Pop e Art

Frases transfóbicas de diretor brasileiro desmascaram hipocrisia que ronda as artes



.
Por Neto Lucon

Atrizes e atores trans raramente tem representatividade em novelas, filmes, séries, seriados, musiciais e outros espaços artísticos. Um reflexo da sociedade transfóbica que não dá oportunidade de emprego para tais pessoas em qualquer área. Porém quando existe essa cobrança – sobretudo quando pedem para que PELO MENOS personagens trans sejam feitos por artistas trans – a maré de desculpas surge.

“Mas não temos atrizes trans capacitadas”, “existe atriz trans?”, “o ator deveria fazer qualquer personagem”, “isso é querer privilégio”, “o importante é falar sobre o assunto, não importa quem faça o papel”, “não encontramos nenhuma”, “colocaram o galã para dar visibilidade”, “vocês reclamam de tudo”, “Rogéria sempre aparece”, “aos poucos vocês conseguem”, "É preconceito ao contrário", "seria o mesmo que escalar serial killer para um papel de serial killer”.

Pois bem... Se antes a transfobia era coberta, camuflada e quase escondida por um véu de várias desculpas e justificativas - muitas até plausíveis, mas não menos hipócritas - esse véu caiu na última semana com declarações do premiado diretor Claudio Botelho, responsável por grandes musicais no Brasil ao lado de Charles Möeller. Ele evidenciou o que está por detrás de cada desculpa por não vermos tais artistas em tais espaços. E, sim, falamos de transfobia.

Inicialmente Botelho teve a intenção de criticar a escalação de Laverne Cox – uma atriz trans norte-americana – como protagonista do remake do clássico de The Rocky Horror Picture Show, da Fox. Mas acabou mostrando a sua opinião transfóbica sobre a própria existência de travestis e mulheres transexuais e a luta por representatividade dessa população em tais produções.

LAVERME E FALTA DE SURRA

Nos comentários, o diretor chamava Laverne de LaVERME, disse que essa mobilização era falta de “surra” e que “essa coisa"  está "propagando porque os pais não batem mais nos filhos”.

“Só que se um pai vai e bate numa LaverME dessas, vem uma entidade de direito de bichas e diz que ela é uma alma de mulher presa num corpo de homem? Heinnn? E eu que sou uma alma de loiro e olho azul perdido num corpo de mineiro do interior há cinquenta anos e ninguém me defendeu de nada?”, mimizou.

Botelho diz que, quando o pai bate em pessoas trans elas sabem que “é errado” (em ser trans) e “vão dar pro amiguinho da escola para se vingar”. Ou seja, “se dedicam a arrumar homem e param de querer holofote”. Ele ainda diz que as únicas que merecem oportunidade nas artes é Judy, Barbra e Rogéria, salientando que “o resto é bicha drogada de festa rave”.

O diretor ainda ironizou: “Na Disney tem essas trans também? Eles vão refilmar ‘A Branca de Neve?’ Eu queria sugerir um garoto aqui do meu prédio que é bicha, mas a mãe acha que pega mal, então estão inventando que ele é trans, porque diz que é a mesma coisa que bicha, mas é chique”.


Ou seja, desinformação sobre identidade de gênero, ódio contra essas pessoas trans e muito, muito, muito close errado. 

Posteriormente, ele pediu desculpas, disse que estava apenas “brincando”, que não queria ferir ninguém, colocou a própria orientação sexual como alibi, que o texto foi tirado do contexto e que sua opinião foi apenas para defender que não achou “adequado” a escalação de um ator (sic) transexual para o papel principal do show”. E apagou o seu perfil nas redes sociais.

SEM O VÉU

Embora as frases recheadas de transfobia tenham deixado muita gente inconformada, elas apenas mostraram o que está por trás daquele famoso “acabamos de preencher a vaga, fica para a próxima”, “não temos preconceito, mas agora não”, “assim que pintar a gente te chama”, “vamos colocar você em volta da atriz cis fazendo trans, ok?”, "protagonista é demais". E daquele sorriso que quase nunca representa oportunidade.

