo Pitangui, cirurgião plástico brasileiro de renome internacional. E não é por menos a amizade entre eles. Timbuca fez em Itajaí a primeira cirurgia de troca de sexo do país. ?Era uma moça hermafrodita que tinha como predominância o sexo masculino. Eu a transformei em homem?, relembra, mostrando a reportagem feita na década de 50 pela extinta revista semanal O Cruzeiro. ?Maura virou Mário? é o título da reportagem.

Timbuca chegou em Itajaí em 1953, dois anos depois de se formar no Rio de Janeiro. De nascença, ele é cearense. Trabalhou no antigo hospital Santa Beatriz e no hospital Marieta, onde chegou a ser diretor e a brigar com as freirinhas que tocam a instituição. ?Na década de 60 eu fui deputado estadual e presenciei muitos erros na parte interna do hospital. O que eu via, eu denunciava, inclusive para a imprensa. Isso tudo me rendeu alguns atritos com as irmãs?, recorda-se.

Ex-colunista do DIARINHO, Timbuca escreveu um livro. ?Coronel também chora? é o nome da obra, onde o dotô conta histórias vividas por ele e por seus conhecidos. No livro também comenta assuntos curiosos relacionados à medicina.

Quem foi aluno das escolas municipais na década de 70 do século passado certamente passou um dia no belo sítio que o doutor Eliomar mantinha na Canhanduba. O sítio, que tinha até piscina e era usado pela família do cirurgião como local de descanso, era liberado pelo médico pra ser usado pela alunada dos colégios públicos da cidade.

Aposentado há cinco anos, José Eliomar hoje é viúvo. Ele mora com um dos três filhos. ?Eu não exerço mais a profissão de médico, mas se fosse necessário eu faria uma cirurgia hoje. Cirurgia é igual andar de bicicleta, nunca se esquece?, faz questão de dizer ao final da entrevista.


João WalterNery disse...

Essa matéria é de 2009. Nunca tinha ouvido falar, mas gostaria muito de saber se o Mario ainda está vivo. Pelo que diz a reportagem, ele era intersexo. E olha que tive este mês em Itajaí e não sabia de nada, uma pena. Abraço queridão

Tecnologia do Blogger.