Entrevista

“Prática Queer é mais incrível que a teoria”, diz Priscilla Bertucci, fundador do [SSEX BBOX]



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Por Neto Lucon
Fotos: Dani Villar (divulgação SSEX BBOX]

No último ano, a 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] E Mix Brasil marcou São Paulo com uma vasta discussão, performances e workshops nacionais e internacionais referentes à diversidade sexual, de gênero e corporeidades. E, muito além da sigla LGBT, revelou identidades de pessoas ainda pouco faladas no Brasil.

O guarda-chuva Queer – cuja militância tradicional ainda mantém resistência em adotar como termo – se abriu. E muitas pessoas experimentaram, expressaram e vivenciaram pela primeira vez as suas identidades particulares e transgêneras, com direito a choro e agradecimentos.

Por trás da Conferência, está Priscilla Bertucci – que é diretor e fundador do [SSEX BBOX]. Paulistano radicado em São Francisco, ele se define como gênero Queer (entenda mais ao longo da entrevista) prefere ser tratado por pronomes neutros (possíveis na língua inglesa) ou no masculino (aqui no Brasil).

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Pri fala sobre a Conferência deste ano – que ocorre entre os dias 18 e 20 de novembro, no Centro Cultural São Paulo, em São Paulo – e comenta sobre a prática Queer, realidade brasileira e novos caminhos.

- Pri, quando te conheci, algumas pessoas disseram que você era um homem trans. Mas não é assim que você se define, né? É queer?

É, eu me defino como gênero queer, que é uma identidade transgênero . Eu não estou dentro de uma caixa, não quero uma caixinha para limitar nenhuma possibilidade, nem para homem trans nem para não-binário, que chega perto, mas não é exatamente como eu me reconheço. O Queer me representa pois vai para além .

- Pode explicar melhor?

O gênero queer pode ser qualquer coisa, pode ser tudo que não tem um lugar para colocar. Queer é um termo em inglês – que significa aquilo que não é uma linha reta, que desviou – e que depois de ter sido usado como xingamento, virou adjetivo de empoderamento. Assim como as pessoas tentam fazer aqui no Brasil com sapatão, bicha, viado... Ressignificar para empoderar. E esse é um movimento importante. É poderoso. E o que devemos frisar é que queer vem antes da teoria queer. Existe a teoria, mas tem a prática queer, que é algo ainda mais incrível. Ainda não temos no Brasil a noção do Queer enquanto estilo de vida, que envolve uma visão mais “Una” da existência e menos cartesiana. Essa vivencia de um Queer que também se faz presente em outras correntes de pensamento como opressão estrutural a questão socioambiental e a espiritualidade.
Pri e o ativista e diretor de filmes pornôs Buck Angel

- Como se dá a sua prática queer?

Passei a me identificar como queer depois de morar oito anos em São Francisco e me entender desse jeito naquela comunidade e naquele contexto. Me senti muito à vontade em usar roupas consideradas masculinas pela primeira vez: “Nossa, tudo bem, pode”. Aí comecei a brincar de drag, fazia drag king, usava chapéu, comprei gravatas e entendi mais essa questão de expressão de gênero. Comecei a entender que a minha expressão de gênero era muito masculina (pausa). É, você não vai me ver de vestido... Minha expressão de gênero é masculina e isso me faz um tanto quanto queer.

- Quais são os artigos e pronomes que você prefere ser tratado?

Prefiro ser tratado no neutro. Mas quando não dá, pela linguagem, como é o caso do português, que é uma língua binária, eu prefiro ser tratado no masculino. Me sinto mais confortável. Mas ao mesmo tempo não surto se me chamam de ela. E isso varia de pessoa para pessoa. O ideal seria a gente perguntar, né? Já no Facebook, eu uso mais todxs, com x. Mas, às vezes, erro também. Quanto ao nome, prefiro que me chamem de Pri, que pode até ser mais feminino, mas termina com i.

- As pessoas questionarem por você se definir queer e ao mesmo tempo não mudar o nome, não fazer a hormonioterapia, não se colocar como trans?

