Pride

Pastora abre mão do preconceito para ficar do lado da filha trans de cinco anos


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A história da pastora cristã Kimberly Shappley é a prova de que o amor supera qualquer preconceito ou fundamentalismo religioso. Desde que entendeu que a filha Kai, de cinco anos, é uma garotinha transexual - e não um garotinho - Kimberly a apoia e enfrenta as batalhas de um mundo transfóbico.

A relação ganhou a imprensa internacional quando Kimberly solicitou e insistiu que o jardim de infância no Texas, sul dos EUA, deixasse que a garotinha utilizasse o banheiro feminino.

Apesar da orientação do presidente Barack Obama em permitir que alunos e alunas trans utilizem o banheiro do gênero com o qual se identificam, a escola se nega a autorizar a entrada da pequena no banheiro feminino e indica um banheiro neutro. O diretor justifica que os direitos transgêneros são uma fuga da “base bíblica na qual as leis do país foram fundadas”.

“Eu fui no campus e falei com a direção, tentei trabalhar com eles. Queria garantir que Kai não seria discriminada, poderia usar o banheiro das meninas, mas logo ficou muito evidente que o superintendente tem preconceito muito forte contra a comunidade LGBTQI”, declarou Kimberly à rede de televisão ABC News.

Em artigo ao Pearland Journal, o superintendente John Kelly comprovou as palavras da mãe e mostrou o que ronda o seu conservadorismo: “O que vem depois (de uma criança trans usar o banheiro feminino)? Legalizar a pedofilia e a poligamia? A menos que voltemos para a base bíblica na qual as leis deste pais foram criadas, teremos problemas sérios, e não poderemos mais esperar a ajuda de Deus”.

Ignorância, né? 

FILHA REZOU PARA MORRER

Kimberly declarou que durante muito tempo pensava da mesma maneira que os religiosos responsáveis pela educação da filha. “Sou cristã devota e conservadora, ordenada como pastora da minha igreja de Pearland”, declara.

Ela também afirma que forçou de todas as formas Kai a ser um garoto, mas que desde os três anos a pequena dizia “o tempo todo que era uma menina”. “Eu sabia que ela era diferente antes de ter dois anos. Era muito feminina, dramática. Não adiantava tentar puni-la ou discipliná-la, continuava do mesmo jeito que era”.

O pensamento mudou quando viu a filha escondida rezando para que Jesus levasse J. (nome de registro) embora, pois ela queria morrer. “Ela estava rezando para ir embora, para morrer, ir para o céu. Meu bebê queria ir embora”, lamentou a mãe.



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Kimberly passou a pesquisar sobre transgeneridade e descobriu que há um grande índice de suicídio de pessoas trans que não recebem apoio familiar. Com o medo de perder a filha para o preconceito, ela conseguiu se sensibilizar e entender que não existia pecado, erro ou motivo para forçar Kai a ser quem não era. 

“Isso mudou tudo. Eu escolhi ficar com as palavras de Jesus na Bíblia. Eu me prendi a essas palavras. Rezei e o Senhor me ajudou a só ser a mãe da minha filha”, declara. 

O desfecho do banheiro ainda está em andamento - e as várias batalhas para a dignidade trans podem só estar começando - mas uma coisa é certa: Kimberly entendeu o verdadeiro sentido da palavra "amor" e Kai soube que tem uma mãe disposta a enfrentar tudo ao seu lado.

PESQUISA


Uma pesquisa da Universidade de Washington, da Universidade Stony Brook e da Organização de Gênero revela que a transgeneridade é tão natural quanto a cisgêneridade. E que as crianças trans entendem a própria identidade de gênero na mesma época em que as pessoas cis.

Importante: Trans é a pessoa que foi designada homem ou mulher ao nascer, mas que identifica com gênero diferente ao que foi imposto. Cis é a pessoa que foi designada homem ou mulher e que se sente confortável com o gênero designado.

O artigo foi publicado no último ano pela Psychological Sciece e você pode ler mais a respeito clicando aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp
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