Pop e Art

Kezya Alexandre dá show de beleza e leva coroa do Miss Transex Niterói 2016




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Por Neto Lucon (18/10/2016)

Os concursos que prometem revelar belezas trans continuam pipocando pelo Brasil. E na terça-feira (11) ocorreu o Miss Transex Niterói 2016, no Clube Canto do Rio, que teve como premissa escolher as mulheres trans mais lindas do outro lado da poça. 

Recebendo a maior pontuação, a miss Kezya Alexandre Siqueira, de 26 anos, venceu nove candidatas e levou as cobiçadas faixa e a coroa da noite. Bruna Vidal e Bianca Ferrari ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente. Kimberly Costa foi a miss simpatia.

“A sensação de vencer foi maravilhosa. E também de dever cumprido, porque consegui reparar os erros que cometi no concurso de 2015. Tenho o sonho de ser miss desde criança e, para mim, é importante fazer parte da história de conquista no nosso meio transexual”, declarou a vencedora, que á natural de São Gonçalo, ao NLUCON.

Organizado por Larissa Dieckamann há sete anos, do grupo Transdiversidade Niterói, o concurso foi apresentado por Bruna Benevides, presidenta do Conselho Municipal LGBT, e a drag queen Eula Rochard. E contou com a apresentação artística de Marcinha do Corinto, uma das artistas trans que mais levaram títulos de beleza no Brasil.

Bruna: "Evento trabalha o resgate
da autoestima"
“O evento busca trabalhar o resgate da autoestima, o empoderamento através da beleza e traz visibilidade para a população de travestis e mulheres transexuais. É o dia em que meninas dos mais variados perfis de beleza e condições sociais podem sonhar em subir no palco e desfilar”, declara Bruna.

Agora, Kezya terá um ano de reinado, representando a beleza trans de Niterói e participando de eventos em prol da visibilidade trans e contra a transfobia. O NLUCON teve um bate-papo exclusivo com ela. Confira:

- Você disse que conseguiu reparar os erros do Miss Transex Niterói de 2015. O que aconteceu?

Ano passado foi o meu primeiro concurso e também foi quando iniciei nesse meio das misses. Fui convidada nos últimos dias de acontecer o evento e tudo era muito novo. Eu não sabia nem usar salto alto, por exemplo. No primeiro concurso, eu estava bem produzida, mas o andar na passarela estava péssimo. O vestido era lindo, mas pesava muito. Mesmo assim, fiquei em terceiro lugar.

- O que mudou neste ano?

Neste ano eu estava mais preparada e mais confiante. Tudo foi feito nos mínimos detalhes para mim, para o meu gosto, para a minha cara e personalidade: meiga e chique. Ou seja, consegui apresentar melhor quem eu sou e as minhas qualidades. Então, participar foi uma experiência maravilhosa e a sensação hoje é de dever cumprido. Conquistei o meu objetivo.

- Chegou a fazer algum procedimento estético?

Faço laser ligth, peeling químico e faço tratamento hormonal. De cirurgia, coloquei apenas a prótese de silicone nos seios, mais nada. Diariamente, faço vários tratamentos. Desde hidratações no começo, esfoliação no rosto, passo bons cremes de hidratação, faço as unhas... Enfim, essas coisas que as mulheres geralmente gostam. 





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- O que te motivou a participar de concursos de beleza?


É um sonho que tenho desde criança. Para mim, seria o reconhecimento como trans na sociedade, saber que faço parte dessa história de conquista no nosso meio transexual. Desde que me assumi como trans sempre fui muito notada, então pensei que pudesse participar do concurso e fazer bonito.

- Tem alguma inspiração de beleza? 

A minha maior inspiração é a minha mãe, que sigo admirando desde pequena. Tanto que quando resolvi participar do miss, eu quis mostrar para a minha família um pouco de orgulho, ser um ícone trans de beleza. É por isso que era um sonho para mim e o fato de eles estarem lá foi muito importante.

- Como é a situação da população de travestis e mulheres transexuais de Niterói? Rola muita transfobia ou as pessoas são acolhedoras?

Vou ser sincera. Depende muito do bairro e do espaço em que você frequenta. No centro, por exemplo, não sinto esse preconceito todo. Mas todos sabemos que ele existe. De qualquer forma, só procuro levar a minha vida normal, saindo, me divertindo, indo ao shopping, à praia, estando com minha família. Recebo muitos olhares, mas percebo que geralmente são de elogios ou assédios. Alguns julgam, mas quando as pessoas te conhecem de perto o conceito delas muda – e é para melhor. Observo que muitas trans se privam de contato, por medo de serem julgadas, de receberem piadas na praia ou em outros eventos durante o dia. É o medo de não estar dentro daquele padrão e ser discriminada.

- Você acha que a transfobia é mais forte para quem não corresponde a esses padrões de beleza?

Com certeza. Estamos numa sociedade onde a beleza infelizmente conta muito e acaba nos dando vantagens. Infelizmente porque acho que todas nós merecemos o mesmo respeito e igualdade perante a sociedade, independente de ser considerada bonita ou não. Sei que a relação de beleza não ocorre apenas no meio trans, mas realmente somos muito mais cobradas a ser praticamente perfeitas. Isso pode gerar sofrimento e preconceito em quem não está neste padrão.



- O que poderia falar em relação ao mercado de trabalho? 

Como eu te disse, a beleza abre portas, mas ainda assim é complicado para todas as trans. Ainda somos colocadas em alguns lugares estigmatizados, como profissionais da área da beleza e outras. Eu, por exemplo, sou cabeleireira, mas tenho que fazer outros tipos de trabalho para ter uma estabilidade financeira. O concurso tem esse propósito de mostrar a gente para a sociedade em outros lugares e dar visibilidade para a causa.

- Como lida com o assédio dos homens?

O assédio é demais, mas não acho nada demais. Observo que uns querem apenas aventuras de horas. Então, eu deleto todos (risos). Já fui casada três vezes e em toda a minha vida nunca tive problemas com homens. Sempre vivi uma vida de homem e mulher, normalmente: andar de mãos dadas, sair, viver a vida como qualquer outras pessoas... Hoje eu tenho namorado e meu namorado me compreende muito. E respeita todas as minhas decisões.

- O sonho de ser miss você já realizou. Agora, qual é o seu grande sonho?

Meu grande sonho é ter uma estabilidade financeira para toda vida. Penso em juntar dinheiro e adquirir imóveis para alugar. E também montar um restaurante para a minha mãe.

- Como será o seu reinado em Niterói?

No ano passado, cheguei a representar a cidade mesmo sendo a terceira colocada, com a faixa de Princesa Miss Transex Niterói 2015. Ia a eventos, fazia ações e estava disponível para que precisassem. Neste ano como miss vou carregar a faixa e a coroa mais uma vez, só que com muito mais orgulho. Quero fazer bonito. Espero que esse reinado seja exemplo para que as pessoas tirem da cabeça que essa faixa é só para tirar onda umas com as outras. Eu levo a sério, não quero ser melhor que ninguém, só quero representar o grupo com orgulho.



About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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