Entrevista

“Justin Bieber foi referência de como eu queria ser”, diz Téhh Queiroz


Por Neto Lucon (19/10/2016)

No concurso “100% Justin Bieber” que promete encontrar o brasileiro que mais se parece com o cantor canadense, o universitário campineiro Téhh Queiroz, de 22 anos, desponta como um dos favoritos.


Bonito, simpático e talentoso, o sósia e performer venceu com muitos gritos a primeira eliminatória do Programa Raul Gil, do SBT, e tem se dedicado para a segunda apresentação. O prêmio é de 10 mil em barras de ouro.

Durante a primeira aparição na TV, muita gente comemorou a vitória. Mas apontou o fato de Raul ter tratado Téhh – que é um homem trans não-binário - com pronomes femininos. E de chamá-lo de garota, desrespeitando a identidade de gênero dele.

Em conversa exclusiva com o NLUCON, o performer fala sobre a polêmica, os próximos passos, novas tatuagens (idênticas ao do artista homenageado). E também revela o que chama tanta atenção em Justin Bieber, que o fez se inscrever no concurso. Saiba:

- O que te motivou a se inscrever no concurso “100% Justin Bieber”?

Sempre gostei muito do Justin Bieber e, pesquisando na internet coisas sobre ele, encontrei a inscrição para o Raul Gil. Como sempre fui muito fã dele e como lá dizia que não precisava saber cantar, apenas dançar, achei que pudesse ser legal tentar participar. Mas sinceramente nunca imaginei que seria chamado.


- Foi rápido entre a inscrição e a gravação o programa?

Pediram para enviar uma foto e um vídeo logo de cara. Em uma semana mandaram um e-mail pedindo mais fotos e um vídeo dançando alguma música. Mandei e me chamaram. Nem acreditei (risos). Daí perguntaram qual música eu queria apresentar e enviaram a música em anexo oficial para eu treinar. Três dias antes da gravação enviaram a foto ao qual eles iam me comparar com o Justin no programa.

- Você mudou alguma coisa no seu visual para participar do programa?

Sim, eu descolori o cabelo. Porque na foto que me mandaram, o cabelo dele estava suuuper claro, loiríssimo, quase branco. Apesar de ele estar de boné, dava para ver nitidamente. Então descolori para ficar parecido. Depois do primeiro programa, fiz a minha segunda tatuagem igual à dele. Eu já queria fazer faz tempo, mas agora tenho mais um motivo (risos). Tenho a do pescoço escrito Patience e o cruxifico no peito.

- O que faz você admirar tanto o Justin?

Acompanho a carreira dele desde o início. Eu era novo, mas sempre gostei muito do estilo dele, sempre achei ele muito bonito, muito estiloso e com uma voz incrível. Na época em que comecei a acompanhar, nem sabia que era homem trans na realidade. Mas sempre tomei ele como referência de como eu queria ser. E, além de tudo isso, ele tem a mesma idade e o mesmo signo que eu. Não sei se é por esse motivo, mas me identifico com as letras da música dele. Passo horas e horas escutando e não canso. Elas me acalmam e me motivam. Não sei muito a respeito dele como pessoa, porque não o conheço, mas a forma que ele aparenta ser foi referência para mim. E as músicas dele sempre me fizeram bem. Acabei me tornado fã.



- Você está ligado do que ele aprontou aqui no Brasil e do que falou dos fãs brasileiros, né? (Em 2013, Justin Bieber chegou a dizer que os brasileiros eram os piores fãs do mundo).


Bem, ele é uma referência para mim fisicamente. Tenho duas tattos iguais à dele, tento manter o cabelo parecido, o estilo de roupa. E o jeito como ele põe para fora os sentimentos nas músicas, me faz identificar demais. Por outro lado, sei que ele já aprontou diversas coisas... Não acho legal. Mas acredito que, como qualquer ser humano, ele pode errar e consertar. E espero que conserte, porque não é legal isso. Não espelho nessas coisas. Mas também tenho certeza de que ele sofre muita pressão no trabalho dele. Essa carreira não é fácil, ele já teve problemas psicológicos, já entrou em depressão, tomou remédios para melhorar isso. E isso com certeza acaba acarretando em comportamentos do tipo. Mas isso não tem que ser motivo, né? O que posso falar é que me inspiro no estilo e nele como artista. Como pessoa, não o conheço e não posso dizer muito.