Não penso em mudar o nome, pois o meu homem interior é muito bem resolvido como Pri. Às vezes ele aparece aí, e até tem um nome, “Richard” (risos). Ele existe desde criança. Mas eu também tenho outros personagens interiores, que eu lido com eles muito bem em processos terapêuticos e somáticos. Hoje não quero mudar de nome, mas sei lá, quem sabe um dia eu mude de ideia. E daí é isso. Eu acho que as pessoas reclamam muito da Laerte Coutinho também, né? Mas ela não tem que mudar porque as pessoas querem. Na verdade, eu acho que ninguém “tem que” nada. Eu sou transgênero, meu nome é “O Pri” . Sou Queer.

- Você acha que as concepções que a gente tem sobre gênero contribuem para a opressão?

De alguma forma, sim. Quando você enquadra uma coisa em uma caixa e diz que é o certo, e tudo que está fora disso é errado, existe um problema. Isso é por conta da sociedade cisheteronormativa que criamos. Talvez seja visionário demais ainda sonhar com uma sociedade que não tenha gênero. Penso que se não houvesse problema de você usar vestido quando é criança e suar maquiagem, se não existisse bullying e nada, essas questões de gênero iriam ser tão normais que talvez nem existissem. Então, sim, gênero da forma que a gente aprende socialmente, com esses formatos de caixas, acho que é uma limitação, uma opressão. Mas também todo o contexto em que ele é inserido conta. Alias acabei de escrever um livro infantil, com minha parceira Júlia Rosemberg, sobre essas essa questão de gênero e o lugar das experimentações.

Pri e a militante transexual Magô Tonhon 
- Como a sua família lida com todas essas questões queer?

De uma forma incrível. No começo, quando a minha mãe descobriu – e eu me identificava como lésbica aos 14 anos – foi difícil, óbvio. Manda para terapia, tem todo aquele tabu, aquela coisa escondida. Mas eu sabia que era assim, ou que a minha identidade não era igual a de todo mundo desde criança. Eu queria passar como menino, tinha aquela coisa de tomboy. As pessoas perguntavam “qual é o seu nome?”. E eu dizia: “Priscillo”. Eu tinha cabelo bem curtinho e até passava como boy. E eu sabia que gostava de meninas desde cedo. Mas hoje eu gosto de todo mundo. Mas voltando aos meus pais, depois de alguns anos eles entenderam que o problema eram eles, e não eu.

- Há apoio deles para os seus projetos referentes à diversidade?

Total! Em 1999, quando eu trabalhava como produção, eu fiz a minha primeira festa gay. Acho que chamava GLS ainda (risos). Eles foram e adoraram. E, hoje, eles super apoiam o [SSEX BBOX]. Eles ajudam com o crowdfunding, ajudam quando preciso imprimir alguma coisa. Se não tivesse o apoio deles, não rolaria. Sem essa base, é muito mais difícil. Eu me considero uma pessoa com muito privilégio por ter pais que aceitam. Hoje eu estou casada pela segunda vez com Júlia Rosemberg, uma mulher incrível que me apoia em todos os sentidos, e que meus pais adoram ela... mas no primeiro casamento o meu pai fez um discurso que foi assim: “Eu achava que era um problema seu, hoje eu vejo que era um problema meu. E isso tudo me transformou”. Foi muito incrível ouvir isso dele.

- Você chegou a falar que o queer vem antes da teoria. Qual é a diferença?

É que muita gente acha que as pessoas queer surgiram depois da teoria. Mas esquecem que o queer vem da rua, não vem da academia. A gente trouxe a uma grande amiga, a Carol Queen na 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil, que é uma das precursoras desse movimento nos Estados Unidos, nos anos 70 e foi uma das mais importantes ativistas responsável pela inclusão da bissexualidade, como uma identidade positiva, dentro da sigla LGBT. Então, encontrar com essas pessoas que viveram isso, que começaram com esse movimento que se espalhou pelo mundo inteiro foi um “Wow!”. Além disso, tem festa queer, tem mercado queer, tem queer gyn, que é onde eu ia fazer exercícios. E quando uma pessoa se identifica como queer tem uma questão política de entender certos assuntos com interseccionalidade, como meio ambiente, machismo, racismo, classicismo... É todo mundo dentro de uma mesma coisa ou fora do que é considerado padrão ou opressor.
Durante o workshop do [SSEX BBOX] com Claire Rumore e a participante Lorys Ciccone


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- De qual maneira você pensou em trazer o [SSEX BBOX] para o Brasil?

Quando eu estava vendo esse movimento queer em São Francisco, eu acabei vindo ao Brasil algumas vezes e tive um choque. Estava passando o Big Brother e tinha um cara lá que ganhou e que era super homofóbico... Não lembro o nome dele...

