Pride

Quando uma travesti é vista no colo de um famoso o véu da hipocrisia cai



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A história se repete: um famoso se relaciona com uma travesti, o caso cai na mídia e o que fica é um show de hipocrisia, de moralismo e, evidentemente, de transfobia. Aconteceu em 2008 com Ronaldinho e Andréia Albertini, em 2013 com Romário e Thalita Zampirolli. E aconteceu agora, com Alexandre Borges e uma ou duas travestis ainda não identificadas.


Para quem não sabe, na última semana foi divulgado um vídeo em que o ator da TV Globo aparece com uma travesti sentada no colo, trocando carícias. Foi o suficiente para que os preconceituosos de plantão debochassem, falassem o quanto ele expunha a família ao ridículo, o quanto foi “enganado” e tantos outros comentários de cunho moralista e transfóbico que não iremos reproduzir.

Na contramão, muita gente defendeu ator e disse que não via nada demais, que ele poderia curtir a solteirice da maneira que quisesse. Uma foto dele com uma plaquinha “Cuidem de suas vidas” viralizou. E o site Sensacionalista anunciou: “Nutricionista diz que Alexandre Borges pode comer o que quiser e que ninguém tem nada com isso”. Houve até quem culpasse a travesti pela repercussão, afinal ela não deveria ter exposto a intimidade.

Enquanto uns debochavam do artista por ele estar com uma travesti, outros o defendiam por ele estar com uma travesti. Foi quando me questionei: “E A TRAVESTI?”. “O que ela representa na sociedade quando se relaciona com alguém”? “Será que, na ânsia de defender o famoso cis, nos esquecemos que a transfobia atua como pano de fundo? Será que esquecemos que toda a repercussão e agressões só foram motivadas porque quem estava sentada no colo dele era uma travesti – e não uma mulher cis?

E por qual motivo ainda vemos tanta polêmica, deboche ou demérito em uma trans ser desejada publicamente?

NOSSO OLHAR TRANSFÓBICO

Observo que há transfobia na maioria dos comentários ao perceber  que, mesmo sem qualquer manifestação dos envolvidos, as pessoas se sentem muito a vontade em DEDUZIR, SENTENCIAR E JULGAR. Deduzem que o encontro é algo vergonhoso ou comprometedor para ele. Sentenciam que ela queria queimar o filme dele - como se ela mesma se colocasse numa posição inferior - e não apenas mostrar pras amigas que pegou o galã da Globo.

Deduzem que se trata de um programa - e não de um encontro pessoal ou casual. Sentenciam que ela não privou pela discrição do programa - mas quem falou que era programa? Opinam que ela deveria poupar o ator - como se só pudesse ser desejada às escondidas.

Deduzem também que é uma saída de armário e que ele é gay - como se a travesti fosse homem, invisibilizando a identidade feminina. Deduzem que ele foi enganado, pensando que fosse uma "mulher de verdade" - como se a travesti fosse uma pegadinha ambulante ou uma "mulher de mentira". Sentenciam que a travesti é uma sacana e marginal, e que o ator é uma vítima ou pervertido.

A cada dedução ou justificativa, a transfobia é detectada. Mas não se engane em achar que se trata de um caso muito específico dada a sua abrangência nacional. Este é o tipo de pensamento que marca a vida afetiva de muitas pessoas trans e seus parceiros (e não estamos falando apenas daqueles tidos em programas, ok?).

SÓ ÀS ESCONDIDAS

Isso ocorre porque nossa sociedade reconhece apenas pessoas e relacionamentos cisheteronormativos (aqueles formados apenas por pessoas que se identificam com o gênero designado no nascimento) e costuma a rejeitar, colocar à margem, esconder, rotular como bizarro (e até matar) todos aqueles que fogem à norma ou a fôrma.

Como a travesti não é reconhecida sequer em sua identidade feminina, seus relacionamentos e vida em sociedade são o tempo todo colocados em xeque, fiscalizados e alvo de preconceito por tabela. Não é por acaso que muitas entram em relacionamentos abusivos, em que a pessoa amada quer escondê-la de tudo (e de todos) com o pretexto da discrição, respeito e daqueles estereótipos já mencionados.

