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Encontro com Fátima Bernardes dá necessária voz aos homens trans; saiba o que rolou



Por Neto Lucon

O programa “Encontro com Fátima Bernardes” (TV Globo) abordou na manhã dessa quinta-feira (20) a vida, os desafios e discursos dos homens trans. Ou seja, das pessoas que foram designadas mulheres ao nascer, mas que se identificam com o gênero masculino e que são homens.


No palco, os universitários Thomaz Oliveira, de 22 anos, e Diogo Almeida, de 20, puderam falar as suas vivências trans. Eles destacaram que, quanto mais a mídia abordar o assunto, mais pessoas terão contato com o tema e poderão encontrar explicação, conforto e referências para suas questões de gênero.

“De forma geral, não se fala muito sobre as identidades trans. Fala-se muito sobre sexualidade. Então, como a sexualidade é uma coisa que a gente vê primeiro, as pessoas acabam seguindo neste caminho e se empenham como pessoa lésbica, gay. Mas conforme a informação (sobre pessoas trans e identidade de gênero) vai chegando, a gente começa a se entender e aquela sensação de desajuste que sempre esteve ali vai diminuindo. A gente vê que não está sozinho, que há outra pessoa como nós”, afirma Thomaz.

Diogo destacou que a invisibilidade ocorre porque a sociedade vê a questão trans como algo vergonhosa e faz de tudo para escondê-la. E que, após o entendimento do que se é, o contato com as pessoas e a sensibilização é outra questão a ser enfrentada. Ele disse que no início foi um complicado lidar com a família, mas que aos pouco as coisas se ajeitaram.

O irmão dele, por exemplo, após se formar em direito, foi o responsável pela ação judicial que retificou sua documentação. Já a mãe Débora foi a responsável pelo apoio, amor e incentivo. 
“A minha mãe foi o pilar no sentido de família. Ela é a pessoa mais importante da minha vida”, declarou Diogo, emocionando a mãe que estava na plateia (e todos os telespectadores).





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Em conversa com Fátima, Débora disse: “No começo é difícil, mas a gente vai eliminando etapas. O amor que a gente tem pelo filho vence todas as barreiras, é só isso”.

MARCELO TAS E O FILHO LUC

O apresentador Marcelo Tas também esteve presente e falou sobre o relacionamento com o filho Luc, que também revelou ser um homem trans em 2012. Ele afirmou que procura lidar com todas as questões da transgeneridade de maneira bastante natural, apesar de admitir que no início foi difícil se acostumar com a realidade. Tanto fez um paralelo com a transição que as pessoas trans passam, dada as devidas proporções, com as muitas transições que qualquer pessoa passa.

“Eu gosto de olhar para isso de um jeito mais corriqueiro. Esse resumo de ser quem a gente é, é uma questão de todos nós. A gente busca descobrir quem somos nós e essa é uma viagem que não tem fim. O meu nome (de registro) não é Marcelo Tas, é Marcelo Tristão Athayde de Souza. e ao longo eu fui descobrindo quem é esse cara chamado Marcelo Tas. A transição a gente passa em vários momentos. A adolescência, o casamento, o fim de um casamento, são transições que todos passam. Mas preciso dizer que essa transição das pessoas trans é uma das mais difíceis que existem”.

Dentre as dificuldades, Tas destaca a ignorância, o preconceito e, por sua vez, a violência. “Tenho vergonha de viver em um país que é campeão em assassinato de pessoas transgêneras. Precisamos olhar para essa realidade dura e falar de maneira aberta”, defendeu.



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O filho Luc, que é advogado e mora nos EUA, gravou uma mensagem ao pai e agradeceu o apoio: “Quero reiterar o meu amor, a minha gratidão, o meu carinho e o meu afeto por você e pela manhã. Pela maneira como vocês me acolheram de verdade, por nunca me deixarem duvidar do amor incondicional de vocês, que disseram que estavam do meu lado e que iriam me apoiar. Por vocês me verem como eu sou”.

