Realidade

Dia das Crianças: travestis, mulheres e homens trans relembram sabores e dissabores da infância

No dia 12 de outubro comemora-se o Dia das Crianças – data comercial que se popularizou no Brasil pela indústria de brinquedos na década de 50, em que os pais privilegiados (ou seja, aqueles que têm dinheiro) podem presentear suas crianças distribuindo brinquedos.

E num mundo binário e cisnormativo nem sempre tais crianças privilegiadas conseguem um sorriso ao desembrulhar um presente. É o sonho da boneca que se transforma em bola de futebol. Do carrinho que se transforma em jogo de cozinha. E tantas outras possibilidades.

Apesar de dada invisibilização social, crianças trans existem. Muitas vezes não são escutadas, outras tantas reprimidas. E algumas vezes, em raras exceções, acabam tendo o privilégio de caírem em famílias que se preocupam sobretudo com a felicidade, que entendem e contemplem suas identificações com gênero.

Nesta data, pedimos para travestis, mulheres transexuais e homens trans adultos a lembrarem as suas infâncias. Revelarem os sabores e dissabores desta fase. E também disponibilizarem (caso se sentissem à vontade) fotos fofíssimas desse período. O resultado é incrível, sensibilizador e necessário. 

Confira!

DUDA MENA BARRETO
"Queria ganhar a boneca do sorteio; não o carrinho"





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“Sou a caçula de um irmão e duas irmãs. Lembro de um sorteio em um programa infantil, onde meninos ganhavam uma pista com carrinhos de corrida e as meninas uma boneca que imitava um bebê. Minha mãe escreveu as cartas e eu pedia a boneca. Mediante a negativa dela, chorei muito e pedia para que ela pedisse a boneca na carta. Essa história foi contada na minha família até a minha adolescência. De certa forma refletiu meu comportamento de ficar com medo de expor minhas preferências por coisas ditas femininas. E também a imposição do meu pai em me levar para o trabalho dele, para que eu não ficasse muito tempo com minhas irmãs, porque ele achava que eu convivia muito com mulheres e isso estava ‘me afetando’.


B GAEL MARTINS
"Infância dos trans não é nada fácil"





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“Sou o filho mais novo de pais separados. Minha infância não foi nada fácil. Lidar com a distância do meu pai era difícil, principalmente porque ele me levava para jogar futebol, soltar pipa e tudo mais que eu queria. Com a minha mãe em casa era muito difícil naquela época porque ela era evangélica. Cresci dentro de uma igreja onde tinha que pelo menos ‘tentar’ ser o que eu não era. Não tinha brinquedos que eu gostava, só uma bola. Meu primeiro carrinho eu mesmo comprei. Minha infância nesse sentido não foi legal, mas cresci com muito amor e agradeço a Deus pela família que tenho. Hoje minha mãe não é a mesma pessoa, inclusive ela que pagou minha mastectomia. Lembrar que meu sonho de infância era ter um carrinho de controle remoto me deixa triste. Lembrar que num Natal eu pedi um chinelo masculino e o Papai Noel mandou um feminino é frustrante. A infância de nós trans não é fácil. Hoje sou feliz”.




ROSE ANNIE MACFERGUS
"Agressões, estupro e tentativa de suicídio marcaram infância"




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“Comecei a ter problemas com a questão de gênero logo depois dos 8 anos, quando me proibiram de brincar com outras meninas, disseram que eu tinha ‘problemas’ e que precisava ‘aprender a ser homem’. Vivia isolada, quase não tinha amigos, numa tentativa inconsciente de proteger a minha identidade. Mesmo assim, era constantemente descoberta pela minha mãe, que revirava as minhas coisas para ver se estava escondendo bonecas, batons e roupas de menina. Apanhei horrores, vivia sendo espancada pelo meu irmão mais velho. Por quatro vezes fui levada desmaiada para o Pronto Socorro, perdi dois dentes da frente de tanto levar soco na boca. Aos 12, fui estuprada dentro da minha casa, logo depois tentei suicídio, mas conseguiram me impedir. Aos 13, escapei da morte quando fui amarrada e presa dentro de um porta-malas de um carro por mais de 6h. Aos 15, saí de casa e fui viver sozinha na rua. Não sei dizer se tive infância ou quando deixei de ser criança. Acho que nunca fui isso”.