Não é por acaso que a gente acha natural que ela se esconda tanto para que não pegue mal para o parceiro.


Não conseguiu entender ainda? Tente colocar a Grazi Massafera, a Claudia Raia ou qualquer modelo cis anônima no lugar da travesti, e questione se haverá qualquer um desses questionamentos... Pois é, o nosso olhar entrega a transfobia de todo dia.

PINGOS NOS iS

"Parem de vitimismo, foi a própria travesti que fez vazar o vídeo", vão me dizer. Esquecem apenas que conteúdos "vazados", apesar de valer uma discussão muito mais aprofundada (pois não deveriam ocorrer e é crime), NÃO são privilégios das pessoas trans. Vídeos, fotos e outros "flagras" são feitos o tempo todo entre pessoas CIS - famosas e anônimas cis. E divulgada de maneira bastante naturalizada pela mídia.

É só dar um google em notícias envolvendo Bolt, Justin Bieber, Neymar e tantos outros, cujas parceiras e parceiros cisgêneros deixaram “escapar” tais momentos de intimidade. Então, querer apontar o vazamento ou a suposta droga que rolou (e que nem vou entrar no mérito de discutir) justamente quando a parceira é uma travesti (e nunca em outros momentos) muitas vezes não passa de uma maneira de se livrar do apontamento do discurso transfóbico.

A diferença é que nos casos vazados com as pessoas cis, o encaixe cisheteronormativo é dado, aceito e naturalizado. Os famosos reforçam a fama de pegador, garanhão e o lugar onde a sociedade quer que todos estejam. Já aquele que se relaciona com travestis tem o caso marcado como bizarro, a moral “manchada” e a virilidade questionada. E é fiscalizado ao ponto de ter que se desculpar e tentar contornar as críticas. 

Quando um homem faz de tudo para não ser visto com uma travesti, apesar do relacionamento, é por temer que o preconceito que ela tanto sofre respigue nele. Ou seja, como ela não é reconhecida como mulher e é desumanizada, esse parceiro não quer ser visto como um homem gay, perder a blindagem e ser colocado como alvo.


Para os desinformados de plantão, vale ressaltar que ele continua sendo hétero caso se relacione com uma travesti e se identifique assim. Entenda: A identidade de gênero da travesti é feminina (a maneira como ele se apresenta para a sociedade é esta) e a identidade de gênero dele é masculina. Se eles têm gêneros diferentes e se relacionam, aquele relacionamento é heterossexual (entendeu a lógica?). E mesmo que ele se identifique como bissexual, pansexual ou se perceba gay, nada disso deveria ser um problema. Caso seja, ainda estamos patinando em preconceitos, nota?


MÍDIA

Também é preciso dizer que a mesma mídia que paga de transfriendly num momento, ajuda a exercer um controle de poder, expectativas e preconceitos sobre as pessoas em outro. Tanto que transformaram o vídeo do ator e da trans em freak show, anunciou como "comprometedor" e fez um grande circo armado dizendo que ele poderia ser até PENALIZADO pela emissora. Mas gente...

Nos textos, fizeram da travesti uma fonte humorística. Não respeitaram a identidade de gênero dela – tratando-a no masculino - e alguns colunistas chegaram a comentar em tom de deboche: “Será que ele se ENGANOU como o Ronaldo?”.


E por falar em Ronaldo... Em 2008, o caso já ilustrava a maneira preconceituosa como as pessoas observam o relacionamento com uma trans. A revista Época trouxe a matéria: “Ela DERRUBOU Ronaldo: a BIZARRA história que reuniu na delegacia do Rio UM (sic) travesti e um dos mais bem pagos jogadores do mundo”. Depois, ele foi no Fantástico pedir desculpas pelo seu “ERRO” e frisar que gosta mesmo é de mulher.

