Entrevista

"Órgão sexual masculino nem sempre é um pênis", defende youtuber Kaito Felipe






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Texto e fotos: Neto Lucon

Dentre milhares de canais no Youtube que surgem na mesma proporção que desaparecem, um deles mostra a resistência de um homem trans. E a vontade de informar, problematizar e querer ajudar outros iguais. Trata-se de Kaito Felipe, de 23 anos, natural de Manaus e radicado em Curitiba.

O primeiro vídeo foi publicado há três anos e visava mostrar os resultados da testosterona. Os outros seguiram neste padrão, até que Kaito percebeu a urgência de falar sobre outros assuntos: ser homem trans e gay, machismo entre homens trans e os padrões cis em meninos trans...

Ele também traz convidados especiais, bem como Dionne Freitas, que falou sobre intersexualidade (assista aqui), a irmã gêmea Sunny (aqui), e Jesse, um youtuber trans japonês (aqui). E vê o canal crescer a cada dia - 
com quase 3.500 inscritos e até 5 mil visualizações em cada vídeo. 

No início deste mês, Kaito veio a São Paulo para um ensaio fotográfico sobre identidades trans. O NLUCON aproveitou a viagem para um bate-papo exclusivo, com reflexões importantes e algumas fotos inéditas também. O resultado desse encontro você confere abaixo!

- Como foi que você decidiu se tornar youtuber?

No começo da minha transição, só encontrava conteúdo em inglês no Youtube. E a maior parte dos brasileiros – assim como eu na época – não sabe inglês. Eu assistia todos aqueles vídeos e não entendia direito. Certa vez, vi alguns youtubers sem camisa e vi que existiam algumas cicatrizes. Vi que havia alguma coisa de diferente neles. Encontrei outros canais, pesquisei os termos corretos referentes a homens trans, e ainda assim só achava em inglês. Achei triste porque não havia referência para os brasileiros se espelharem. Com o tempo, surgiram alguns canais com brasileiros, mas eles desistiram tempos depois. Foi aí que decidi ajudar a causa e criar o meu canal.



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- Também reparo que muitos homens trans iniciam canais e, tempos depois, param. Arrisca dizer o que acontece? E por qual motivo você não parou?

Sem generalizar, há muitos que acabam não tendo tempo e deixam de lado. Mas também rola aquela coisa da passabilidade cis e “por que vou continuar falando que sou homem trans na internet se posso ficar sem falar nada e viver como qualquer homem cis?”, “por que vou me preocupar em aparecer sendo que posso sofrer preconceito da sociedade”? As pessoas ainda têm essa ideia de “o meu eu já fiz, já mudei o que queria no corpo, já retifiquei os documentos, então porque nesta altura do campeonato vou me importar com os outros?”. Eu continuo porque sempre tive essa preocupação com o outro, principalmente. Mesmo quando eu estava na bad, fechando meu Facebook eu pensava: “com os vídeos eu preciso continuar. Algumas pessoas podem precisar de alguma referência, assim como eu já precisei um dia e não encontrei”.

- Você lembra da sua primeira referência?

Foi o Jesse Akira (homem transexual youtuber japa-estadunidense). E o mais bacana é que tempos depois eu cheguei a gravar com ele. A gente conversa sobre música, sobre as viagens que ele faz... Hoje, não é uma referência, mas um amigo que eu tenho. Hoje, gosto bastante do Tyler Vine, que também é youtuber, negro e um fofo.

- Aliás, você adora a língua asiática, né? O que fala no início dos seus vídeos?

Falo: Annyeong haseyo (안녕하세요), konnichiwa, Hello e iaí pessoal. Ou seja, é tudo “oi” em várias línguas. Eu gosto muito da cultura asiática e, de certa forma, ela ajudou até mesmo antes da minha transição. Eu gostava do Shounen Club (Clube de garotos), era um programa japa de entretenimento, em especial dos meninos do hey!say!jump, do Visual Kei, do Lovely MocoChang e AN Café, que eram VK "felizes". Os meninos tinham um visual bem andrógino. Eu pensava: nossa, eles têm esse visual, uma expressão de gênero feminina, com cabelão, maquiagem e ainda assim são homens. Então eu, que nem sabia que era trans, me via neles. Foi uma coisa que me fez continuar no ensino médio sem grandes preocupações por ser diferente.