KISSINGER CORREIA SILVA
"Sempre fui uma menina meio menino"



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“Sempre fui uma menina meio menino. Gostava de ir para o rio com os meninos, brincar de carro, me esconder, garrafão, futebol, sempre fui muito moleca. Ganhei carrinhos, tenho dois até hoje. A única boneca que desejei na vida foi uma cabeça da Barbie que você podia maquiar. E não ganhei porque era cara demais. Minha família sempre foi muito tranquila sobre isso. Lógico que tinha uns puxões de orelha sobre posição de se sentar e a munheca quebrada (risos). Minha mãe sempre dizia: ‘ajeita essa mão menino’ (risos). Minha infância foi bem agitada”.



AMANDA MARFREE
"Descobriram que era menina quando quis dar beijo da Xuxa"





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“Sou a filha caçula e tudo o que meu pai queria era um filho homem. Quando nasci foi um sonho de consumo para ele. E eu era obrigada a ter que soltar cafifa às vezes, fingir jogar bola... Mas o tempo foi passando e eles foram vendo que eu era uma menina, que eu brincava escondidinha com bonecas Barbie. Tinha uma que só tinha a cabeça para fazer penteado. E descobriram que realmente eu era uma menina quando eu queria dar beijinho da Xuxa”.



LOUISE C. SILVA
"Sempre quis ser como as mulheres da família"

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“Fui uma criança muito reprimida, muito quieta e tímida. Desde cedo já ouvia piadas dos coleguinhas na creche por ser diferente dos meninos, ouvia piadinha também de adultos que moravam na minha rua. Muitas vezes eu guardava tudo isso comigo com medo de contar para minha mãe, por achar que meu jeito era errado. Cresci numa família onde só tinha mulheres e sempre queria ser como elas. Achava todos os meus brinquedos chatos, preferia as bonecas da minha prima, gostava de brincar de casinha e fazia o travesseiro de meu namorado. Uma vez, fingi com gestos que estava passando batom na boca, mas minha prima viu e disse que contaria para a minha mãe que eu queria ser mulher. Tudo isso com quatro ou cinco isso. Nem preciso dizer que com o tempo as coisas só foram piorando. Mas consegui superar tudo isso. Sorte da criança transgênero que tem pais que conseguem entender e apoiar desde cedo, porque não é fácil”.


KAIQUE THEODORO
"Meu primeiro carrinho foi só aos 18 anos"




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“Sou o filho mais velho, criado por vó em lar militar tradicional. Era para ser a bonequinha da família. Meu avô era alcoólatra e foi um verdadeiro monstro na minha vida. Cresci vendo meus avós brigarem com direito a porrada na minha velha e tudo. Minha mãe era ausente, pois era muito workaholic. E pai ausente, pois meu avô o proibira de me ver... Não tinha muitos amigos. Fui uma dessas crianças bicho do mato, que vivia brincando no quarto com coisas aleatórias e nada grandioso. Quando conseguia ver meu pai, podia ser moleque, correr, soltar pipa, essas coisas. Enfim, no meio desse lar conturbado, fui ‘criando corpo’ muuuito novo e isso acarretou em coisas bem complicadas para mim em relação a esse avô. Meu primeiro carrinho foi aos 18 anos. Acredito que estou aprendendo a ser criança agora que eu sou eu”.



THAIRÊ DAMASCENA
"Minha vó falou que só faltava comprar um pinto"




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“Bem garoto desde pequeno. Não surpreendi ninguém da família quando me assumi homem trans. Eu andava assim o tempo TODO. Ia para a escolinha sem camisa, só colocava quando chegava lá. Quando eu tinha uns três anos, fiz drama para minha vó comprar uma cueca do Scooby Doo para mim. E ela comprou e falou para mim mãe que, para eu ser um moleque, só faltava comprar um pinto. Lembro de pensar: ‘eba, eba, vamos comprar então’ (risos)”.



CLÉO OLIVEIRA
"Não sabiam lidar com o que eu sentia"



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“Infância e adolescência... Períodos difíceis e tristes para eu lembrar. Não sofri abuso, mas o histórico de violência é vasto. Sofrimento meu e de outros que não sabiam lidar com o que eu sentia e como eu me via. Eu fui vítima, porém a família muitas vezes também é vítima do histórico sócio-cultural na qual está inserida. Enfim, não gosto de histórias relacionadas a esses períodos. Fico muito mal quando me remeto a eles”.



