Pride

"Presas, espancadas e mortas": relatos de travestis sobre a Ditadura Militar




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Por Neto Lucon

Travestis e transexuais na ditadura militar e suas histórias de silenciamento foram os temas da primeira mesa do 2º Workshop Regional da Rede Trans Brasil, etapa Sudeste, que ocorreu em Uberlândia, Minas Gerais, no último sábado (22). 

Por meio dos relatos das militantes porto-alegrense Marcelly Malta e mineira Sissy Kelly e do professor e pesquisador Daniel Henrique de Oliveira Silva, falou-se sobre o regime comandando por governos militares de 1964 a 1985 e como a repressão afetava a comunidade trans.

De acordo com o professor Daniel, a ideia de pesquisar a história da população trans no período de ditadura surgiu após uma pesquisa sobre o jornal Lampião da Esquina (considerado gay que circulava clandestinamente entre 1978 e 1981), que trazia algumas matérias sobre o grupo. Ele percebeu que essa parte da história, bem como os relatos das trans, estavam delegados ao esquecimento.

Por meio do icônico jornal, Daniel afirma que é possível entender que a realidade de quem era trans neste período era mercada por muita violência, prisões e mortes. “A sociedade pregava a moral e os bons costumes. Então, elas apanhavam pelo simples fato de existirem. Não podiam sair durante o dia ou durante a noite, pois os policiais batiam e também prendiam. Elas eram delegadas aos guetos, para o melhor controle delas”, declara.



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POLICIAIS AGREDIAM, PRENDIAM E TRANSAVAM 

“Naquela época a gente não podia nem sair de dia, porque você já era presa pela polícia. Algumas já ficavam em frente da sua casa esperando você sair. Uma vez, eu saí de casa com uma amiga durante o dia para comprar algumas coisas e acabamos sendo presas. Mesmo com a carteira de trabalho, porque eu trabalhava na área da limpeza, eles alegavam vadiagem, rasgavam a carteira e prendiam”, lembra Marcelly, de 65 anos.

Sissy, que tem 59, relata que chegou a ser internada em um hospital psiquiátrico por sua família e que levou vários choques elétricos por ser afeminada. Como revelou ao NLUCON, ela conseguiu fugir graças a um enfermeiro apaixonado. Mesmo assim, enfrentou a violência policial e revela que muitas eram caçadas e levadas em camburões.

“Para fugir, a gente fazia cada coisa que meu corpo não aguentaria hoje. Chegávamos a subir em cima da casa das pessoas, mas às vezes o teto caía e a gente ia parar dentro da casa. Algumas famílias tinham humanidade e nos escondiam, outras nos deixavam presa e chamavam a polícia. Violência era regra institucionalizada pelo governo”, declarou.

Marcelly destaca que as travestis negras eram as que mais apanhavam e que era comum inúmeras colegas desaparecerem após a abordagem policial. Sissy declara que os policiais que batiam eram os mesmos que voltavam para que elas transassem com eles. “Às vezes aparecia um, dois ou dez”. Ela contou ainda que cada cidade tinha uma forma de repressão: “Sei que em Salvador ele fazia as travestis lavarem defuntos”.
Sissy Kelly e Marcelly Malta

No site da Rede Trans, tem-se a informação de que em 1980, durante o governo de Paulo Maluf em São Paulo, o delegado José Wilson Richetti, assumiu a delegacia seccional do Centro e criou a Operação Cidade, que tinha a finalidade de prender traficantes e assaltantes. Porém, no dia seguinte, os jornais publicaram que a maior parte das 152 prisões eram de prostitutas, travestis e homossexuais.

CIRURGIA

Um dos casos que chamaram atenção é da operação de redesignação sexual (genital) realizada pelo médico Roberto Farina em 1971, em São Paulo. É considerada a primeira cirurgia no município, sendo condenado pela Justiça.

Mesmo com a paciente Waldirene Nogueira dizendo que o médico havia “lhe dado uma vida nova”, o promotor entendeu que cirurgião cometeu delito de lesão corporal, mutilação e ofendeu a integridade física da paciente. Na realidade, ocorreu um julgamento moral.

Posteriormente, Farina foi absolvido porque a Justiça concluiu que a cirurgia – realizada com o parecer favorável da junta médica do Hospital das Clínicas de São Paulo - era o único meio de acabar com a angústia de Valdirene.

TERCEIRA IDADE

A ditadura chegou ao fim em 15 de março de 1985. Porém é possível encontrar resquícios desse regime na vida atual. É comum, por exemplo, vermos pessoas sendo preconceituosas em prol dos "bons costumes". E até policiais militares agredindo e matando a população de travestis, sem qualquer punição.

Ainda hoje, num país em que a expectativa de vida de uma travesti ou mulher transexual é de 35 anos, chegar aos 60 é um privilégio de poucas. Marcelly e Sissy seguem militando, dando palestras e mostrando por meio de suas histórias de vida outros caminhos.





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“Sinto que as gerações mais novas não querem nos escutar. Elas ficam entre elas e não querem saber da história, do que veio antes”, lamenta Marcelly. Já Sissy revela que ter a oportunidade de chegar aos 60 é muito bom, haja vista quantas amigas e companheiras perdeu no decorrer do caminho. “Temos que ser exemplo de resistência”.

O professor Daniel declara que os relatos das travestis veteranas são importantes e que deveriam estar nos livros escolares. “A medida em que as travestis que vivenciaram a ditadura forem morrendo, a gente vai perder essa parte da história. O meu objetivo é preservar a memória e perceber que essas travestis fizeram história e fazem parte da história”.

Confira algumas fotos abaixo: 






About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

DUDA BARRETO disse...

Marcelly, nossa querida presidente da igualdade rs, obrigada por tudo que tem feito por nós!

Anônimo disse...

É importantíssimo resgatar as memórias de quem viveu a ditadura militar. A própria esquerda e os que eram oposições na época, não fazem muita questão de lembrar que as travestis fizeram parte dessa resistência, contra o autoritarismo. Meu Deus! Se hoje é difícíl para as travestis, imaginem em meados das décadas de 60 e 70! Parabéns Sissy e Marcelly!
T-Lover Marx

Domingos Oliveira disse...

Que venham mais e mais relatos de uma parte da história que o Brasil quer esquecer, mas não deve.

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