- Foi o Marcelo Dourado, no Big Brother Brasil 10.

Isso, foi horrível. Eu falei: “Nossa, preciso fazer alguma coisa”. Aí eu fui mordido por uma aranha. De fato. (risos). Fiquei com essa angústia, com esse negócio de uma aranha me morder, o veneno. Tive umas sinapses que começaram de um jeito muito diferente, até porque trabalho bastante com o kambô, que é o veneno da rã da Amazônia que dá a mesma claridade de visão. Então, o [SSEX BBOX] foi uma bolha que estava flutuando, que alguém teria que fazer e “boom”, caiu em mim. Eu escrevi tudo em uma sentada. Sabia como ia ser, falei com os meus amigos em Berlim e em uma semana já estava rolando. Com o meu reconhecimento no queer, o projeto virou, “é sobre isso que tenho que falar”. Virou a minha própria busca de entender quem eu sou, de onde eu vim, para onde eu vou e os tabus em relação ao sexo e ao corpo.

- E qual é o objetivo da Conferência Internacional [SSEX BBOX] e Mix Brasil?

Oferecer conhecimento para as pessoas e criar um senso de comunidade maior dentro dos LGBTQIA+ . A gente quer que, as pessoas conheçam todas as opções, questões, e possam achar as suas respostas, o seu lugar de conforto. “Em qual lugar eu me encaixo e me sinto confortável?”. “E se eu não quiser me encaixar, e não ter nenhum rótulo, talvez o queer entre”.

- Qual é o paralelo que você faz entre os movimentos de diversidade sexual e de gênero de São Francisco e para ao Brasil?

O que mais me impressiona lá é o senso de comunidade. Vejo as pessoas se organizarem pelas causas muito rápido. Por exemplo, pegou fogo na casa de um coletivo queer e a comunidade inteira se juntou para fazer uma vaquinha para arrumar as coisas, as boates queer fizeram eventos para arrecadar grana... É todo mundo se preocupando de verdade com o outro. Não tem essa coisa de “vou te botar pra baixo, porque você disse uma coisa errada, porque você postou um negócio”. É óbvio que até rola, mas o que eu vejo mais é uma união bem interessante, de valorizar o outro. É algo que eu começo a ver agora por aqui. 



- Para mim, o movimento queer parece ser algo lá de fora e que não é comum encontrar essa realidade ou pessoas no Brasil. Pensou nisso quando trouxe a 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] E Mix Brasil ?

Aqui no Brasil tem um monte de gente que se identifica queer, sim. Aqui mesmo (estávamos em um bar) tem duas pessoas que se identificam assim trabalhando. Mas é óbvio que há cinco anos atrás, quando a gente começou o projeto, não tinha. Assim como não tinha homem trans para a gente entrevistar também. Era tudo muito escondido. E aí as coisas foram mudando. E acho que não é nem querer trazer algo para o Brasil, acho que é querer trocar informação. Foi incrível que as pessoas vieram para cá e entenderam a realidade daqui, entenderam como é que as nomenclaturas se dão, e como a gente acha os nossos lugares. E não é uma imposição de regra de nada. Vejo que algumas pessoas têm resistência, mas eu acho legal a discussão surgir. Acho legal também a ideia de usar “KUIR”, para abrasileirar um pouco.

- Dialogo sobretudo com muitas travestis – uma identidade genuinamente brasileira - e muitas não se sentem confortáveis com o surgimento de outros termos, sobretudo de origem gringa, para falar sobre essas identidades e vivências. Elas sentem que com esses novos termos a própria identidade travesti vai sendo diluída. O que pensa sobre essa questão levantada pelo movimento de travestis brasileiras?

Acho que é real esse medo. Mas acho que as coisas são meio que naturais. As coisas vão em um processo de evolução de nome, de linguagem, que muda de tempos em tempos. Então, eu acho importante ter essa coisa de identidade, mas gosto muito mais da coisa do coletivo maior: “Somos todos” do que “eu sou esse pedacinho aqui”. Talvez seja algo egoísta olhar só para aquilo que me interessa, mas talvez seja uma fase do ser humano que está e precisar evoluir. Uma lésbica cis negra da periferia também sofre preconceito tanto quanto uma trans hétero do centro. Então não dá para ficar na olimpíada de quem sofre mais. Todo mundo está sofrendo. É óbvio que existem privilégios, mas gostaria de convidar as pessoas a olhar tudo isso de maneira mais intersectional. E essa divisão de nomes e nomenclaturas não é boa para ninguém.