OLLIE BARBIERI
"Acreditavam que eu tinha problemas espirituais"



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“Sempre fui menino, roupas de menino, brinquedos de menino. Não enfrentei grandes problemas até o meu irmão nascer. Após isso, meus pais começaram a tentar me enfiar em vestidos e a me tratar de forma completamente diferente. Contudo, nunca aceitei a imposição de comportamento deles. Chorava e brigava, então me deixavam ser e agir livremente. Por ser ‘diferente’ enfrentava muitos problemas na escola, com professores e alunos. Era constantemente discriminado e isolado. Começaram a acreditar que eu tinha sérios problemas espirituais. Fui criado em lar cristão. Começaram então a me empurrar para uma tal cura, a qual nunca chegou. Enfrentei duras sessões de libertação, exames de sangue e idas à psicólogos cristãos. Me assumi como sou muito cedo e acabei tendo muitos problemas na adolescência como depressão, crise de ansiedade e tentativas de suicídio. O quadro melhorou bastante quando alcancei certa independência financeira e pude começar a minha terapia hormonal, assumindo plenamente quem sou”.



SAMUEL CASTRO
"Quando ganhava Barbie, ficava de olho no Falcon"




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“Minha mãe teve sete filhos, mas não teve condições de criar todos juntos. Fui para os braços de outra família e até hoje sou reconhecido como um dos membros. Minha infância foi ótima ao lado de irmãos e primos de criação. Em todos os momentos estávamos reunidos. Som tocando, conversa em voz alta, sorrisos estampados em cada rosto. Tive a oportunidade que meus seis irmãos consanguíneos não tiveram. Mas lembro que próximo do Natal, meu padrinho me levava até a casa da minha vó materna. Desta forma matinha o ‘contato’.

 Fui criado com vestidos, sapatos que brilhavam ou tínhamos que engraxar. Lembro também daquelas bermudinhas de lycra que em 1987 era moda (risos). A pior parte era quando passavam batom em mim. Em casa eu só ouvia: ‘Fecha a boca, o batom não vai colar os lábios’. Os presentes eram sempre bonecas – Barbie, Trancinha, Fofolete... – e eu sempre de olho no Falcon. Comandos em Ação, Playmobol e Ferrorama do irmão ou dos primos. Conforme o meu crescimento e amadurecimento, tive a ideia de que até os 19 anos, vivi de forma reprimida. Mas todos aprendemos com o tempo”.



TIELY SANTOS
"Vestia bermuda por baixo da saia para jogar futebol"





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“A minha infância foi agitada. Família grande e com base evangélica. Mas isso não me impedia de, ao retornar do culto da igreja, vir com a bermuda por baixo da saia para jogar futebol na rua. As coleções de carrinhos e motos de ferro não sobreviveram aos meus irmãos mais novos. A bicicleta veio tarde, mas não me impediu de participar de corridas de bicicross na pista de terra em São Miguel Paulista. Eu me divertia com bonecos, mas para mim as brincadeiras que envolviam carrinhos, pipas, rolimã, gude e até bilhar eram as que eu mais me identificava. E que gostava.




ROBERTA CONRADO
"Sempre fui feminina, ralava na boquinha da garrafa e..."



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“Fui uma criança que soube aproveitar bem a infância. Minha família criticava, mas brincava mais com as meninas que com os meninos. Eram várias brincadeiras: boneca, banco, casinha... Sempre fui feminina, ralava na boquinha da garrafa e fazia a cobra subir com a dança do Egito. Claro que nem sempre foi um mar de rosas, fui muito criticada, agredida e até molestada aos oito e nove anos. Tive força para superar tudo, mas não sei como, pois moro no interior, cidade muito pequena e a única trans. Hoje não sou totalmente feliz, mas sou realizada. Tenho casa, marido, família e amigos presentes e sou reconhecida como mulher pelo Estado neste ano. Só tenho a agradecer toda a luta a Deus. Dias melhores vem e vão. Vamos atrás dos melhores”