- O que você consome de conteúdo?

Dorama (uma definição para novelas japonesas) e romances. Eu gosto muito de romance desde criança. Eu sei que o mundo está uma bosta, mas romances e as animações trazem um sentimento bom. Neste quesito sou bem amoroso.



- O seu público é formado por homens trans?

Não tenho certeza mais se atualmente ele é só formado por homem trans, pois aparecem muitos homens cis querendo se desconstruir também. O que eu percebo é que, quando aparecem homens trans, eles querem falar sobre o tratamento hormonal.

- E qual é a dica que você dá para um homem trans que está em início de transição?

Paciência, infelizmente, pois é muito difícil, e traçar metas. No começo da minha transição, tive que pensar a longo prazo e traçar algumas estratégias. Durante um tempo, tive que trabalhar usando um nome que eu não queria, tendo uma vida cis. Em compensação consegui experiência de trabalho, consegui dinheiro para fazer uma parte da transição e o tratamento hormonal. Vejo que muitos meninos começam naquela ansiedade, mas depois não tem dinheiro para continuar com o tratamento e ficam frustrados. Sempre digo que, apesar de difícil, a gente precisa ter um pouco de paciência e sempre pensar em planos, em metas a longo prazo. “O que pode acontecer se eu trabalhar um ano nessa empresa e conseguir juntar um pouco de dinheiro?”. É por aí...

- Depois de quatro anos e três meses em T, quais foram as principais mudanças que você percebeu?

A voz, os pelos, a calvície e... [ele também falou bem baixinho, “o órgão sexual que cresce”]. Ah! E você não chora com facilidade. Fiquei menos sensível, mais bruto. Se antes eu comprava algumas brigas, hoje eu compro bem mais. Algumas coisas se potencializam e você acaba ficando mais agressivo. Mas é claro que nada que caia para o lado escroto de ser homem. Porque, além da ajuda que já tive da psicóloga, eu sou uma pessoa que se analisa muito. Às vezes, penso: “Será que estou fazendo algumas coisas toscas?”. Quando via que estava, eu mesmo falava para mim: “Nossa, como você é idiota” (risos). E mudava.

- É verdade que você só percebeu que gostava de meninos e que era gay depois da transição?

Isso é uma coisa muito complicada. Antes eu sentia atração por alguns piás, mas só que não dava muito certo. Eu chegava a beijar, mas não gostava de abraçar. Tipo, não quero. Talvez porque ocorreram quatro abusos antes do ensino médio, então foi algo que atrapalhou. Daí me relacionei com uma menina, que tinha a expressão de gênero masculina, e que me deixava bem. Naquele tempo eu não sabia que era trans, mas ao mesmo tempo se alguém me chamasse de lésbica eu ficava louco da cara. Eu me ofendia. Não que seja uma ofensa ser lésbica, mas é que não era eu. Com a transição, fui a uma psicóloga, comecei a tratar da questão dos abusos, da questão trans e comecei a levar com mais tranquilidade gostar de um piá. Comecei a me enxergar melhor com a T. Acabei tendo vontades que não tinha antes, como a de olhar para um piá e pensar: “genteeee” (risos).



- E como está a vida amorosa?

Cheguei a namorar um homem cis. Mas agora não estou – saudade, ex, tô brincando! (risos)- mas não estou, não. Estou solteiro ultimamente.

- A gente sabe que o meio gay cis é bastante falocêntrico? Você sente isso sendo homem trans gay dentro desse contexto?

Eu sinto e não sinto. Na realidade, eu deixo bem claro que não sou ativo. Então os que vem para mim são aqueles que não se preocupam tanto com isso. Por exemplo, eu vejo alguns piás trans que são mais ativos com aquela preocupação de "ai, eu não tenho falo". E eu não tenho tanto problema porque os que eu quero são os ativos. E pode ser trans ou cis. AH! Mas uma coisa que precisa explicar é que nem todo homem trans é passivo. Tem muitos que são ativos, independente do genital.

