Pop e Art

O adeus de Elke Maravilha, a mulher cis com passabilidade trans



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Por Neto Lucon

Elke Maravilha disse “adeus, crianças” na madrugada de terça-feira (16) no Rio de Janeiro. Aos 71 anos, deixou o coração dos fãs apertados e o legado das perucas, maquiagens expressivas, roupas coloridas, o talento e uma trajetória ímpar daquela que é filha de pai russo e mãe alemã e que se tornou um dos ícones da cultura brasileira.


Multifacetada, é comumente referida como modelo, atriz, apresentadora, jurada de programa de calouros, mas talvez sua marca maior seja a transgressão. Tanto pela figura impensada para os padrões de uma mulher cis. Quanto pela atitude, que a fez denunciar a morte do filho de Zuzu Angel pela ditadura – e ser presa! Também pelas declarações ácidas ou lúcidas, mas sempre necessárias e em prol das ditas "minorias".

Foi madrinha dos “garis, leprosos, presidiários, LGBT”... Suas entrevistas iam de revelações francas de que havia feito três abortos, pois não tinha vocação para ser mãe. De reflexões sobre a inexistência de liberdade – “você escolhe em qual prisão você quer ser livre”. Até a briga pela comunidade LGBT, que ela dizia ser apenas mais uma obra perfeita da “mãe natureza”. Em outro momento, soltou: “Moral não está no meio das pernas”.

O visual transgressor começou aos 18 anos. Num belo dia, decidiu rasgar uma calça, vestir uma meia roxa, encher a cara de batom, desgrenhar o cabelo e ir para a rua. Acabou sendo hostilizada, apanhou e foi internada no hospital Miguel Couto. Ora, enquanto muitas pessoas ainda hoje querem se encaixar no padrão cisheteronormativo, Elke abria mão dele nos anos 70, adotava um visual que facilmente a colocava no alvo dos preconceituosos. Mas que servia de escudo, força e verdade.






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Tinha a chamada “passabilidade trans”, que ela simplesmente a-do-ra-va! Não que exista uma maneira de ser trans - até porque o visual dela muitas vezes era associado ao de drag queen, né? - mas é inegável a referência e leitura da sociedade. É só conferir no “Yahoo! Respostas” perguntas como “Elke Maravilha é travesti?”. E as declarações da própria:"A maioria acha que sou travesti. Às vezes vem perguntar algo e eu respondo: ‘Sou e tenho um pau desse tamanho, quer ver?’. E aí saem correndo, tadinhos”.

Em outra saída de casa, levou cuspida na cara em Ipanema. Mas sobre esses episódios, Elke minimizava e mostrava não se abalar. "Eu não sofri preconceito. Não que ele não tenha vindo, mas eu não sofri, entende a diferença?"

Além disso, tinha um discurso para justificar o seu visual que beirava analogia e empoderamento. Dizia que a vontade de se vestir fora do padrão era um encontro consigo mesma e que evidenciava quem ela era de fato. "A pior coisa que podem me falar é que fico mais bonita sem essa produção toda. Porra, sem nada é só o que meus pais e a genética fizeram. Mas o que eu faço de mim? É isso que me importa de verdade: o que eu faço de mim e por mim. O que faço para externalizar quem sou?". Anotaram?

Ao comentar as atuações de atrizes cis sobre ela em filmes, bem como Luana Piovani em "Zuzu Angel" e Paolla Oliveira em "Chacrinha", Elke declarou que elas são lindas e que não tinha o direito de escolher. Mas não escondeu que no fundo preferia que escalassem um gay ou uma travesti para o papel. "Acho que tem mais a ver comigo". 





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A identificação foi inevitavelmente recíproca. Não é por acaso que o “maravilha” de Elke inspirou uma das maiores militantes travestis, Claudia Wonder – que decidiu seguir à risca a máxima de que o “Brasil estava americanizado”. Que Jane Di Castro era constantemente confundida com a artista. Não é por acaso, que ela vivia perambulando com Rogéria e sendo tietada por diversas pessoas trans.

Também não é por acaso que a página Mundo T-Girl trouxe uma reportagem com várias travestis e mulheres transexuais lamentando a morte da artista (leia aqui). São relatos de carinho e reconhecimento pela sua importante figura na mídia, que deu voz, rosto e cor a temas e pessoas invisíveis em tais espaços.

Pouco antes de dizer adeus, Elke esteve simplesmente ma-ra-vi-lho-sa em uma propaganda de cosméticos ao lado de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e mulheres transexuais. Tudo junto e misturada. Também estrelou o filme "Carrossel 2", abarcando a nova geração. Foi como se voltasse para deixar o recadinho de sempre: “Não sejam obedientes, crianças. Provoquem e sejam provocados!".

Obrigado por tantos anos de provocação, Elke!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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