Entrevista

“Muitas de nós seremos eleitas”, diz Thifany Félix, travesti candidata à prefeitura


Por Neto Lucon
“Justiça e igualdade para todos” é o que diz Thifany Felix, candidata a prefeita de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, pelo PSOL. Aos 46 anos, Thifany é uma travesti ou mulher transexual (“tanto faz, desde que me respeitem”), a primeira a disputar o cargo na cidade.

Em todo o Brasil, apenas duas trans concorrem à prefeitura. Além de Thifany, Samara Braga disputa é candidata de Alagoinhas, Salvador, pelo PSOL (leia sobre ela aqui). Já vereadoras, há um verdadeiro e importante boom: são mais de 80 candidatas e candidatos trans (conheça todos aqui).

Participando de matérias locais e debates com outros políticos, Thifany faz história na cidade, enfrenta os críticos (que a acusam de não ter nascido em Caraguatatuba) e consegue sensibilizar a população. Mais que isso. Tem mostrado que travestis e mulheres transexuais são capacitadas e que merecem oportunidade – e o seu voto!

Abaixo, uma conversa com Thifany, cujo número é 50. Vamos lá!

- Quando você decidiu entrar para a vida política?

Foi quando me tiraram do trabalho de auxiliar de enfermagem do hospital de Ubatuba por ser uma transexual. Antes, quando eu era um gay afeminado, eles até me aceitavam, porque ainda poderia ser confundida como heterocisnormativo. Mas quando assumi a transexualidade, fui colocada para fora. Fiquei muito triste, porque foi como se tudo o que aprendi, como se todos os anos que estive trabalhando na área da saúde, não valessem mais nada. E eu percebi que tinha que entrar e brigar por todas essas questões. Porque aquilo que aconteceu comigo, mas também aconteceu com muita gente. E ainda hoje acontece, seja por qualquer razão.

- Daí você procurou se filiar a um partido...

Sim, inicialmente me filiei ao PT, quis sair como vereadora, mas fui boicotada. Daí me filiei ao PSB, fui indicada como deputada estadual na eleição passada, mas também existiu certo boicote ou descaso. Eu fui impugnada no meio do caminho e o partido não me comunicou para que eu pudesse entrar com recurso a tempo. Daí no PSOL deu tudo certo. Inicialmente eu vim para atender o pedido da população de Ubatuba para me candidatar a vereadora, mas fui convidada para prefeita de Caraguatatuba. Durante todo esse percurso, concorri ao cargo de conselheira tutelar em Ubatuba, fui secretária-geral do Fórum Municipal de travesti, mulher transexual e homem trans em São Paulo, participei da militância e sempre tive contato com a população, me atentando para os problemas que ocorrem nela e pensando em soluções.

- Como a cidade recebe a candidatura de uma mulher trans?

Quando recebi o convite, levei um susto. Achei que não fosse ser bem recebida. Tanto por não ser nata de Caraguá, tanto por vir de São Paulo quanto pela minha transexualidade. Acredito que pela maneira como me comporto, por saber entrar e sair de qualquer repartição e das entrevistas que dei, as pessoas entenderam que existe uma diferença em mim. E eu quero que elas aproveitem essa diferença.

- Como está sendo o contato direto com os eleitores?

As pessoas abraçam, pedem panfleto e até agora não fizeram nenhum tipo de piadinha. Estou conseguindo passar a mensagem de que dentro do LGBT existem pessoas especiais, que são comprometidas e que se dedicam a todos os segmentos, e não só ao LGBT. Teve uma senhora que disse que votaria em mim, pois sou uma candidata a prefeita mulher. Quando falei que era mulher transexual, ela disse: voto duas vezes. Estou conseguindo passar a mensagem de que somos seres humanos e de que merecemos uma oportunidade também.

- Nesse ano, tivemos um recorde de candidaturas trans. Por que você acha que isso aconteceu?

