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Travesti de 19 anos é encontrada morta em viatura policial e "história é mal contada"



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A travesti C. do Nascimento Rolim, de 19 anos, foi encontrada morta dentro de um carro da Polícia Civil que estava estacionado no 77º Distrito Policial (DP), na Santa Cecília, centro de São Paulo. E, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública, a suspeita é de que a culpada seja a própria vítima.

C. foi encontrada morta por dois agentes policiais dentro do carro no espaço reservado aos presos na quinta-feira (13), quando eles iam para uma ocorrência. Ela estava sem blusa, com os seios de fora, o rosto arroxeado e as mãos ensanguentadas. E a viatura tinha danos nos vidros, lataria, fechadura e acrílico interno.

O registro foi realizado no 77º Distrito Policial, justamente onde C. foi encontrada morta. E, de acordo com o delegado Francisco José Castilho, a principal suspeita é de que ela tenha tentado entrar escondida na viatura, não conseguido sair e morrido por asfixia. Ninguém teria a visto nenhum momento.

“O que temos é isso: foi uma asfixia provocada, uma fatalidade, provocada por ele (sic)”, declarou, desrespeitando a identidade de gênero da travesti. Nas notas, só foi divulgado o nome de registro da jovem, rejeitando a informação de qual seria o seu nome social (aquele pelo qual ela era reconhecida em sua identidade de gênero feminina). 


"HISTÓRIA MAL CONTADA"

Porém, para o ouvidor Julio Cesar Neves, “a história foi mal contada”. Ele declarou à imprensa que quer saber se houve irregularidade cometida por algum policial. “É estarrecedor aparecer um corpo dentro de uma viatura policial dentro do estacionamento de uma delegacia e a Polícia Civil não explicar isso direito”, defendeu.

Curiosamente, as imagens do circuito de segurança – cujo boletim afirma não ter encontrado irregularidades por parte de policiais - não foi disponibilizada para a imprensa. O G1 informou ter visto imagens de C. tentando entrar em outros veículos, mas frisou que não viu as imagens do momento em que ela teria tentado entrar no veículo em que apareceu morta. 

O Instituto Médico Legal até o momento não divulgou a causa da morte. Detalhe: foi solicitado exames toxicológicos para apurar se a vítima havia consumido drogas.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que o caso foi registrado como “morte suspeita”, que está sendo investigado pela 1ª Seccional, acompanhado pela Corregedoria da Polícia Civil e que as “diligências estão em andamento com a oitiva de testemunhas”. Ela acrescenta que a viatura onde C. foi encontrada morte foi “periciada, consertada, lavada e já está em uso novamente”.

TRAVESTIS E POLICIAIS

Embora a suspeita da política possa ser comprovada posteriormente, a falta de transparência nas investigações neste momento reacendem o debate da violência policial contra a população trans ao longo da história. Além dos constantes relatos de abuso de poder, nos últimos anos dois casos envolvendo chamaram atenção da mídia.

Um deles envolvendo a travesti Laura Vermont, de 18 anos, que após ter sido agredida por cinco transfóbicos, foi abordada por policiais militares. Ao invés de socorrê-la, eles deram um tiro em Laura, que morreu. Os policiais forjaram a cena do crime, uma testemunha, mentiram no B.O. e foram descobertos pela Polícia Civil. Eles foram liberados após pagar fiança.

Outro envolvendo a travesti Verônica Bolina, também em 2015, que estava presa por ter agredido uma senhora e que foi brutalmente espancada por policiais enquanto estava no poder do estado. A agressão só ganhou repercussão porque os próprios policiais publicaram uma foto de Verônica seminua e com o rosto desfigurado pelas agressões.

Em todos os casos, há a tentativa de culpabilizar a vítima ou justificar a violência cometida, mesmo quando o desfecho termina em morte ou agressão das mesmas. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Rafael Capella disse...

É um ABSURDO que em pleno século XXI pessoas ainda precisem ter medo daqueles que, supostamente, deveriam dar segurança.
Meus pêsamesaos amigos e os familiares da jovem.

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