DIONISO FERREIRA
"Meu pai nos abandonou e eu me botei como 'hominho' da casa"




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“Na época dessa foto, meu pai tinha abandonado a gente. Chegamos a passar fome. Eu fui trabalhar para uma fábrica de sapatos costurando mocassins (anos 80 não tinha Estatuto da Infância ainda). Eu sempre me botei como ‘hominho’ da casa. Minha mãe tentava jogar isso nas costas do meu irmão, mas ele era muito pequeno, então eu quem tomei a responsabilidade para mim. Eu me sentia culpado por não poder fazer mais, justamente por me julgarem menina. Eu me revoltava contra isso, mas não tinha muito o que fazer. Essa cara de bravo era por eu viver com raiva, raiva do meu pai, de mim, da minha condição, da fome, da pobreza, dos colegas da escola que me humilhavam. Toda vez que eu lembro da infância ou eu estava com raiva ou chorando. Os poucos momentos felizes eram com meus irmãos”



LEONA BARROS
"Minha irmã ganhava coisas que eu queria, mas que eu não podia"



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“Sou a caçula de três irmãos (um irmão cis e uma irmã cis). Lembro que sempre queria brincar de carrinho e com as bonecas. Amava dançar, mas meu pai descobriu e me proibiu, porque ‘não era coisa de homem’. Mas sempre dançava escondida com minha irmã, colocava toalha na cintura e blusa na cabeça e me acabava no Tchan. Eu tinha um urso, que meu pai proibia de dormir com ele, mas eu sempre escondia o urso. Lembro que sempre odiava quando via minha irmã ganhando coisas que eu queria ganhar, mas não podia porque era ‘menino’. Eu sempre soube que eu não era esse menino que me falavam. Por ter uma família evangélica e conservadora me assumi trans aos 22 anos. Hoje, aos 26, estou quase completa. Mais feliz por ser eu de verdade”.


HEITOR GIRARDI MARCONATO
“Essa imagem é bem condizente àquele período da infância em que não existem as frustrações tão acentuadas com o próprio corpo. Nesse período não era nem 'menino' e nem 'menina'. Era criança”.









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DAISY OLIVEIRA
"Fui criada sem a obrigatoriedade de seguir os padrões"
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"Sou trans não-binária. Tive a sorte lotérica de ter uma mãe muito à frente do seu tempo. Na década de 80, me criou sem a obrigatoriedade de seguir os padrões cis-heteronormativos. Aqui está a prova de seu olhar aos meus brinquedos". 


SILVIA VIEIRA PORTINARI
"Amor da minha família foi fundamental para seguir em frente"



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“Sou filha caçula, sempre fui menino até os 12 anos. Mas brincava de boneca com minhas irmãs. Tive uma infância familiar calma. Sempre tive tudo o que quis dos meus pais, nunca me maltrataram, mesmo com meu jeito feminino desde criança. No colégio, uma vez ou outra passei por algum constrangimento, mas no geral fui uma criança feliz. Bem criada e educada pelos meus pais. Isso foi fundamental. Logo após a adolescência, quando me assumir trans e tive que enfrentar tudo, o amor da família me deu forças para seguir em frente. Tenho boas lembranças da infância”


KIARA SOUZA
"Aos seis anos, minha mãe me pegou vestida de noiva"



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“Minha trajetória começa aos 3 anos, quando minha mãe percebeu que eu já era especial. Ou seja, que tinha nascido mulher em um corpo de homem. Eu amava me maquiar, andar com salto da minha mãe pra lá e pra cá. E minha mãe sempre me deixava a vontade para eu ir me descobrindo. Quando íamos sair, eu mesma escolhia a roupa. Segundo ela, colocava shortinho e blusa em mim, mas eu tirava o shortinho e fazia a blusa de vestido. Aos seis anos, ela me pegou casando de noiva. Sim, eu estava com o vestido dela pela casa. E aos sete anos, fui com meu pai e meus irmãos para o Carrefour e ele pediu para eu escolher um brinquedo. Escolho uma boneca e era algo inaceitável para meu pai. Mas não teve jeito. Minha mãe disse que eu me joguei no chão, fiz um chororô no mercado. E assim ele teve que trazer meu briquendo: minha boneca”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

Obrigada mais uma vez pelo espaço, carinho e atenção com a gente <3

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