Em 2004, a capa da revista Tititi, dizia: “Bomba! Bianca Soares NÃO é mulher! Alguém precisa avisar o Alle!”, referindo-se a um colega da Casa dos Artistas que teria se interessado por ela. O rapaz, por sua vez, frisou que era heterossexual, mas que não se incomodaria de ter beijado Bianca em uma cena, pois é ator. (Detalhe: rolou a cena, mas ela foi cortada)

Já Thalita foi comumente anunciada como a “transexy que ENGANOU Romário”. E ele também disse que ela é “MEU CAMARADA, mas que gosta mesmo é de mulher”. Para vocês terem uma ideia, até mesmo os homens que assumiram relacionamento com pessoas trans pedem para removermos o conteúdo depois do fim do romance. Entendem o que estão dizendo nas entrelinhas e reforçando sobre os relacionamentos com pessoas trans?

Como se uma travesti nunca pudesse ser vista naquele espaço, naquela situação e que não pudesse se relacionar com aquela pessoa “tão maravilhosa, de sucesso e pai de família”. E que, caso tenha a “sorte” de se relacionar, deva manter a absoluta discrição. Afinal, essa pessoa jamais poderá ser vista ao seu lado, porque a sociedade ensinou que ela é “bizarra” e que só deve ser desejada às escondidas.

O VÉU DA HIPOCRISIA

Percebo, contudo, que toda vez que um homem com vida pública é visto com uma travesti o véu da hipocrisia e da invisibilidade caem. Esfrega na cara das pessoas que o país que mais mata travestis no mundo é o mesmo que mais acessa conteúdo pornográfico delas. É o mesmo fecha as portas do mercado de trabalho formal e que a empurra compulsoriamente para a prostituição.

É o mesmo país que a joga para a marginalidade e depois se espanta quando vê alguma com comportamento marginal. É o mesmo que sabe o que ocorre às escondidas, mas que se choca quando caso torna-se público. Uma sociedade que fica abismada com o affair de uma travesti com um ator, mas que não se incomoda com a expectativa de vida baixíssima dela de 35 anos.

Esse tipo de “flagra” ou “vazamento” catapulta a travesti da margem das esquinas para dentro da sua casa – no colo do seu parente próximo – ou do seu jogador ou ator preferido. Ou até mesmo do seu marido. Mostra que elas também são gente. Mais que isso: admiradas e desejadas enquanto figuras femininas, apesar de todo o preconceito e invisibilização. E agora?

AGORA É A HORA DE NEGAR TUDO

Depois de ser tanto defendido, Alexandre deu uma declaração ao jornal Extra nessa segunda-feira (19) e negou que tenha feito sexo com a travesti, com outras pessoas que conheceu em uma festa ou que tenha usado drogas.

Ele também falou bem convicto quanto a sua orientação sexual e que, quando percebeu que não queria mais, encerrou o encontro.


Ah, Alexandre... Depois de tantas defesas, não poderia fechar o desfecho menos óbvio, diferente de seus antecessores famosos? Ainda vamos precisar de muitos mais exemplos antes que o véu da hipocrisia (e da transfobia) caiam de vez... 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

5 comentários:

Victória Vieira disse...

Maravilhoso! Esse texto diz tudo que pensei nestes dias,reflexões bem colocadas que sinaliza o verdadeiro pensamento do povo brasileiro, que muda a cor de suas fotos nos perfis de facebook, mas continua agindo com preconceito e descriminalização. Parabéns! Este texto é tapa na cara dos hipócritas.

Victoria Vieira disse...

Desculpe! Quero dizer criminalização

Fabianna Mello disse...

Parabéns pelo texto, você simplesmente falou exatamente toda realidade vivenciada pelas transexuais e travestis .

Anônimo disse...

É não se esqueça que esse vídeo do foi ao ar nas redes sociais, pq a travesti filmou sem o consentimento do ator e Postal e vendeu para uma rede de tb,ai te pergunto travesti ai da quer ser respeitado?? ???

Anônimo disse...

Este texto foi um dos melhores que li até hoje sobre o relacionamento heterossexual de de homens Cis com travestis e mulheres transexuais. É deste jeito que acontece! A maior parte dos relacionamentos são abusivos. Quanto a quem pergunta se a travesti deve ser respeitada, deve sim. Ninguém sabe se foi ela quem expôs o vídeo, muito menos sabem se ela estava fazendo programa. As pessoas devem parar com fofocas, devem parar de dá uma de forrest gump e averiguar a história verdadeira! Mesmo que tenha exposto o vídeo, que esteja num p.g dever ser respeitada sim!

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