Pop e Art

Atriz trans Alexis Arquette morre aos 47 anos e deixa importante crítica a Hollywood



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Por Neto Lucon

O início dessa semana foi marcado por uma triste despedida. A atriz e ativista norte-americana Alexis Arquette – que é uma mulher transgênero - morreu aos 47 anos no domingo (11). As causas da morte não foram divulgadas pela família, mas a mídia internacional destacou problemas crônicos de saúde.

O funeral teve a presença dos irmãos, todos atores de Hollywood: Patricia, David, Rosanna e Richmond. Eles cantaram a música Starman, de David Bowie, e cobriram o corpo com pétalas rosas. Um momento de despedida único e emocionante.

Assim como os irmãos famosos, a carreira de Alexis conta com mais de 50 filmes – dentre eles, Pulp Fiction (1994), Afinado Amor (1998) e Três Formas de Amar (1994). Também esteve nas séries Friends (2000), Xena: a Princesa Guerreira (2001) e Californication (2008). Mesmo em papeis aparentemente pequenos, ela conseguia se sobressair e mostrar o seu talento, sempre com toque de dramaticidade, humor ou sensualidade. Teve cenas memoráveis.

Quem não se lembra do criminoso mal-sucedido que não consegue atirar contra os personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson e acaba sendo assassinado em Pulp Fiction? Ou então da imitadora de Boy George em Wedding Singer, que canta Do You Really Want to Hurt Me em um casamento? Ou do andrógino cheio de piercing que aparece na primeira cena de A Noiva de Chucky?

Pois é, era Alexis... antes da transição!



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É perceptível, contudo, que após anunciar ser uma mulher trans e iniciar o seu processo transexualizador, em 2006, a vida pessoal e o papel como ativista dos direitos da população transgênero se sobressairam à carreira. Tanto que a família revelou em comunicado para a imprensa que os convites para estrelar filmes e outros trabalhos foram desaparecendo. 

“Sua carreira foi curta, não por sua morte, mas por sua decisão de viver sua verdade e sua vida como uma mulher trans. Além do fato de que há poucos papéis para artistas trans, ela se negou a interpretar papéis degradantes ou estereotipados. Ela estava na vanguarda da batalha para ajudar na compreensão e aceitação das pessoas trans”, disse a família.

Nos últimos anos, tornou-se uma figura certa para programas de TV, sobretudo os reality shows. Participou de dois, "She’s my Brother” e “The Surreal Life”, em que falava sobre sua vida. E também do tapete vermelho, sempre com vestidos ou figurinos que eram avaliados com estranheza ou sofisticação. O último filme foi Blended, em 2014, revivendo a cantora Georgina.  

UMA ATIVISTA SOLITÁRIA

As entrevistas que concedia mostravam a consciência (e o desabafo ácido) enquanto artista-ativista. Em algumas falou sobre a necessidade de emprego para artistas trans. E que tais papeis não fossem estereotipados ou prejudiciais a esta população. Críticas afiadas que custaram bons trabalhos, mas que certamente abriram a cabeça e espaço para futuras gerações.


Sobre o filme "Três formas de Amar" ou "Threesome", ela não se intimidou em fazer uma crítica ao próprio papel dos anos 90, em que interpreta um homem assumidamente homossexual e que é dispensado pelo protagonista bissexual: "O que o filme diz é que se você é gay e quer ser respeitado, tem que ficar no armário. Mas se assumir, vai ter que ser afetado e irritante".

Neste sentido, revelou também que fazia duras críticas a roteiristas que lhe apresentavam personagens caricatos ou frases transfóbicas: "Chego e digo para eles: Quem é que escreveu esta porcaria? Digo mesmo o que penso". 






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Na imprensa de celebridades, voltou à cena nos últimos anos ao falar sobre o tamanho do pênis de Jared Leto, seu affair de antes da transição. Enquanto muitos jornalistas compraram a ideia e anunciaram apenas os centímetros de Leto - que ela chegou até reclamar posteriormente pela abordagem sensacionalista - outras pessoas viram nas entrelinhas da fofoca uma  crítica. 

Isso porque na época Jared gravava o filme Clube de Compra Dallas, interpretando uma personagem trans. E rolava o debate sobre representatividade e o fato de atrizes trans nunca terem oportunidade, mesmo quando as personagens eram trans. Como Leto minimizou as críticas, Alexis fez o que a mídia geralmente faz com as pessoas trans: colocou na manchete a genitália do ex. Deu certo.

E também pela oportunidade de ele, como homem cis "aliado" e sensibilizado com a causa trans, assumir publicamente o romance que teve com uma mulher trans. Mas, neste sentido, Jared não confirmou ou desmentiu as declarações.


O ativismo existiu até mesmo no reality show "She’s my Brother”. Alexis se recusou a fazer do seu corpo um espetáculo. E brigou com a equipe do programa, que queria televisionar as suas cirurgias, dentre elas a redesignação sexual. Mesmo que o público tenha ficado em dúvida sobre os procedimentos que fez (ou não), ela deixou algo bem claro: só vão saber o que a pessoa trans quiser e quando ela quiser. Vrááá!

O ADEUS

No comunicado para a imprensa, a família disse que Alexis ensinou a tolerância, aceitação e amor verdadeiro. “Ela viveu ferozmente sua realidade em um mundo onde é perigoso ser uma pessoa trans, em um mundo despreparado para aceitar as diferenças entre os seres humanos. Aprendemos a verdadeira coragem de viver como uma mulher trans, e descobrimos a verdade – que o amor é tudo”.


Nas redes sociais, diversos fãs e artistas lamentaram a precoce morte da atriz. Dentre eles, está o cantor Boy George. “RIP minha irmã Alexis Arquette. Outra luz que nos deixa brilhando muito cedo. Amor para a família e para todos que amavam Alexis”.

A atriz Roseane Barr declarou à People: “Alexis foi uma gênia que surgiu. Tinha um talento brilhante e era tão hilariante que fará muita falta.. Meus sinceros sentimentos à família”. Já Courteney Cox também escreveu: “Meus sentimentos para todos que tiveram a sorte de conhecer Alexis. Vamos amá-la e sentir a sua perda para sempre”.

O diretor Don Mancini, do filme A noiva de Chucky, escreveu: "Muito amor para Alexis Arquette, de sua família Chucky. Nós te amamos para sempre. Descanse em paz".


Antes de morrer, a atriz teria dito à família que "do outro lado, para onde sentia que iria, não havia gêneros - apenas pessoas iguais, sem nada que as separasse ou rotulasse". Que ela esteja nesse lugar. E que, por aqui, tenha a sua mensagem de vida e profissão escutada e reconhecida. Seja pela carreira, pelas suas frases e pela militância muitas vezes solitária. 

Alexis, muito obrigado! 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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