Pride

“Sou o pai mais feliz que existe”, diz homem trans Fernando Machado após dar à luz seu filho



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Por Neto Lucon

A família dos ativistas Fernando Machado, que é um homem trans de 23 anos, e de Diane Rodriguez, que é uma mulher trans de 34, aumentou em junho deste ano. E ela começa a fazer história no Equador no combate à transfobia e a favor das famílias que compõem a diversidade.


Tudo porque se trata primeiro caso divulgado no país em que um casal formado por pessoas trans concebe e gera o próprio filho pelo método natural. Aliás, eles que trabalham na ong Silueta X, de combate à LGBTfobia, fazem questão de divulgar a história para acabar com mitos transfóbicos.

Para quem não entendeu, homem trans é a pessoa que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem. A mulher trans é quem foi designada homem ao nascer, mas que se identifica com o gênero feminino e é uma mulher. Como ambos não passaram por cirurgias em seus órgãos genitais e a hormonioterapia não causou infertilidade, foi possível que eles concebessem e gerassem um filho naturalmente. E, no caso, o pai é quem gerou.

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Fernando conta que quando soube que estava grávido ficou extremamente emocionado. "Comecei a chorar de felicidade, medo e pavor, tudo de uma vez. Foi um momento lindo. Nunca me senti assim antes. Hoje eu estou completamente feliz", declarou ele, que se classifica como “o pai mais feliz que existe no mundo”.




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Nas redes sociais, o papai de primeira viagem divulga diversas imagens do filho: passando a mão na barba, brincando com o pai, recebendo mimos da mãe... A foto divulgada no domingo (25) mostra Fernando ao lado da esposa e com o pequeno no colo. E a declaração de que o filho é mais que uma “benção”, mas um “gerador de amor”.

Apesar dos vários cliques, ele ainda não mostra o rosto do filho. E disse em entrevista à BBC que prepara o momento certo para divulgar para os seguidores o nome da criança. Fernando diz que obviamente eles têm um nome, mas que o chamam carinhosamente de "caracol". 


A FAMÍLIA

A história dos dois começou no Facebook em 2013, quando Diane procurava por um parceiro que “apoiasse a sua vida profissional como ativista e que também quisesse formar uma família”. Após ter conversado com alguns perfis, ela se deparou com Fernando. Eles conversaram, marcaram um primeiro encontro e não se desgrudaram mais.

“Vivemos como homem e mulher. Sou uma mulher transgênera e o Fernando é um homem transgênero. O processo para chegar até aqui foi difícil para cada um de nós, mas sabendo dos nossos direitos, decidimos adicionar outro membro da nossa família", declarou Diane.




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É evidente que muitas críticas caíram em cima do casal, sobretudo as de cunho religioso fundamentalista, mas eles utilizaram da sua história para brigar pelo direito de constituir uma família. “A igreja critica gays e lésbicas (cis) o tempo todo quando eles querem adotar crianças. Então é uma contradição eles nos criticarem por gerarmos um filho naturalmente”.

A gestação ganhou a mídia internacional e contribuiu para dar visibilidade à causa trans.

O PARTO


O momento do parto ganhou um post no Facebook escrito por Fernando, dedicado ao filho. Ele diz que sentia o seu coração bater "como o galope de um cavalo livre e sem cavaleiro". E que chorou lágrimas quentes de medo e ansiedade.

"Ouvia meu pulso através de um aparelho estranho que estava no meu dedo indicador. Deixei de sentir minhas pernas pouco a pouco, ouvia muitas vozes, mas eu só esperava conhecer a tua", escreveu.


"Sua mãe me abraçava fortemente enquanto abriam os meus tecidos ao toque de um bisturi. Os lençóis que me cobriam estavam sendo pintados, pouco a pouco de vermelho. Entre o medo e dormência, pude olhar minhas entranhas refletidas em um vidro que estava sobre nós. Mãos empurravam meu corpo por dentro e meu estômago me agradeceu pelo jejum", continuou.





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Fernando diz que quando finalmente escutou o filho chorar, as lágrimas dele também transbordaram. "Eu também conheci a vida nesse lugar". Junto com o relato, ele publicou uma foto da cicatriz que ficou em sua barriga. "Levo ela como um tesouro inestimável, pois ela é a marca da lembrança mais bela que possa existir. Te amo, bebê. Assinado: pai".

PAI E MÃE DE VERDADE


Fernando afirma que a sua família é absolutamente igual às outras, a diferença é que eles não têm os mesmos direitos. Já Diane – que chegou a ser colocada para fora de casa quando se revelou mulher trans – afirma que dará uma educação com muito amor e longe das expectativas.

“Não vamos lhe impor nada. Se nosso filho quiser ser ateu, padre, homossexual, heterossexual, engenheiro, hippie, isso vai ser uma questão dele ou dela, desde que seja feliz”, frisou.

Por meio da história de amor, da família linda que constituíram e dos discursos conscientes, eles conseguem sensibilizar e mostrar que são exemplos de pai e mãe de verdade. Pai e mãe preocupados com o mais importante: a saúde, o bem-estar, o acolhimento e a felicidade de seu filho.






About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

Essa é uma história linda, um exemplo a ser dado para esse mundo.

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