Pride

Samara Braga, 1ª candidata trans à prefeitura de Alagoinhas, diz: “Só a luta transforma”



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Por Neto Lucon

O município Alagoinhas, localizado a 108 km de Salvador, terá pela primeira vez na história uma candidata transexual à prefeitura nestas eleições. Trata-se de Samara Braga, candidata pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), ao lado do vice Ademberg Nonato. E tem como frase: “Só a luta TRANSforma”.

E de luta a candidata realmente entende. Em conversa com o NLUCON, Samara conta que sua trajetória é marcada por muitos desafios, preconceitos e superações. E que por conhecer de perto a a população da cidade sabe exatamente em que mexer para atender as necessidades reais dos mais necessitados.

“Quero promover uma política de combate a todo tipo de opressão, onde todos tenham oportunidades iguais, direito à qualidade de vida e trabalhar sem serem explorados. O compromisso é com a população mais pobre, em maior parte negros, da periferia, LGBT, dentre vários segmentos subvalorizados e massacrados pela elite opressora, que detém a maior parte do poder econômico”, declara.

Samara afirma também que antes de entrar para a política avaliou muito bem o partido em que estava vestindo a camisa e a coerência do discurso. “Faço parte de uma coligação de dois partidos – o PsOL e o PSTU – que não tem rabo preso, que não tem participação em esquemas de corrupção, que não aceitam financiamento privado de campanha, que não são bancados por empresários e que não aceitam dinheiro de parlamentares ou políticos de outros partidos”.

A HISTÓRIA


Nascida em Salvador-BA, Samara Braga vem de uma família tradicional e religiosa, filha de professores da rede pública, reside em Alagoinhas há 12 anos. Quando morava com os pais, nunca pôde viver livremente sua sexualidade nem mesmo expressar sua identidade de gênero. Viveu como um garoto durante todo esse tempo, sendo ensinada que externizar quem era, era “pecado”. Ou seja, foi obrigada a viver uma vida dupla e infeliz.

Chegou em Alagoinhas como estudante de Licenciatura em Ciências Biológicas pela UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Não pôde concluir sua trajetória acadêmica devido às inúmeras dificuldades e mazelas pelas quais começou a passar. Encarou o flagelo da fome. Como não lhe foi concedida a opção de trancar o semestre, diante dessa dura realidade, precisou abandonar a vida acadêmica para correr atrás de sua sobrevivência.

Àquela altura já havia se apaixonado pela cidade e pelas pessoas que nela residem. Ainda não havia assumido a transgeneridade, embora sua sexualidade já fosse expressada livremente. Demorou até que ela julgasse que seus pais estariam prontos para saber sobre ser uma mulher transexual. Não foi fácil e ainda hoje se encontram em processo de aceitação. Apesar de não aceitarem ainda seu nome real e sua transgeneridade, os pais a apoiam incondicionalmente.

Entretanto, devido à evidente falta de oportunidades que já encontrava antes de assumir sua identidade feminina e o quanto isso piorou depois de sua transição, percebeu que precisava fazer algo por si e pelas outras pessoas. Isso ficou ainda mais forte ao acompanhar a realidade vivida por grande parte dos cidadãos alagoinhenses, inclusive a comunidade LGBT e em especial a população trans, que se vê obrigada a viver da prostituição, muitas vezes por falta de oportunidades e LGBTfobia, também por ver a real situação precária na qual as inúmeras comunidades da cidade sobrevivem.

Uma inquietação constante tomou conta de seus pensamentos e assim resolveu sair de sua zona de conforto, pois chegou à conclusão de que a única forma de realmente lutar de forma concreta para que essa realidade mude, seria enfrentar essa situação caótica em que se encontra a sua cidade na sua raiz, fazendo um enfrentamento político, não apenas nas ruas, mas também dentro dos espaços de poder.

Dessa forma, ao entrar para a política, buscou trazer visibilidade às camadas mais vulneráveis da população, mostrando que é possível sair de sua zona de conforto para buscar melhorias reais na qualidade de vida não apenas de uma pessoa específica, mas em benefício de toda uma população que até então vinha sendo tratada com desdém pelo Poder Público.




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Ao se candidatar a prefeita da cidade – sendo a primeira candidata transexual ao cargo - Samara propõe uma gestão participativa, onde a população será também protagonista na transformação de sua cidade. Uma cidade para todos os segmentos sociais historicamente oprimidos, sem exceções, pensada para a população e não para uma minoria, que detém o poder do capital.

Por quê votar nela?

Com um caráter educativo e didático, sua candidatura veio para trazer visibilidade e uma nova ótica acerca da comunidade trans, que até então sempre foi vista como pária da sociedade e sempre foi invisibilizada nos mais diversos setores, inclusive nas políticas públicas.

É um marco na história da política de nosso país. Tanto pela candidatura pioneira de uma mulher transexual quanto pela ideia de uma gestão com participação popular. Ela quer que o povo seja protagonista nos projetos voltados a atender as reais necessidades de seus bairros e comunidades, "integrando-os à vida política de forma deliberativa, fortalecendo os conselhos de bairros, as Associações, os sindicatos e lutando pelo direito à dignidade de todos os segmentos historicamente oprimidos".

Samara diz querer uma cidade onde ninguém seja excluído do mercado de trabalho por questão de raça, cor, sexualidae ou gênero, onde portadores de qualquer limitação física, sejam tratados também com o devido respeito e tenham condições de transitarem pela cidade em segurança e tenham o acesso a todos os locais, públicos ou não, adequados às suas necessidades.

Gostou? Então, o número é 50!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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