Entrevista

"Temos muito que ensinar à sociedade", diz Rafaela Manfrini, a Miss Trans Star 2016



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Por Neto Lucon

A maquiadora brasileira Rafaela Manfrini, de 30 anos, tem bons motivos para comemorar: ela foi eleita na última semana a Miss Trans Star 2016, em Barcelona, Espanha. Pois é, ela é considerada atualmente a mulher transexual mais bonita do mundo e, a exemplo de suas antecessoras, trouxe mais um título para o Brasil!

Com 92 cm de busto, 65 de cintura, 100 de quadril e 64kg muito bem distribuídos em 1,74m de altura, ela se sobressaiu entre as 25 candidatas – dentre elas, a favorita israelense Tallen Abu Hanna - e diz querer utilizar a sua faixa contra a transfobia.

Natural de São Paulo, Rafaela acredita que a beleza é poderosa (embora não seja tudo) e pode ser a porta de entrada para a quebra de preconceitos. Ela afirma também que a sociedade tem muita coisa a aprender com as trans, afinal “quem mais corre atrás dos seus sonhos que esta população?”.

O NLUCON conversou com exclusividade com a Miss Trans Star logo após a conquista do título, ainda na Espanha. Aqui, falamos sobre beleza, preparativos para o título, transfobia, família – ela contou que tem uma tia trans também, que é uma inspiração para ela – direitos a serem conquistados. Vamos lá!

- Desde 2012 você marca presença em concursos de beleza. O que te motiva a se inscrever e a participar?

Iniciei a transição já em idade adulta, com 23 anos, então jamais pensei que poderia ser uma referência de beleza. Quando participei do Miss T Brasil, fui sem pretensão nenhuma, queria ver como era, mas acabei me apaixonando. Entendi que, com isso, poderia dar voz ao coletivo trans e trazer uma visibilidade positiva para todas nós.

- O fato de você não ter levado a coroa do Miss T Brasil e nem no Miss International Queen trouxe um sabor diferente para esta vitória no Miss Trans International?

Sempre fui muito pé no chão. Para ser muito sincera, em 2012 eu não me achava digna da coroa e por isso não me entristeci. Na Tailândia, muitas coisas deram errado e eu não queria ganhar. Então só agora é que me senti a altura do concurso. Me senti bonita, segura e preparada para representar as trans. E isso tudo graças a inspirações que tive, como a beleza da Marcela Ohio, da determinação da Isabela Santiago...


- E qual é o sabor de ser eleita a mulher trans mais bonita do mundo no Miss Trans Star 2016? 

Foi uma surpresa muito grande. Fiz 30 anos e esse seria o meu último concurso. Então o título foi melhor presente que eu poderia receber. Mas, apesar de sempre me sentir inferior às outras e apesar da forte concorrência da israelense, o meu sonho falou mais alto. Dedico à Majorie Marchi (organizadora do Miss T Brasil, que morreu neste ano), que acreditou mais em mim que qualquer outra pessoa. Pena que ela não está aqui para ouvirmos ela dizer o quanto se orgulhava de mais uma miss brasileira coroada.

- Desta vez, por qual motivo acha que se sobressaiu às outras candidatas?

Na verdade acho que a minha simpatia e o meu comportamento se sobressaíram no Miss Trans Star. Como fui treinada pela Majorie, ela me passou que nesse concurso eu teria que estar impecável em tudo. Tanto na elegância, passarela, cabelo, maquiagem, vestido... Tudo tinha que estar bem feito. Acho que me destaquei também pelo meu discurso, que sempre falava de sonho e que tínhamos muito o que ensinar à sociedade. O que já tinha me deixado feliz foi a convivência com as meninas, em que muitas diziam que se pudessem escolher a vencedora seria eu. Então muitas comemoraram comigo.

- Por que você achava a israelense Tallen Abu Hanna a grande favorita?

Desde que ela havia ganhado em seu país, ela adquiriu muita fama e foi contratada por uma marca espanhola chamada Desigual. Percebi que a imprensa só queria fotografar ela, falar dela nos jornais de Barcelona. A mídia a colocava como a grande favorita. Mesmo eu estando bem preparada, vencer ela não foi fácil (risos).

- Como foi o seu discurso referente a sonhos? 

Bom, o concurso ocorreu em dois dias. Um dia era a apresentação do traje típico e de um discurso falando sobre sua vida. Falei que as trans tinham muito que aprender, porém também tinham muito o que ensinar. Afinal, quem mais do que nós corre atrás dos seus sonhos? Enfrentamos a sociedade, a família, a religião, lutamos contra nossa genética, tudo isso para um dia se olhar no espelho e se ver uma mulher. Podemos ser uma inspiração para todas as pessoas, sim. Já no dia das perguntas e respostas, perguntaram “se precisávamos de um trabalho para ser feliz?”. Eu respondi que sim, pois Deus de um dom para cada pessoa e, com esse dom, cada uma poderia trabalhar e se sustentar. Disse também que amava o meu trabalho de maquiadora e que, se todos usassem os seus dons, o trabalho seria mais prazeroso.
Rafaela ao lado da miss Israel (2° lugar) e miss Colômbia (3°)


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- O Brasil continua fazendo bonito em concursos de beleza internacionais. Você acha que tem alguma coisa especial nas brasileiras trans ou é pura coincidência?