Estendemos a importância da representatividade e que temos que invadir o cenário político, se quisermos ter nossos direitos. Sempre disse que nunca vamos mudar a sociedade se não tivermos participação. Acredito que também depois que Luciana Genro nos defendeu no debate político nas eleições presidências, dizendo pela primeira vez a palavra “transfobia”, isso nos fortaleceu. Nos sentimos representadas, valorizadas e conseguimos nos reunir para debater e nos organizar. O PSOL, que é um partido que luta pela minoria e menos favorecidos, também se fortaleceu nos últimos anos e acabou abraçando muitas dessas candidaturas. E acredito que muitas de nós serão eleitas.

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- Você se inspira em algum(a) político (a)?

Entrei no PSOL inicialmente por ter gostado muito da Luciana Genro quando ela era candidata a presidente, e do Carlos Giannazi (deputado estadual) , que defende a educação. Mas fiquei um pouco decepcionada com a Luciana, por ela não ter enviado um vídeo apoiando a minha candidatura. Enfim, procuro pegar algumas coisas boas de todos os políticos e também escrever a minha própria história.

- Por que escolheu Caraguatatuba há um ano e meio?

Eu havia perdido o emprego em São Paulo e há um ano e meio quis voltar ao litoral. Inicialmente fui morar em Ubatuba, onde eu sairia candidata a vereadora, mas acabei vindo para Caraguá. Quando surgiu o convite do PSOL, achei ousado, mas resolvi sair pela luta pelos menos favorecidos e também para dar visibilidade aos LGBT. Mesmo sabendo que poderia ser mais fácil me eleger vereadora em Ubatuba, pensei na importância de termos uma transexual ou travesti como candidata a prefeita. E a mesmo tempo sei dos problemas da cidade e posso fazer muito por ela.

- Você acha que não ser natural de Caraguatatuba impede maior comprometimento com a cidade?

De forma alguma... Ubatuba é cidade vizinha de Caraguatatuba, nós fazemos parte do litoral norte paulista. Então eu sempre tive contato e sei que ela acaba sofrendo um pouco mais. Ela está no topo de uma das piores cidades no assunto segurança, por exemplo. Em Ubatuba temos uma Guarda Municipal, em Caraguá não temos e precisamos ter. Eu acredito que posso trazer para Caraguá um pouco da visão que tenho de Ubatuba, São Paulo, Santo André... As minhas propostas foram elaboradas em cima dessa vivência das cidades que passei. Algumas pessoas disseram que eu sou forasteira e que eu deixarei a cidade após as eleições terminarem. Bem, quero continuar na cidade e só sairei se não tiver oportunidade de emprego.

- É verdade que você chegou a sensibilizar um padre da igreja católica?

A igreja chamou os candidatos para uma missa de confraternização com os políticos de Caraguatatuba. Eu fui e, ao fim, distribuíram uma revistinha. Dentro dela, havia uma página chamada “Ideologia de gênero, não caia nesse conto”. Me senti muito constrangida e fui conversar com o padre. Ficamos debatendo por horas na frente das pessoas. Ele falou que a matéria saiu depois de uma demanda da sociedade, mas eu falei que a gente é que deveria ser procurada para falar com a sociedade. Pois como eles vão escrever sobre algo em que a pessoa envolvida não aparece para falar? Depois dessa conversa, o padre fez outras missas, falou o meu nome e focou na importância de a igreja acolher as pessoas, independente de quem sejam. Fez até um ato de inclusão. Depois, ele me ligou, perguntando se a gente poderia marcar uma reunião da igreja com a população LGBT.

No debate da Band: visibilidade aumentou
- Quais são as propostas que você trouxe para a cidade?

Assim como a maioria dos candidatos, foco na saúde, educação e segurança. Na saúde, ainda temos falhas com a medicação do munícipe, em que ele passa no local de atendimento, mas não há medicação para ele. E eu quero garantir isso. Também me preocupo as pessoas com a acessibilidade com as pessoas com deficiência física. Aqui, circulam ônibus que não tem condições de atender as necessidades do cadeirante. Falei com algumas pessoas e elas disseram que não utilizam o transporte público por conta disso.

