Entrevista

Claudia Celeste é homenageada e defende que papeis trans devem ser de atrizes trans


Por Neto Lucon (20/10/2016)

A artista Claudia Celeste, que é a primeira travesti a estrelar novelas no Brasil e sobretudo estrela de vários espetáculos musicais, foi homenageada nessa quarta-feira (19) na abertura do Festival TransArte, que ocorre no Centro Cultural Calouste Gulbekian e aborda questões de gênero.

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Na fala, Claudia agradeceu a todas as pessoas que lembram dos espetáculos de travestis desde os anos 60. E que é gratificante receber uma homenagem, porque naquela época não se esperava ter o talento reconhecido e lembrado depois de algumas décadas.

“A gente fez um trabalho sem esperar nada. A gente queria trabalhar, a gente queria fazer, queria dar pinta e participar. Não imaginávamos que passaria esses anos e as pessoas lembrassem do nosso trabalho. Isso é muito gratificante para nós artistas que passamos e que não passamos, porque estamos vivas e fazemos os nossos shows”.

Ela também pediu para que o público, ao saber de espetáculos das grandes divas e veteranas, que compareçam. “É um estilo de espetáculo brasileiro que agrada a todos”.



Em conversa com o NLUCON, a artista destacou que foi “um momento lindo e mágico para ela” receber o prêmio. “Saber que toda uma vida de trabalho, com paixão como eu tenho pelos espetáculos e shows, tiveram um reconhecimento para esta nova geração me enchem de orgulho a cada dia que passa. Me sinto uma das “mamãe-trans” para esses jovens”.

Vale ressaltar que a atriz é carioca e esteve em 1977 na novela Espelho Mágico, da TV Globo, tendo sofrido com a repressão. Em 1988 na novela “Olho por Olho”, da TV Manchete, em que teve uma personagem fixa do início ao fim. E que, multifacetada, também fez carreira na música (como cantora de rock e bossa nova), em concursos de miss, no cinema (em filmes como Beijo Na Boca, Motel e Filhos da noite) e, sobretudo, nos espetáculos de travestis, que estreou em 1973 com o "Mundo é das Bonecas" e que é sucesso até hoje.

Confira um bate-papo exclusivo com a estrela:

- Claudia, como é para você chegar aos 65 anos?

Graças a esta mentalidade jovem desta geração maravilhosa, me sinto muitíssimo bem aos 65 anos. E creio que ficará melhor ainda com o reconhecimento destes jovens à sua história cultural.

- Sendo a primeira travesti a estrelar novelas, o que está achando dessa nova geração de artistas trans?
Claudia Celeste e a atriz Dandara Vital:
"Será uma diva com muita história"

Só posso sentir um grande orgulho em ver essas meninas irem em frente. Com a mente mais livre para, enfim, realizar seus sonhos individuais e serem felizes. Com menos preconceitos escondidos nos armários da vida. No dia do prêmio, a Dandara Vital apresentou a peça “Dandara através do espelho” e ela é uma atriz excelente. Será uma diva que terá muita história para contar.

- O que você acha dessa vontade da militância em pedir que personagens trans sejam feitos por artistas trans, uma vez que carecemos de representatividade?

Acho que deveria ser como aconteceu na novela da Manchete “Olho Por Olho” (em que fui escalada). O dramaturgo José Louzeiro fez questão de que o papel que ele tinha escrito de uma trans fosse interpretado por uma atriz trans. Daí, pois-se em teste. E mais de duzentas candidatas na época foram postas à prova. Até chegar em mim foi uma longa história e muito bacana para mim. Daí que surgiu a Dinorah (personagem que Claudia estrelou de ponta a ponta na trama e que fez sucesso com o público). E acho que deveria sempre continuar assim.



- Tem gente que diz que o ator e atriz deve interpretar qualquer personagem. E que dizer que artistas trans devem interpretar personagens trans é limitar a arte.

Não é o que vemos. Vemos diversos atores fazendo o papel (trans), que acredito que sempre cai na caricatura. E de atrizes – mulheres que não são trans – que não passaram a verdade da personagem. E quase não vemos atrizes trans em nenhum papel. Infelizmente isso é motivado pelo preconceito e o medo do próprio meio artístico, que se diz ‘cabeça-abertamente-livre’. Pois, sim, é importante a representatividade.

- Na última entrevista, você disse que preferia os palcos às novelas. Se surgisse um convite para estrelar uma novela hoje, você rejeitaria?

Claro que não! Disse aquilo antes, por acreditar que sempre vão inventar uma desculpa para não contratar uma trans. O medo ainda é muito grande de que a população em geral vá adorar as ‘Bibas’ – como acontecia com os espetáculos de travestis nos anos 60, 70 e 80.

- Você está no documentário recém-lançado "Divinas Divas", da Leandra Leal?

Não estou, infelizmente, pois são muitas ‘divas’ que não poderiam caber no documentário. Mas fiquei feliz em poder saber que também fiz parte de tudo e já me senti homenageada pela obra maravilhosa da Leandra, que é neta de Américo Leal – dono do Teatro Rival na épica – e que foi o meu padrinho. Américo foi o produtor do meu primeiro espetáculo, em 1973, O mundo é das Bonecas. Agradecemos muito à família leal, que sempre incentivou e, sem o menor preconceito, principalmente numa época tão difícil, a expressarmos a nossa arte.




- Sei que você não para. Atualmente, quais são os seus projetos artísticos?

Estou numa batalha para conseguir lançar o projeto de uma comédia musical. E o livro que escrevi em parceria com a Suzy Parker, contando toda a história dos espetáculos de travestis no Rio desde 1964 – como Les Girls – até os anos 80 no Teatro Alaska, quando se considera o final do glamour destes espetáculos que tanto fizerma sucesso na época de ouro das travestis e trans em teatros e casas de show.

- Esse livro é o máximo. O que falta para ser lançado? 

Precisamos de uma editora que abrace a nossa causa e torne realidade este livro, que temos pesquisado há mais de quatro anos com material organizado em fotos e reportagens da época.

- Claudia, o que achou das declarações atuais de Rogéria, “de que travestis tem que ter inteligência para entender que não são mulheres”?

A Rogéria tem um pensamento diferente por ser formada em uma época muito difícil. E como ela conseguiu ficar famosa – pelo seu talento, of course – está numa situação cômoda e bem resolvida para o seu íntimo. E talvez use sempre aquele velho ‘chavão’ que fez da carreira dela, uma fama como obtém até hoje. E mudar isso pode ser um problema muito grande para ela. Não creio que ela fale por mal, mas a falta de se enturmar nas novas regras do jogo de hoje, a leva a uma polêmica. Mas devemos levar em conta do trabalho que ela fez e representou um lado bom, que contribuiu para a nossa evolução.

- Claudia, amamos você!


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

Quero agradecer ao Neto Lukon mais uma vez, pelo carinho e atenção para com a minha pessoa e o meu trabalho... E por me fazer ter a coragem de recomeçar tudo agora, de novo!... A matéria está linda!... Valeu!....

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