Eu acho que tem, sim, algo de especial nas brasileiras, mas ainda não sei dizer o quê. Talvez seja porque somos simples e também as mais lindas do mundo, muito mais que as tailandesas e filipinas, que são referências também. Aqui, temos a Roberta Close, Marcela Ohio, Patricia Araújo, Valentina Sampaio e mais um leque de belezas para todos os gostos. Mas talvez seja também porque sabemos que, ao vencer concursos como esse, representamos também uma luta por visibilidade e direitos. Porque beleza por beleza não vale nada. Tem que ter algo a mais, que acho que nós temos. Espero que, se Deus quiser, vamos continuar fazendo bonito.

- Quais foram e são os seus cuidados com a beleza?

Como comecei a transição mais tarde, achava que não dava mais tempo (de ser uma mulher bonita e feminina). Mas o hormônio fez um efeito maravilhoso! No Miss T de 2012, fazia apenas um ano e meio que havia iniciado. Na época, só tinha feito o corpo e os seios. Depois do miss, fiz feminilização facial – testa, queixo, pomo e nariz -, modifiquei meu sorriso com porcelana nos dentes. E continuo com hormônio, dieta e academia, pois ganho peso fácil.

- Qual foi a premiação do Miss Trans Star? 

Ai, eu ganhei tanta coisa (risos). Ganhei 3.500 euros em dinheiro, 8.000 mil euros em cirurgias plásticas, uma viagem para a Tailândia e um book fotográfico com os magníficos fotógrafos do site Pio Belas da Itália.

- Você dedicou a vitória à Majorie Marchi. O que poderia falar sobre a relação que tinha com ela?

Quando a conheci foi amor à primeira vista. Ela era doce, amável, engraçada, durona e muito decidida. Ficamos muito amigas em 2012 e passamos a aprofundar a amizade depois do concurso. Com essa amizade ela não me permitiu voltar ao Miss T e, por isso, me mandou para a Tailândia. Ela acreditava muito em mim, e eu muito nela. A perda dela me deixou sem chão, pois foi do nada. Eu sabia do problema de saúde que ela estava vivendo, mas ela aguardava os resultados. Na sexta-feira, mandei uma mensagem no Face para saber se ela estava bem. Ela me mandou: “Amiga, reze por mim, eu te amo muito”. E na segunda ela nos deixou. Eu vou seguir com o Miss T Brasil, pois outras meninas precisam continuar sonhando, como ela me fez sonhar.



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- Então você vai ajudar na organização do Miss T Brasil? Não tava sabendo disso...


Sim, ao lado da Alessandra Varga e do Luiz Polastro assumimos a nova direção do Miss T Brasil. Devo ficar mais essa semana em Paris, que já havia planejado antes do concurso, e logo volto para o Brasil. Agora quero estar melhor do que nunca durante meu reinado. Estar linda e aproveitar todas as oportunidades para expor os problemas que enfrentamos em nossa sociedade e a necessidade de termos políticas públicas para nossa população. Que possamos ter um futuro melhor em nome das travestis e trans que foram, das que estão e das que virão.

- Em sua opinião, quais são os principais direitos que esta população deve ir atrás?

Primeiro, acho que o respeito ao nome social e a facilitação do processo que retifica o nome e sexo, sem ter feito a redesignação sexual. Também precisamos de acesso ao estudo, pois muitas trans por bullying acabam deixando e escola e não terminando o estudo. E o acesso ao trabalho, para que não tenhamos na prostituição o único meio de sobrevivência. Também acho que temos que ter um acompanhamento psicológico, pois devido a essa transfobia muitas sofrem de baixo autoestima, o que ocasiona muitos casos de suicídio.

- Atualmente você trabalha como modelo e maquiadora, né?

Na verdade trabalho mais como maquiadora. Esse ano continuarei como free lancer, pois terei de voltar três vezes para Barcelona para cumprir agenda do Miss. For a viagem para a Tailândia. Assim que eu passar a coroa pretendo fazer faculdade de moda, além do Miss T Brasil, claro.

- Você já sofreu transfobia?