OUTRA FAMÍLIA FELIZ

O programa exibiu ainda um vídeo contando a história de Christian, um adolescente trans de 15 anos que revelou para a família que é trans há um ano, em Brasília. No relato, ele afirma que antes de revelar a transgeneridade não se sentia feliz por não se reconhecer em frente ao espelho e não conseguir desenvolver laços interpessoais. “Foi um tempo muito conturbado”.

“Eu sabia que alguma coisa estava errada, mas não sabia o que estava errado. Sabia que aquilo lá não era eu, que nunca seria eu (...) Nunca me encaixei com as meninas e nem com os meninos. Depois que mudei de colégio, adquiri certos conceitos e falei: ‘acho que tenho que contar para os meus pais”, lembrou.

Os pais já percebiam as diferenças daquele garoto, que desde a infância rejeitava as roupas consideradas femininas e sempre optava pelas consideradas masculinas. “Até que um dia eu sabia que precisava contar. Fui lá e falei: ‘Pai, meu nome é Christian, vocês nunca tiveram uma filha, é um filho. Eu realmente espero que vocês possam aceitar isso”.


Para a surpresa do garoto, o pai não teve reação positiva ou negativa. Apenas disse: “tá bom, meu filho”. E um peso imenso saiu das costas dele.

A revelação há um ano aproximou a família, uma vez que todos sabiam que teriam que enfrentar alguns preconceitos. A mãe só teme para que o mundo “transfóbico e maldoso” faça o filho sofrer. Mas Christian frisa que desde que pode ser realmente que ele é, sofrimento é uma palavra que tem aparecido poucas vezes. “Agora eu sou de fato feliz, coisa que eu não conseguia ser”.


FÁTIMA SURPRESA

No programa, Thomaz declarou que não fez a retificação dos documentos, que faz uso apenas do nome social e frisou necessidade da aprovação da PL 5002/2013 – João Nery – que visa facilitar a retificação de nome e gênero da documentação, sem a necessidade de laudos, ação judicial ou aprovação do juiz. Tas lembrou que o projeto é inspirado na lei aprovada na Argentina e que o Brasil está atrasado.

Já Diogo lembrou que muitas pessoas fazem perguntas invasivas e desrespeitosas para pessoas trans. E, como dica, pediu para que todas elas se colocassem no lugar de uma pessoa trans antes de proferir uma pergunta – com a clássica “qual é o seu nome de verdade?”. “Ela não se imagina no seu lugar. Não pensa que, se a pessoa passou pela transição, passou por um processo judicial para mudar um nome, ela não quer lembrar daquele nome. Então, porque você vai perguntar sobre aquele nome? Falta a pessoa parar, pensar um pouco e se colocar no lugar”.

Com tantos relatos pessoais ricos e sensibilizadores, Fátima Bernardes declarou ter ficado surpresa com o discernimento e produção de conhecimento dos garotos trans sobre o tema. "Ele estudam muito", disse. De modo que a vivência e os relatos contribuíram muito mais que as tradicionais explicações médicas e técnicas, comumente utilizadas ao debater o tema.

No caso, o psiquiatra Alexandre Saadeh contribuiu com a explicação de que a transgeneridade pode ter origem biológica – desde o desenvolvimento do feto – e reforçou a importância da visibilidade do tema, que tem feito muitos jovens trans que se sentiam sozinhos a procurar ajuda.



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Antes de encerrar o assunto, a apresentadora declarou que pretende abordar novamente a pauta trans em outro momento, sobretudo falando sobre a importância do respeito ao nome. Que haja mesmo novos encontros respeitosos e informativos acerca da transgeneridade e transexualidade.

E que a produção se atente em colocar essas pessoas no sofá, como fez neste caso, diferente do que aconteceu em outros momentos, em que incluíram as pessoas trans na plateia e deram como "fonte oficial" o especialista no sofá. O protagonismo, como podemos ver, sensibiliza, é importante e transformador. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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