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Aos Bichas Nerd, Neto Lucon fala sobre abordagem da imprensa sobre população trans



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O jornalista Neto Lucon, da página NLUCON, participou do hangout da equipe do Bichas Nerd (clique aqui e escute) e falou sobre mídia e comunidade LGBT. No bate-papo, ele comentou que sempre questiona se a imprensa brasileira está de fato preocupada em informar sobre a população LGBT, sobretudo sobre as pessoas trans. Ou se apenas entendeu ou descobriu que ela dá audiência e que não há mais espaço para o preconceito.

“Houve uma melhora nas pautas. Em 2000 você só encontrava trans em matérias policiais, sendo apontada como a criminosa e, hoje, já é possível ver uma mudança nos assuntos e maior humanização. Mesmo assim, observo a imprensa patinar em diversos momentos. Seja ao confundir orientação sexual com identidade de gênero, chamar uma travesti de homem vestido de mulher, ao utilizar termos incorretos e não ter uma real preocupação em se informar para informar”*, declarou.

Foi por conta dessa observação da abordagem da imprensa – e também da amizade com a militante travesti Claudia Wonder (1955-2011) – que ele decidiu escrever matérias sobre a população trans. “Comecei há mais de 10 anos, em 2004. Eu perguntava: “Claudia, não existem travestis com outras histórias além dessas dos jornais?”. E ela foi me contando, apresentando pessoas, me sensibilizando e me incentivando a escrever e dar luz a essas histórias. Tanto que eu vim para São Paulo por causa dela”.

Durante a sua trajetória profissional, Neto contou que chegou a ser despedido em alguns veículos ao pedir ao editor (ou a editora) que respeitasse a identidade de gênero de uma travesti. Ou seja, que a tratasse com pronomes e artigos femininos. Contou também que escutou piadas transfóbicas de editores e colegas nos bastidores ao fazerem notas que teoricamente tinham a pretensão de informar com respeito. E que já chegou a ser proibido de escrever notas sobre a população trans em um site gay – e posteriormente ser despedido por isso.

“Até mesmo quando a gente fala sobre sites alternativos ou de esquerda, as pautas sobre essa população não são vistas como prioritárias. Elas são vistas como complementares, como um editor me disse. Tanto que essas empresas sempre querem reproduzir meus textos e entrevistas, sem que haja um investimento ou pagamento”, afirma.

Neto diz que "não pega bem ser um jornalista militante". E que as mudanças positivas acabam vindo muitas vezes da manifestação do público – sobretudo por meio das redes sociais. “Se hoje há pluralidade de matérias e respeito pela identidade de gênero, muitas vezes não é porque o jornalista se atentou, mas porque há um movimento das pessoas das redes sociais irem lá, comentar, brigar, informar, fazer pressão”, declara. Tanto que a atriz Laverne Cox só foi capa da revisa Time depois que houve mobilização nas redes sociais. Antes, ela foi absolutamente ignorada da tradicional lista da revista, apesar da expressiva votação.

Ao comentar se recebe muitas críticas por escrever sobre a comunidade trans e “ocupar o lugar de fala”, Neto afirma que não. “As pessoas entendem o trabalho voluntário e como apoiador. Eu também sempre me preocupo em não falar pelas pessoas, mas para ser mais um canal para elas mesmas falarem. A maioria dos meus leitores é trans e eu estou em constante troca de figurinha. Acho que só vou parar quando for comum ver uma travesti ser chamada pela mídia para falar sobre o preço do tomate ou sobre outros assuntos que não sejam a própria questão trans”.

Detalhe: Ainda sobre lugar de fala, Neto só aceitou dar a entrevista por conta do recorte sobre mídia e também pela equipe do Bichas Nerd já ter entrevistado outras pessoas trans em programas passados.

Agradecimento ao Drigo Menezes, Thomas Grotto, José Neto e Gambit Dance.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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