Com as militantes transexuais Angela Lopes
e Renata Peron
- Quem você acha que representa o movimento queer no Brasil?

Neste momento, talvez seja o Jota Mombaça e o Liniker também tem dado espaço para esse tema de maneira mais pop. Lá fora temos várias pessoas... Tem aquele seriado, que o pessoal que produz é muito parceiro nosso, o Transparent, em que muitas pessoas trans que se identificam como queer. Mas é que lá a pessoa é trans e também se identifica como queer. Ou seja, ela não perde a identidade trans. Queer é só um guarda-chuva, como o LGBT é aqui. Tanto que se você for em alguns lugares da Europa, as pessoas não falam mais LGBT, é queer. Porque você tem o queer como orientação sexual e queer como identidade de gênero.

- Qual foi a sua avaliação sobre a 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] EMix Brasil no ano passado?

A Conferência superou as minhas expectativas. A gente teve 2 mil pessoas, 100 pessoas se apresentando, falando e fazendo performances. Tivemos quatro pessoas na produção e um grupo incrível de voluntários, que de um gás enorme. O balanço foi incrível e eu falo isso pelos depoimentos que a gente recebeu. Muita gente chorando e agradecendo. Umas três mulheres trans me abraçaram e disseram que foi a primeira vez que elas saíram vestidas de mulher na rua. E que vieram todos os dias da Conferência porque se sentiram seguras naquele lugar. Isso para mim, foi “uau, uau, uau”. A conferência conseguiu um aprofundamento nas questões pessoais, nos lugares de dor. Da dor da opressão, da dor de não ser aceito, da dor de não se achar bom o suficiente. Então tudo isso a gente compartilha. E então ter coragem de olhar para esses sentimentos e mexer neles.

- Percebi que você se emocionou em diversos momentos. Quais deles você destaca?

Naquele workshop que você participou (Integração de Dualidades e Contradições, comigo e com a Claire Rumore). Ver ali pessoas chorando e me agradecendo por ter feito aquele evento foi muito forte. De ver que tudo estava funcionando, que o meu desejo estava sendo correspondido. Eu acho que, no final, quando me dei conta que acabou, pensei na quantidade de pessoas que duvidaram que era possível fazer: “Não vai dar certo”, “É muito ambicioso”, “Como assim, sem dinheiro?”. E pensar como que tudo ocorreu como mágica. Tudo o que a gente precisava, aparecia na hora certa, mesmo sem dinheiro, mesmo sem o crowdfunding ter dado certo. Foi um grupo tão unido que não tivemos problemas internos. Todo mundo estava tão apaixonado pelo projeto que não tinha espaço para essa energia.
A cartunista Laerte Coutinho e Pri Bertucci


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- E neste ano, o que a gente pode esperar?

Queremos aprofundar as questões. A gente vai fazer mais grupos de trabalho entre os dias 9 e 18 de novembro. Ter workshops e cursos durante os primeiros dias e ter mesas do dia 18 ao 20 de novembro, terminando com uma grande festa O Dia Nacional da Consciência Negra. Os workshops e cursos vão aprofundar e capacitar as pessoas sobre vários assuntos, questões corporais, interseccionalidades de opressão... Tem gente vindo da Europa, tem gente vindo de São Francisco e muita gente daqui também. Estamos com uma campanha no ar para arrecadar os recursos para passagem, hospedagem e alimentação dos convidades desse ano.

CROWDFUNDING DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] E MIXBRASIL

https://www.catarse.me/SSEXBBOX2

OUTRAS FORMAS DE APOIAR:
COLOCANCO ESSE AVATAR NA SUA FOTO DE PERFIL DO FACEBOOK
http://twibbon.com/Support/confer%C3%AAncia-ssex-bbox-2

 

- Pri, quer acrescentar algo?

Acho importante convidar as pessoas para virem, que é um evento gratuito e que neste ano a gente quer ter muito mais que 2 mil pessoas. E pedir o apoio das pessoas para conhecerem mais, e não terem pré-conceito. Porque a gente luta exatamente contra isso: o pré-conceito.

Link do evento no facebook:
https://www.facebook.com/events/805302506268977/

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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