- Você sente certo policiamento por ser homem trans e gay? Ou então por ter uma expressão de gênero longe da padrão?

As pessoas ainda cobram: "é homem trans, então tem que ser super masculinizado, hétero". Só que não é assim que acontece, porque não é apenas uma pessoa e um modelo no mundo que existem. Existem muitas pessoas no mundo para a gente querer encaixar todo mundo em uma expressão de gênero masculina e uma orientação sexual. Eu sou um homem trans, gay e em busca da androginia. E as pessoas começam a entender agora. 

- Quais outras reflexões que a gente pode ter acerca dos corpos dos homens trans e os mitos sobre eles?

Essa questão do órgão sexual mesmo. As pessoas têm a ideia de que órgão masculino é o pênis. E o órgão feminino é uma vagina. Só que elas esquecem que a biologia não foi criada para pessoas trans, não foi criada para as pessoas intersexo, e também não foi criada para as pessoas negras. É só ver os livros de biologia que ensinam nas escolas: não aparecem trans, intersexos e nem negros. Então, porque eu tenho que deixar que o meu corpo seja denominado por uma pessoa cis, que nem entende nada sobre a minha questão? 

E as pessoas são muito hipócritas, porque quando chega uma pessoa intersexual, por exemplo, ou elas dizem que a pessoa não existe ou a denominam a partir do ponto que ela aparenta mais. Ou seja, as pessoas só denominam aquilo que convém para elas. Então, porque eu não posso denominar o meu próprio genital?

Como vamos olhar para a vagina de um homem trans e dizer que é uma vagina de mulher ou que é uma vagina feminina? Não! É a vagina de um homem, então é o órgão sexual masculino, entende? 
Falo isso no meu caso, pois tem uns que veem o órgão como feminino e outros não. Só a pessoa pode denominar o próprio órgão. Daí, defendo que órgão sexual masculino nem sempre é um pênis. Quando alguém fala órgão masculino, pode ser uma vagina ou um pênis.


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- O que você falaria para as pessoas que não entendem nada sobre o assunto e que certamente estão com um nó na cabeça depois dessa última resposta?

Que se elas quiserem entender o assunto, que cheguem com essa intenção e dê tempo para entender. Tem muita gente que chega para mim e diz: "Não, não, mas você nasceu mulher, me explica desse jeito porque assim eu consigo entender". E eu respondo: Você quer aprender da forma errada porque fica mais fácil. Você não está dando o tempo para entender o que de fato é a transexualidade. As pessoas se incomodam com os termos, mas depois que elas aprendem, elas não se incomodam mais. 

Às vezes, a pessoa pergunta: “você nasceu com pênis ou vagina?” Eu devolvo: O que isso vai mudar na sua vida? Ela continua: "Não, eu só queria entender, o que você tem entre as suas pernas?". E eu respondo: uma vagina, mas uma vagina de homem. "Mas qual é a diferença". É que eu sou um homem, então a minha vagina é de homem". E a pessoa ainda diz: "ah, então você é uma mulher". Afff,, ninguém quer dar tempo para entender...

- Você tem uma irmã gêmea, que inclusive apareceu em um dos seus vídeos. Ela te ajudou na transição?

Ela foi a primeira pessoa que eu contei. Apesar de ela não ter me ajudado na transição, ela me ajudou em relação aos meus pais. No começo ela não gostou, mas aceitou rápido porque não tinha nada a ver ela não gostar. Quando ela aceitou, tentou mostrar para os meus pais que não adiantava ficar tretando. Aí ela comprava briga. Teve uma vez que eu não voltei para casa, e quando voltei ela já disse: "Pode ficar tranquilo, que eu já conversei com ele e disse que, se ele ficar enchendo o saco, a gente vai se mudar de novo". Eu nem tinha falado nada para ela (risos).

- Olhar para a sua irmã é revisitar o antigo espelho?