Como todas as trans, sim. Nada que me abalasse ou que me deixasse deprimida. Antes da feminilização, alguns atendentes me chamavam de “ele” e eu me sentia uma palhaça. Depois não aconteceu mais. Hoje tenho uma vida tranquila e não passo constrangimentos. As pessoas precisam entender que precisam tratar uma travesti ou mulher no feminino sempre, independente de achá-la bonita ou passável ou não. Eu me intitulo transexual e me orgulho disso. Me incomoda alguma pessoa cis dizer: “ela quer ser uma mulher”. Querido, eu já sou uma mulher, uma mulher transexual que se orgulha muito das nossas lutas e das nossas conquistas.
Marcela Ohio, Roberta Holanda e Rafaela Manfrini: beldades descobertas no Miss T Brasil

- Você teve uma experiência chata na mídia, quando incluíram você em uma propaganda transfóbica (uma marca de pneus fazia associação de travestis com peças falsas). O que você tira dessa experiência e como você avalia a mídia?

Bem, quando fui contratada era uma campanha para a Fiat e a campanha e a arte eram lindas. Tempos depois a concepção mudou, a proposta mudou e foi desagradável vermos o que foi escrito sobre nós, dizendo que éramos objetos falsificados. Só que, em meio a tantas mortes e transfobias, isso se tornou pequeno. E, detalhe, fiquei sabendo que só foi denunciado porque surgiu certa rivalidade entre empresas de publicidade. Agora voltei a mídia e está sendo diferente. A mídia brasileira tem sido maravilhosa, atenciosa e não expôs as candidatas de maneira negativa. Então, tenho uma avaliação equilibrada. Tem quem queira o tempo todo nos marginalizar e tem que nós dá voz quando é preciso.

- Tendo em vista que você só iniciou a transição aos 23, como foi falar para a sua família que é uma mulher trans?

Bem, vim de uma família evangélica e por isso demorei tanto a me transformar. Tenho uma tia transexual, irmã da minha mãe, que sempre foi uma inspiração. Mas por causa dela a minha mãe acabou me impedindo de ser trans por muito tempo. Ela não queria que eu fosse como a minha tia e tentou atrapalhar ao máximo. Quando fiz 18 anos minha mãe foi morar em Rondônia e eu acabei indo morar com minha avó materna, que me permitiu ser quem eu sou. Ainda demorou um tempo para criar coragem. Mas no fim deu tudo certo. Tanto que no concurso minha tia chorou e está feliz com o resultado. Minha mãe também parou com o seu preconceito e hoje me aceita muito bem. Ela também me parabenizou pelo título.

- A sua tia era uma referência para você?

Nossa, minha tia é tudo para mim. Somos muito próximas e amigas. Ela morou muito tempo na Europa e, por ser muito amiga da minha mãe e sabia dos posicionamentos dela, ela mantinha a distância. A minha mãe achava que ela poderia me influenciar e ela não queria ser acusada de incentivar nada. Mas eu saía de carro e passeava com ela quando a minha mãe não estava por perto. Quando me transformei, ela estava morando fora. Quando ela chegou, tudo já estava feito e nós só nos reaproximamos. Amo demais ela.

- Recentemente rolou a polêmica envolvendo o ator Alexandre Borges e as travestis. Embora o caso mostre uma invasão de privacidade, ele mostra o quanto a sociedade ainda condena e debocha dos relacionamentos envolvendo as travestis e mulheres transexuais. Você enfrenta esse tipo de resistência?

Acontece isso muito. A sociedade em si é muito hipócrita e os mesmos homens que não te dão trabalho formal de dia, são os mesmos que saem com as trans a noite. Pelo fato de nunca serem ‘pegos’, eles são os primeiros a zoarem e a fazerem chacota com quem foi ‘pego’. Eu sou casada há quase seis anos e meu marido não poderia ser melhor. Sempre me assumiu e me apoiou desde o primeiro miss. Graças a ele venci, sem dúvidas. Então, isso tudo é muito relativo e varia de homem para homem. No fundo acho que essa história, apesar de ser vista como um escândalo, é positiva. Pois mostra um homem bem-sucedido e famoso saindo com uma trans. Outro cara pode pensar: porque não sairia? A sociedade precisa começar a entender que isso é normal Eu, por exemplo, nunca permiti que me usassem. Ou seja, que namorassem comigo escondido. Tive apenas dois namorados e os dois foram sempre abertos a isso.
Rafaela com Valeria Miller (sua tia) e Majorie Marchi (organizadora do Miss T Brasil)


- Rafa, qual é o seu sonho hoje?

Nossa, acho que consegui realizar todos (risos). Quero ser uma miss ótima nesse ano. E fazer do meu reinado uma forma de expor nossos problemas. Depois, quero continuar como maquiadora em um lugar fixo e fazer a minha faculdade de moda que tanto amo.

- Quer acrescentar algo?

Não, acho que você foi bem completo. Gostei muito das perguntas. E gostaria de dizer que temos que ser menos competitivas e nos unirmos mais. Pois um reino contra si mesmo não prevalece.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Unknown disse...

linda trans brasil parabens guria

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