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Espetáculo Divas Florescer resgata humanidade e arte de mulheres trans e travestis



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Por Neto Lucon

Uma fila quilométrica saía do teatro Oficina e corria a rua Jaceguai na sexta-feira (26) em São Paulo. O espetáculo em cartaz não tinha nenhuma estrela global, tampouco havia ganhado a mídia brasileira. “O que está acontecendo aí?”, perguntou um rapaz de dentro do carro. “É um espetáculo com travestis”, soltou outro de dentro da fila.

Tratava-se do Divas Florescer, um espetáculo musical dirigido por Márcio Telles, que visa resgatar o glamour dos espetáculos de travestis e mulheres trans, tão valorizados até os anos 80. E também mostrar o poder da arte e do incentivo na vida de nove pessoas trans que estavam sujeitas à vulnerabilidade social e que participam do Centro de Acolhida Divas Florescer, coordenada por Beto Silva

Ainda na fila, as estrelas Bruna Brazil, Jamilly Milly, Kristinny Rodrigues, Safira de Preciosa, Luiza Bruna, Ianca Moreira, Amanda Santos, Deborah Rodrigues e Thathy Hills – todas participantes do centro de acolhida e artistas do espetáculo - apareceram para recepcionar o público, dar um close e colocar “a cara na lua” (já que não tinha sol). Logo, o público foi encaminhado para dentro do espaço do Teatro Oficina para aguardar o início do show.

A drag queen Silvetty Montilla abriu a apresentação humorada, falando do seu nome no SPC, do anel que compra 40 apartamentos em determinado bairro de São Paulo... Depois foi a vez da rapper Danna Lisboa arrasar na performance das músicas Trinks e Cidade Neon, representando a periferia e a comunidade trans. “O rap é machista, é transfóbico, mas eu estou aqui para mudar isso”. Recebeu muitos aplausos.


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UMA PAUSA E O LEVANTE

O diretor chega ao palco fazendo uma nova apresentação inicial, diz que não sabe mais se é “diretor ou diretora” e, para provar, mostra o sapato brilhante. Depois, faz homenagem para Silvetty Montilla, para a própria mãe, para a madrinha do projeto, para todos-os-apoiadores-patrocinadores-e-equipe. E diz que pode falar o quanto quiser, afinal é o diretor.

Então, surge a atriz Wallace Ruy em um monólogo forte, denunciando e expondo todas as marcas, olhares e cicatrizes da vivência de uma travesti, que é catapultada para a prostituição e para a exclusão social. “Eu não canto e danço todo dia não, eu não faço poesias pra viver", diz um trecho. Ele é parte do “Meu Corpo Noite Adentro”, de Rafael Carvalho. 

Os olhos marejados da plateia evidenciam o tiro certeiro do discurso.

Posteriormente, Jamilly (uma das artistas mais expressivas do grupo) chega interpretando uma travesti em situação de rua. Pede esmolas para a plateia, que assim como na vida real não se compadece. Encontra uma travesti na prostituição, que a expulsa de lá, dizendo atrapalhar o contato com clientes. Encontra outra, mais outra, e mais uma, e inicia uma briga. Até que Luiza surge, feito uma fada madrinha veterana, questiona se é exatamente isso que elas querem mostrar. E diz que elas podem ser,... DIVAS!






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Todas jogam as suas vestimentas maltrapilhas para o alto, revelando figurinos brilhantes, coloridos e belíssimos que compõem o guarda-roupa de artistas e de grandes estilistas, bem como Silvetty Montilla, Ateliê Yalodê, Isak Rodrigues, Michelle X, Renato Lucena, Laura Velasles e Bruno Oliveira. Dá-se início a um verdadeiro revival aos espetáculos de travestis e mulheres transexuais.

UM REVIVAL

Embora se trata de artistas novatas, as performances não se limitaram na produção, figurino e espaço. As artistas realmente demonstraram ter se entregado nos dois meses que tiveram a Oficina teatral. E evidenciaram talento e preocupação em apresentar um trabalho de primeira para a plateia. De modo geral, todas brilharam. 


Tanto pela qualidade da dublagem, pela performance que contemplou todo o espaço do Teatro Oficina (sim, elas chegaram a se pendurar com coragem nas estruturas de ferro), pela energia que transmitiram e até pela escolha das músicas – que foi das norte-americanas Whitney Houston (1963-2012), Christina Aguilera, da cantora ítalo-francesa Dalida (1933-1987), até das brasileiras Vanusa, Ivete Sangalo e Joelma.

A performance de Safira na música Salma Ya Salama, por exemplo, lembrou as apresentações memoráveis de Natasha Dumont em shows de talentos na TV. Já Luiza foi puro glamour e mostrou representatividade em Je Suis Toutes Les Femmes (Eu sou Todas as Mulheres), de Dalida, também cantada por Rogéria. Já Deborah esbanjou energia ao som de Calypso. 

As artistas Penélope Jolie – que dublou Last Dance, de Donna Summer - e Victoria Principal – com sua performance humorada - engrossaram o show de talentos e de versatilidade na noite.

Foi como voltar ao tempo em que os shows reinavam e mostraram que travesti e transexual eram puro luxo e grande prestígio das casas norturnas. Também promoveu uma bela homenagem a todas as artistas que foram precursoras do movimento artístico no Brasil: bem como Divina Aloma, Claudia Celeste, Safira Bengell, Phedra de Córdoba, Marcinha do Corinto...




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NOVE DE 30

Ao fim, Wallace volta ao palco enrolada em um roupão. Recita um recorte da adaptação de Necésio Pereira, do clássico “Orlando”, de Virginia Wollf. Fala sobre o seu corpo de mulher e, para a surpresa de todos, se desnuda em frente a plateia. Um corpo in natura, sem cirurgias plásticas ou modificações. E, ainda assim, como ela faz questão de frisar, um corpo de mulher.

A plateia aplaude e se emociona.

Após a apresentação, os elogios corriam pelo espaço e as artistas atendiam a plateia para fotos e algumas palavras. Realmente, o Divas Florescer resgatou a humanidade e a arte aparentemente escondida em nove das travestis e transexuais acolhidas pelo Centro - muitas que estavam em situação de rua. Parafraseando Viola Davis, mostrou que o que "diferencia uma mulher trans ou travesti de qualquer outra é a oportunidade".

O diretor da peça frisa que são nove de trinta. E que espera que em outras oficinas, mais meninas queiram se engajar. 
Já o coordenador do Centro, Alberto Silva comemora: “A arte transforma e ocupa espaço dentro do vazio. Outro fato importante foi elas saírem do papel de atriz coadjuvante para assumirem o papel principal, diante de todo o contexto que vivenciaram nas ruas e diversos espaços”.

O exemplo positivo e aplaudido desta primeira turma (e até então apresentação única) deveria motivar outras apresentações. E também encorajar, motivar e florescer o talento das demais integrantes nas próximas montagens. Afinal, Divas Florescer - bem como os programas de show de talentos de trans nos anos 80 - vale 10 estrelas. 






ALGUNS CLOSES PRÉ-APRESENTAÇÃO: 




 









About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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