Desmascaram a falácia de que as artes, artistas, diretores e agitadores culturais acolhem melhor as travestis, mulheres transexuais e homens trans. E que não há transfobia nesses espaços. Não é por acaso que tantas atrizes trans se metem a criar textos, dirigir e bancar as suas próprias produções. Em muitos casos, a única
 diferença de Botelho e outros é que ele falou e foi flagrado em sua transfobia.  

As frases evidenciam a desinformação do que seja uma pessoa trans. A falta de sensibilidade a esta população. E o lugar em que esperam e querem legitimar a travesti ou transexual: drogada, na balada, procurando homem e apanhando, como sugeriu o diretor. Ou então na prostituição. Como curiosamente Botelho colocou Rogéria no musical Sete, que reconta a história de Branca de Neve. No espetáculo, que eu assisti juntamente com Claudia Wonder em 2007, Rogéria encarna uma cafetina chamada Odete. 

Vale ressaltar que a Rogéria ainda tem suas participações especiais – e nunca uma novela inteira, reparem – justamente porque se firmou e se firma constantemente nesse lugar em que a sociedade a coloca. Embora seja extremamente talentosa (com direito a prêmio Mambembe em 1979), os holofotes midiáticos giram nas frases de que é homem, quando se volta contra as trans e as chamam de loucas ou burras, ou quando serve de peça humorística em programas de TV.

Para ser a travesti da família brasileira, Rogéria tem que abrir mão de ser travesti, porque as "senhorinhas não gostam" - palavras da mesma.




.
A GENERALIZAÇÃO TRANSFÓBICA

Outra questão é que, se Botelho não gostou de Laverne na produção, isso não deveria ser utilizado como pretexto para generalizar todas as demais atrizes e atores trans. Como se nenhuma outra atriz pudesse se dar bem no papel. E como se na arte - aí rola uma retórica - a identidade de gênero fosse importante para os papeis.

Ou seja, quando uma atriz cis não vai bem em uma personagem, a crítica é sobre a atuação dela, e não se estende a todas as atrizes cis. Então, porque quando uma atriz trans não atende as expectativas em específico todas as demais devem ser penalizadas? Sim, é transfobia.

Agora, tente redimensionar todas as críticas que o diretor fez a Laverne para as atrizes cis. E veja se dá para considerar mera "opinião" ou "brincadeira". Mas como nada é fácil na vida de uma mulher trans, Laverne deve estar ficando calejada (relembre o que esteve por trás da capa dela na revista Time clicando aqui).

Quanto ao The Rock Horror Picture Show, o remake pode ser alvo de várias críticas – está parecendo um episódio de Glee, teve ideia erradas como a de envolver o teatro, faltou a pegada do original – mas em nenhuma delas pode-se duvidar do talento de Laverne como protagonista. Cantou, dançou, atuou e mostrou com maestria o humor ácido, debochado e renovado da Dra. Frank-N-Furter. E está muito além de vários artistas cis que apareceram em obras dos diretores em questão.




DESCONHECIMENTO TRANSFÓBICO

As fases de Botelho e as comuns desculpas que escutamos mostram sobretudo o quanto há de desconhecimento, ignorância e falta de sensibilidade em torno de artistas trans no Brasil e no mundo. Afinal, não é porque você não conhece que estas pessoas não existem.

Posso dizer que em uma recente pesquisa do NLUCON, listei mais de 70 artistas com A maiúsculo, que são travestis, mulheres transexuais e homens trans somente no Brasil. 
Pessoas talentosas, com muita energia, experiência, aplausos no teatro e vontade de trabalhar. E que certamente arrasariam se tivessem oportunidade.

Afinal, são pessoas que poderiam contribuir nas grandes mídias e espetáculos com suas aptidões, vocações e talentos, se não fosse a intolerância direta, como a do diretor em questão, ou a intolerância mascarada pelas justificativas e desculpas, como a de todos os demais.

Fiquem agora com Laverne Cox:


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Valéria houston disse...

Perfeito Neto!

Kolesterol disse...

Sua pagina é foda,cara.Continue assim!

Tecnologia do Blogger.