Hoje em dia a gente está bastante diferente, mas antes nós éramos idênticos. E era uma bosta o que acontecia. Se um piá chegasse nela e ela dava fora, ele falava que chegaria em mim, dizendo ser “a mesma coisa”. Afff, a gente era parecido nesse nível. Eu odiava essa coisa. Mas hoje não rola nada disso, não.




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- Hoje em dia, diversos youtubers estão escrevendo livros. O que você gostaria de contar, caso fosse convidado por uma editora?

Pensaria em falar para essa nova geração. O livro do João Nery, Viagem Solitária, eu comprei, é ótimo e ajuda muita gente. Mas eu também gostaria de mostrar mais um exemplo para os novos homens trans. Um livro de um homem trans de 23 anos. 


E neste livro eu não gostaria de mostrar que a gente só se ferra, não. Queria mostrar que, se a gente tiver estratégias, a gente pode conseguir muita coisa. As pessoas diziam: “você não vai conseguir fazer a cirurgia porque recebe um salário mínimo”, porque na época eu trabalhava de call center. E eu consegui. Então é aquela coisa, você pode se ferrar, mas você vai conseguir. 

Queria também falar sobre minha estratégia em entrevistas de emprego, em que só falo sobre o nome social ao fim da entrevista. Chego a dizer todo empoderado e com muita naturalidade que estou mudando judicialmente e que sempre faço a solicitação em todos os lugares que vou. Daí pego uma autorização da ong Marcela Prado e envio. Como a pessoa vê que eu estou todo respaldado, ela acaba acatando sem problemas. Muito melhor que deixar nas mãos dela, que muitas vezes nem sabe o que é nome social.

- Sei que você quer investir na carreira musical. Você é cantor também?

Eu gosto de cantar desde criança. Não sei se é uma coisa de família, porque a minha vó cantava na rádio e a minha mãe gostava de ficar cantando em casa. E todo mundo gostava. Eu e a minha irmã crescemos nessa coisa de "adoro cantar". Só que a minha irmã gosta mais de dançar. E eu já fui para o lado de cantar. A gente fazia cover do Sandy e Junior, e eu sempre era o Junior (risos). Aprendi a tocar violão, teclado, guitarra, então eu sei tocar o básico de cada um. E sei mexer um pouco de programa de produção musical. Então, véio, porque eu não tento? E eu gosto de escrever também, sendo que algumas coisas viram letras.

- Pretende investir a partir de agora?

Pretendo. Vou investir em um microfone melhor. Vou fazer uma cirurgia das amídalas, que hoje traz muito problema para mim. Vou começar a beber mais água, e tratar da voz mesmo. Penso em cantar pop, pois é o que eu adoro. É aquela coisa de a música conseguir transformar um ambiente e uma pessoa. Quando você não pode ajudar um amigo com uma palavra, você pode colocar uma música. E a música pode salvar vidas.

- Antes de vir para cá, assisti a um vídeo em que você diz que está em uma nova fase. Não vai dizer que vai abandonar os vídeos...

Não, não (risos). Eu estou pensando o que posso fazer, depois de já ter conseguido fazer basicamente tudo para a minha transição. Hoje, eu coordeno o grupo de homens trans da Marcela Prado, em Curitiba, e nas reuniões a gente troca informações: tratamento hormonal, cirurgia, nome social, acompanhamento. Faço os vídeos, penso na carreira musical. Mas quero ampliar. Talvez mudar de cidade ou morar fora do Brasil. Gostaria de mostrar que somos trans e que podemos sonhar alto. Um cara que dividia a moradia com amigos, que chegou a passar fome, conseguir morar fora do Brasil? As pessoas acabam sonhando e se permitindo também, sabe?


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Design + Industrial.com disse...

Parabéns pela iniciativa e apoio às pessoas trans em seu site, como sempre tratando o assunto com muita empatia e respeito.
As fotos ficaram muito bonitas!

Matheus disse...

É tanta nomeclatura "homem cis trans homoafetivo não binário" que acabou que não consegui entender que desgraça é essa. Não que eu precise entender, apenas não consegui identificar, mas foda-se.

Raquel disse...

Gente, onde clica pra ser amiga desse menino?? Que pessoa incrível, adorei ele!

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