Pop e Art

Globo Repórter acerta ao mostrar que famílias precisam acolher pessoas trans



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Por Neto Lucon

A programa Globo Repórter, exibido na noite de sexta-feira (23), abordou a diversidade sexual e de gênero. E, por meio de histórias de pessoas trans e suas famílias cis, indicou que o melhor caminho para uma relação saudável é o acolhimento e a aceitação.

Uma das histórias apresentadas foi a de Luan Munhão, que foi designado mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem. Aos 16 anos, ele foi acolhido por sua família, formada pela mãe Mariana, padrasto Sérgio, e as irmãs Raíssa e Pietra. Detalhe, até a avó e bisavó o aceitam.

No relato, ele disse que sempre se identificou com o universo masculino e que ficava no quarto implorando para que uma fada madrinha chegasse e falasse: “Então agora você é um menino”. E que prometia se tornar uma pessoa melhor caso isso acontecesse, mas a mágica não acontecia. Tudo mudou quando ele descobriu a mundo “transgênero” na internet.

“Caramba, eu sou isso. Como assim? E fui me identificando. Mas era uma coisa minha, dentro do meu mundinho e que ninguém poderia saber. Se soubessem, acabou tudo. Tinha medo de as pessoas se afastarem de mim e de não deixarem eu ser aquilo que eu queria ser”, declarou.

Após desabafar e pedir ajuda para a amiga Valentina Roxo, de 17 anos, Luan teve uma ajudinha. A amiga contou para a mãe que ele é um homem trans e tudo mudou. Mariana afirma que se surpreendeu, porque esperava que o filho fosse declarar que gostava de meninas; não que era um menino. E o padrasto afirmou que eles optaram por demonstrar apoio e ao mesmo tempo trabalhar internamente a questão.



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“Entre nós ficamos tentando entender o que era e o que a gente iria fazer. Porque o baque não adiantar falar que não vem, não adianta falar que foi lindo e que foi mágico, porque não foi. Até hoje não é”, declarou Sérgio. Luan concorda: “Para mim não foi (fácil), porque para vocês seriam?”.

A aceitação foi transformadora. De pessoa triste, fechada, tímida e que chegava a bater a cabeça na parede, Luan pode ser visto mais feliz e, como sua promessa, se esforçando para ser uma pessoa melhor. A irmã declara que ele deixou de ser rude e grosso. A avó Ana Paula Munhão diz que, apesar da situação ainda ser delicada, ela consegue superar os obstáculos ao vê-lo mais feliz, “coisa que durante muito tempo ele não era”.

A reportagem fez questão de frisar ainda que atualmente a casa está cheia, a família está sempre reunida na cozinha e que boas risadas rolam em volta da mesa. Mais uma prova de que o acolhimento e a aceitação são os melhores caminhos. “Todo mundo tem direito ao respeito”, diz Luan, que atualmente passa pela hormonioterapia no ambulatório de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Obs: o psiquiatra Alexandre Saadeh diz que no fim de 2010 algumas famílias começaram a levar seus filhos e filhas trans. Atualmente, há cerca de 100 pacientes com menos de 18 anos, que são acompanhados de psicólogos e terapeutas. "Com crianças não há nenhuma intervenção hormonal ou cirúrgica. Tem um acompanhamento dos pais e uma diminuição do sofrimento dessa criança". 


NOS ANOS 70

A história de João Nery – homem trans que é considerado pioneiro no Brasil – também foi retratada na reportagem. E mostrou o quanto difícil era a vida de quem se descobriu trans há algumas décadas. Tanto pela clandestinidade em que as cirurgias eram feitas, quanto pela própria incompreensão da transgeneridade ou transexualidade.



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Para mudar os documentos nos anos 70, João teve que mentir para a Justiça. Se apresentou com roupa de lavrador, dizendo que nunca foi registrado e que queria servir ao exército. Ele conseguiu ser o homem que sempre foi na identidade, mas isso o fez perder o diploma de psicologia, o mestrado e a carreira na universidade. “Perdi todo o meu currículo escolher e tive que usar outras profissões que não tivessem currículo”.

