Pride

Especialista Kate Greenberg desvenda três mitos sobre a saúde de pessoas trans


Por Neto Lucon
Tradução: Mayane Lins

A adolescência pode ser uma fase traumatizante e o início de grandes disforias para grande parte da população trans - travestis, mulheres transexuais, homens trans, n-b. Tudo porque é nessa fase em que se inicia a puberdade e caracteres secundários socialmente atrelados aos gêneros começam a se desenvolver.

Não é por acaso que, de acordo com um estudo de 2015 publicado pelo Journal of Adolexcent Health, crianças e adolescentes trans sofrem muito, merecem atenção especializada e estão mais propensos a terem problemas psicológicos do que outros da mesma idade, incluindo automutilação e tendências suicidas.

“Crescer num mundo onde a aparência exterior e a identidade são tão atreladas pode ser difícil e profissionais de saúde estão trabalhando para auxiliar pessoas transgêneras a alcaçarem o corpo que elas se enxergam por dentro”, declarou a Dra. Kate Greenberg, que é diretora da Clínica de Saúde de Gênero na Universidade Rochester Medical Center.

Mas o que médicos especialistas podem e devem fazer para esta população nesta fase?

Por meio da rede social Reddit, Kate falou sobre sua experiência com trans adolescentes que não puderam ter tratamento mais cedo. Respondeu perguntas dos usuários e desmistificou muitos mitos sobre esta fase. O texto foi reproduzido pelo site norte-americano Fusion e foi traduzido pela tradutora brasileira Mayane Lins.

Um usuário perguntou: “Não é anti-ético usar tratamentos para bloquear a puberdade tão cedo em pacientes pré-adolescentes? Os pacientes não deveriam ter idade pra decidir, do mesmo jeito que é feito para várias outras mudanças no corpo, como tatuagens, piercings, etc..?

A resposta foi, basicamente, "não". “A visão que eu tento mostrar aos pais dos meus pacientes, estando eles permitindo que seus filhos escolham ou não, é que negar o tratamento que está disponível não é uma opção saudável”. “Pra mim, seria antiético negar tratamento para uma criança a qual a ideia de passar pela puberdade é terrível e torná-la suscetível a aumentar ainda mais sua angústia. Para jovens que se enxergam como homens, a ideia de crescer seios e menstruar é muito angustiante, e igualmente para moças trans, a ideia de ter barba, ter voz grossa e ser alta, isso não é uma opção saudável. Ter uma criança que não está em harmonia com seu gênero passando pela puberdade também as sentencia a efeitos irreversíveis... Não existe nenhum tratamento padrão que permita uma trans que começou a transição depois da puberdade a mudar sua voz para um timbre mais feminino e para um homem trans se livrar dos seios dele. Ele precisa fazer uma cirurgia.

(Obs: No Brasil, apesar de especialistas indicarem a importância do bloqueador hormonal na pré-adolescencia, o uso não é permitido de maneira legal. O que é feito é um acompanhamento psicológico até que se atinja os 16 anos, fase em que a puberdade já mostrou seus efeitos no corpo ).

Outro usuário perguntou se preocupava por haver “alguma criança que esteja só passando por uma fase e possa se arrepender futuramente da decisão de ter transicionado”?

Ela respondeu: “Os pacientes mais novos que vemos no tratamento são aqueles que estão perto ou já iniciaram a puberdade. Nós oferecemos bloqueio da puberdade, o que é totalmente reversível e muito seguro. Entre bloquear a puberdade biológica tendo certeza que isso não é uma fase e a criança está pronta pra seguir em frente com a terapia hormonal dela, existe muito trabalho sendo feito com a criança, família, etc.... para termos certeza que essa é a escolha certa”

Greenberg também respondeu perguntas de outros médicos que querem melhorar seu trabalho com seus pacientes trans. Ela explicou que cada paciente transgênero necessita de diferentes tipos de tratamento, dependendo do estágio da transição deles. Um estudante de medicina perguntou: “Se uma pessoa trans se submeter a uma cirurgia de readequação, vamos supor de masculino para feminino, elas vão ter que ir ao ginecologista para cuidar da saúde?

Ela respondeu que “pacientes trans precisam de tratamento especializado para trans, como hormônios ou cirurgias, mas também precisam de tratamentos primários baseados na anatomia deles.” “Quando converso com pacientes, eu costumo pedir uma “lista de cirurgias” que eu denomino como “preciso saber quais cirurgias você fez para eu saber quais partes do corpo você tem. Meu trabalho é saber se essas partes estão sendo bem cuidadas também. Então um homem trans que não realizou a histerectomia vai precisar fazer o exame de diagnóstico de câncer do colo do útero igual a recomendação no tratamento padrão para mulheres cisgêneras. Uma mulher trans que fez vaginoplastia não vai precisar fazer o Teste de Papanicolau, mas vai precisar fazer exame de mama igual a uma mulher cisgênera. Mulheres trans sempre terão próstata, a não ser que faça cirurgia, então elas terão que fazer exames nessa parte. E homens trans que fizeram mastectomia ainda precisam fazer exames de mama e se tiver um histórico significante na família de câncer de mama, ele pode precisar de um exame mais aprofundado".

Com estas e outras respostas, Kate ajudou a desvendar alguns mitos envolvendo a saúde de pessoas trans. E as preocupações nem sempre bem intencionadas. Aqui, ela mostra que a principal preocupação deve ser a saúde física e psíquica da pessoa trans em todas as fases de sua vida; nunca o preconceito. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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