Pop e Art

Youtuber trans Mandy Candy mostra importância do acolhimento familiar em série do GNT


Por Neto Lucon

Amanda Guimarães, 28, foi a primeira personagem da série “Liberdade de Gênero”, do GNT. Nela, a youtuber fala sobre a descoberta de sua transexualidade, a transição de gênero, contato com a família no Rio Grande do Sul, a luta contra a transfobia, até o sucesso atual do canal Mandy Candy no Youtube. 

No depoimento, Amanda revela que foi designada menino ao nascer, mas que sempre se identificou com o gênero feminino. Tanto que “era muito estranho olhar no espelho e não se reconhecer”. Ao mesmo tempo, via na mãe e na irmã as suas maiores referências.

Com dois ou três anos, vivia pegando as roupas da irmã. Depois, chorou muito por um moletom da Minnie – e não do Mickey, como insistiram. Quando disseram que ela era um 'menino', passou a se isolar nos videogames e com as personagens femininas, como Sônia Blade, do Mortal Kombat. E a falta a aulas pelo bullying que sofria.

Por meio de uma amiga em comum, Amanda descobriu que era transexual e resolveu revelar para a mãe, Teresa Guimarães. A mãe foi conversar com a outra filha, Melissa Borges, que disse: “Ah, mãe, mas isso a gente sabe desde que ela nasceu”. Foi o empurrão para a aceitação familiar. “Não importa o que os outros acham, o vizinho, o colega. É a felicidade dos meus filhos que importa”, declarou.

A PIADINHA E A DEFESA

Uma semana depois de ter falado que é trans, Amanda jogou metade das roupas consideradas masculinas fora e ganhou várias roupas femininas para o seu armário – muitas delas da irmã. “Eu até guardo um sutiã dessa época, e às vezes eu até uso, porque ele é muito confortável”, conta.

Na rua, ela enfrentava os mais diversos olhares. Muitas vezes, sentia-se destruída quando alguém a chamava de “traveco” ou falava para ela “virar homem”. E se trancava no quarto aborrecida com o preconceito que enfrentava.

Certa vez, quando estava em um ponto de ônibus, começou a ser alvo de piadas de alguns homens que estavam num bar ao lado. A surpresa foi ver que a própria mãe, que estava de pijama e se trocou em dois minutos, apareceu por lá. “Falei assim: ‘Eu quero o nome de todas as pessoas que estavam aqui e que frequentam esse lugar, porque eu quero fazer um B.O”, lembra. A youtuber alega que o enfrentamento da mãe teve efeito.


“Resolveu. Eles nunca mais mexeram comigo”, diz ela, que reconhece o privilégio de ser aceita pela família. “Sou 1% das pessoas trans, porque normalmente a família bota para fora de casa, bate. Ela não aceita ter um filho ou uma filha trans”. Ações que comumente repercutem negativamente na vida da pessoa trans, que muitas vezes é catapultada para a margem e exclusão. "Minha família, ao contrário, sempre me apoiou". 

CIRURGIA E YOUTUBE

Quando o programa abordou a questão da redesignação sexual (genital), Amanda declarou que esta foi uma vontade que a acompanhou desde sempre. E que encarava o pênis como um intruso. Às vezes chegava a urinar uma só vez por dia para evitar o contato.

Ao ir para a Ásia revender peças íntimas femininas, ela juntou um dinheiro e foi realizar o sonho da cirurgia na Tailândia – considerado um dos melhores países para realizar o procedimento.


Para os curiosos de plantão, Amanda afirma que o resultado ficou incrível e que sente muito prazer. Tanto que o primeiro homem com quem se deitou não comentou nada sobre qualquer diferença entre mulheres cis. Ela também faz questão de frisar que é uma mulher transexual heterossexual, uma vez que sua identidade de gênero é feminina e ela se interessa por pessoas do gênero masculino.
Capa do livro de Mandy Candy

Após a cirurgia, a jovem continuou na Ásia e resolveu criar um canal no Youtube para não ficar sozinha. Com o aumento de seguidores e o medo de ser apontada como trans, ela resolveu revelar para todos a sua vivência transexual. Ao invés de sentir rejeição, Amanda recebeu apoio. E passou a revelar suas vivências aos internautas.

Hoje, ela tem quase 400 mil seguidores, acaba de lançar um livro “Meu Nome é Amanda”. E é exemplo de que o acolhimento é sempre o melhor caminho para a felicidade. 


O programa “Liberdade de Gênero” vai ao ar todas as quartas e seus dez episódios têm direção de João Jardim. Quem não assistiu ao primeiro episódio, pode assistir clicando aqui

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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