Na vida amorosa, ele revelou que encontrou acolhimento por meio de suas três ex-mulheres e da atual esposa, Sheila. “Sou sortudo no amor e na vida. E graças às mulheres que eu tive, eu consegui transpor todas as dificuldades. Sou casado há 20 anos com a Sheila. É minha grande companheira, minha amiga e que me ajuda no ativismo”.

Em seu depoimento, João falou também sobre a urgência da aprovação da PL 5002/2013, conhecida como PL João Nery, que visa facilitar a mudança da documentação de pessoas trans, sem que elas percam o direito ao tratamento de saúde. 


COMO AINDA É

Para quem pensa que a transfobia ficou no passado, o relato de Agnes Prado dos Santos, uma oficial administrativa, mostra que ela continua bem presente. Logo após se revelar mulher transexual, Agnes encontrou as portas do mercado de trabalho fechadas e vários apontamentos transfóbicos.

“Acharam que eu fosse fazer programa, que eu era gay e estava fazendo isso para atrair homens. Ninguém entendia que era a minha identidade e que eu estava firmando essa identidade”, disse.



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Após um ano desempregada, ela aceitou uma oportunidade de emprego que feria a sua dignidade humana. “(Disseram: ) ‘você tem que ser um rapaz, se vista como um rapaz e fora daqui você pode ser o que quiser. Como estava um ano desempregada, quase passando fome, eu aceitei”, declarou ela, salientando que ainda falta empatia para as pessoas trans.

Hoje, ela conseguiu fazer a retificação dos documentos e se prepara para a cirurgia de redesignação sexual (popularmente conhecida como mudança de sexo).

Os casos de Laura Vermont, travesti de 18 anos que foi assassinada no último ano por cinco rapazes ao voltar para casa; de Lucas Fortuna, um jovem gay, que foi comprar um cigarro, foi espancado e jogado no mar em Pernambuco, foram relatados por seus pais. “Aonde a pessoa confessa ‘eu fiz’ e vai para a rua?”, questiona Zilda Vermont. “Se fosse filho deles, não estariam. Mas como não é e como é uma travesti, eles acham que não é gente”.

OUTROS RELATOS

Histórias de amor e aceitação foram levadas à telinha. Dentre elas a da professora trans Alexya Lucas Salvador e do marido Roberto Salvador Junior. Ela conta que resolveu a passar pela transição de gênero após ser acolhida em uma igreja inclusiva. E que até o marido, que a conhecia antes da transição, apoiou e continua apaixonadíssimo.

E também das ex-mulheres Ana Lucia Lodi e Ana Claudia Isabel, que tem dois filhos, André (de 14 anos) e Anna Laura (de 12). Elas afirmam que não encontram preconceito na sociedade e que vivem uma família absolutamente comum como qualquer outra. “Para mim é normal (ter duas mães). Meu irmão também acha a mesma coisa, então fica tudo bem”, diz a filha.



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A atração falou ainda sobre o grupo Mães Pela Diversidade, um grupo de mães de pessoas LGBT que ajuda outras mães e pais a aceitarem, acolherem os seus filhos, se fortalecerem e contribuirem para a luta contra o preconceito.

 “Tudo o que eu quero é que eles sejam felizes. Se eles estão bem, eu - como mãe - também estou bem”, afirma Ana Lúcia de Souza, mãe de Jéssica, uma mulher lésbica cisgênero, e do Miguel, que é homem trans.


BALANÇO

O programa teve alguns tropeços, bem como ser anunciado como “diversidade sexual”, esquecendo a questão de gênero, de expor nomes e fotos antigos a contragosto, de usar expressões e termos antiquados (bem como “nasceu no corpo errado”, “origem do problema”, “mudança de sexo”), de dizer que o doador anônimo é o "pai" do filho do casal de lésbicas, mas o balanço é positivo.

Deixou a mensagem de que as famílias precisam se abrir e se livrar dos preconceitos para viver melhor em sociedade. E que o preconceito só atrapalha a busca para a felicidade. O relato de Avelino Fortuna, que perdeu o filho para a homofobia, emociona ao fim: "Que busque sensibilizar para que os pais saiam do armário e deem o amor que seus filhos estão pedindo e dar o amor que esses filhos merecem”. É isso... 

Perdeu o programa? Assista clicando aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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