Na parte turística, que é onde circula o dinheiro, está muito fraco e não tem investimento na baixa temporada. Eu vejo que a cidade tem potencial e devemos trabalhar isso. Mas a bandeira que eu ergo mesmo é da educação, no investimento na educação e no professorado. Ela consegue transformar todas as demandas e é a base de tudo. O indivíduo bem estruturado, com uma base toda, em tem mais chances de conseguir uma vida saudável. Mesmo que não consiga em Caraguatatuba, ele terá mais chances de concorrer em outras cidades.


- Você defende a participação popular também, né? Como será?

Tenho um projeto para que haja participação popular nas secretarias. Vamos avaliar os cinco melhores currículos que serão enviados para cada secretaria e por meio de audiência, os moradores irão escolher os nomes de cada pasta. Desta forma, abriremos a possibilidade para que toda a população possa participar ativamente da administração. Já procurei me informar e estou respaldada pela justiça para isso.

- Existe alguma ong LGBT em Caraguatatuba? Como a cidade lida com a população LGBT?

Não existe nenhum tipo de movimento LGBT, tanto que quero fazer o Fórum LGBT Litoral Norte Paulista. Mas conversei com muito LGBT e entendi que especificamente Caraguatatuba recebe bem o LGBT. Não é uma cidade LGBTfóbica ou que tenha casos de violência física ou verbal por preconceito. Aqui temos muitos gays no professorado, que são aceitos e respeitados. Temos uma trans que é candidata a prefeita. Temos uma travesti em início de transição como professora da rede pública, apesar de emprego ainda ser uma dificuldade para a travesti e que precisamos trabalhar. Aqui temos a preocupação de dar os mesmos direitos para saúde, educação e transporte, que acaba reverberando para todo mundo.



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- O que a população trans mais precisa?

Fiz uma reunião com as travestis e entendi que a maioria faz pista. Entendi também que elas não sabem das leis que as protegem, como o direito ao nome social, a retificação do nome, a hormonioterapia... Então é preciso informa-las e brigar por esse direito da hormonioterapia. Vejo que a sociedade ainda precisa tirar as travestis das esquinas. Aquelas que querem. Entender que somos para qualquer tipo de trabalho qualificado. Somos professoras, médicas, advogadas... A gente precisa lutar para que haja maior oportunidade no mercado de trabalho, seja por meio de cotas para que haja o incentivo, até que a sociedade conheça e respeite a população de travestis, mulheres transexuais e homens trans capacitados. A minha candidatura como prefeita serve para a sociedade refletir de que nós podemos somos tão capazes, que até podemos fazer algo para a sociedade.

- Você se define como travesti, mulher transexual...?

Eu procuro não me definir. Desde que me respeitem, pode me tratar como travesti ou transexual. Percebo que por conta dessas divisões, as meninas acabam se estranhando e se separando. Quero que as pessoas me respeitem e respeitem quem está do meu lado, independente do rótulo. Eu luto para ser reconhecida pelo gênero feminino, e não quero ser reconhecida pelo meu sexo. Sexualmente não importa.

- Qual é a expectativa para as eleições neste domingo (2)? O que as pesquisas da cidade falam?

Bem, participei de todos os convites que me fizeram nas rádios. E as pessoas perceberam que existe uma transexual politizada. Quando participei do debate da Band, tive muita visibilidade e o meu nome cresceu. Cogita-se que estou entre os três mais votados de seis candidatos. Ao mesmo tempo, fizeram uma pesquisa e colocaram o meu nome em último. Em uma cidade com 83 mil eleitores, achei inválido entrevistar pouquíssimos eleitores, com quase a metade dessas pessoas sem declarar o voto na pesquisa... Mas de qualquer forma estou muito feliz pela visibilidade que conquistamos e por trabalharmos a questão LGBT. As pessoas entenderam que uma travesti ou transexual também são capazes.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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