- Como foi aparecer na TV num concurso em que te coloca como alguém parecido com o seu ídolo?

Nunca tinha participado de nada em rede nacional. Fiquei muito nervoso, nem dormia mais (risos). Só pensava nisso e fiquei muito preocupado com o que aconteceria. Ensaiei todos os dias até o dia do programa para, caso desse branco, saísse no automático tudo (risos). No dia, eu estava com medo, mas chegando lá a produção me deu todo o apoio, explicou tudo como seria e eu me acalmei. De manhã fizemos o ensaio no palco, podia treinar e tal. Foi bom, porque na hora da apresentação estava bem menos nervoso. Quer dizer, a adrenalina estava a mil, mas consegui me acalmar. Fiz tudo como planejei fazer. Só não esperava ganhar aquele dia.

- Como não? A plateia ficou louca com você...

Foi uma sensação inexplicável, de verdade. Tipo, eu olhava para o público e percebi o quanto estavam curtindo a música, a apresentação, como eu estava aparentando e tal. Poder representar o Justin Bieber em rede nacional, ganhar essa oportunidade e ter essa experiência, é algo inexplicável. Quando ganhei foi, tipo, “sério?”. Não tinha pensado nessa possibilidade de poder participar de novo e de terem realmente gostado. Foi muito emocionante. Queria poder ter aquela sensação diversas vezes.

- Você se identifica como homem trans?

Sim, sou um homem trans. Em setembro de 2015 fiz a mastectomia e um mês depois comecei o tratamento hormonal. Hoje faz um ano e um mês de tudo isso.

- Muita gente comentou o fato de o Raul Gil ter te tratado com pronomes femininos e te chamar de ‘garota’. Foi algo que te incomodou?

Sou homem trans, porém não me importo com a binaridade (de gênero). Isto é, apesar de não me sentir confortável com o corpo feminino, quanto ao gênero sou não-binário (não se reconhece em nenhum dos estereótipos de gênero correntes nos discursos dominantes). Isso não me deixa mal nem nada, mas às vezes sinto desconfortável por isso não me representar. E principalmente por pensar que as pessoas não vão entender o não-binarismo, uma vez que não entendem nem os homens trans binários. Só que acho acho que deveria ser enfatizado o fato de ser HOMEM trans. Usarem o gênero feminino não é a mesma coisa de me chamar de mulher, entende? Mas acredito que isso seja difícil de entenderem.


- Houve alguma conversa prévia com a produção sobre a questão trans?

A galera da produção foi muito gente boa, muito profissionais. De primeira já perguntaram qual pronome deveriam usar, o nome... E em todos os e-mails e durante o programa me chamara de Téhh, como eu pedi. Quanto ao gênero, eu disse que não me importava. Achei muito legal eles se preocuparem em perguntar e tal.

- Durante a sua apresentação, o Raul chegou a puxar algumas vezes o assunto trans, mas você não verbalizou nada. Pretende falar sobre a questão em algum momento ou acha que apenas a sua presença já é uma bandeira levantada?

Eu estava com muita vergonha ainda. Se eu conseguisse me acalmar, queria poder falar sim. Mas na hora eu fiquei nervoso com as perguntas. Respondi o mínimo possível para que eu não me atrapalhasse com as respostas por causa do nervoso. Mas quando eu for eliminado, vou tentar falar algo sim. Agradecendo a oportunidade e parabenizar por terem perguntado logo que cheguei qual pronome usarem. E o quanto isso é importante para os homens trans.

- Já sabe quais serão os próximos passos no concurso?

Tenho mais cinco etapas pela frente ainda. Se eu for passando, tem mais cinco (risos). A última está prevista para dezembro.

- Estamos na torcida!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Fabih Araújo disse...

Ameii tudo sobre o téhh Queiroz !! E de verdade admiro e sempre terá meu apoio , e essa entrevista cada vez mais importante na vida dele , e vamos com tudo téhh Queiroz tou com você , sobre transsexual e uma orientação pra ser respeitada quantos as outras .. ksksksk bjs

Pt Andrade disse...

contraditório se dizer não binário, mas fazer mastectomia e tomar Hormonio
n binários n fazem mudanças assim

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