Pride

A primeira grande violência que uma pessoa LGBT sofre é dentro de sua própria casa


Por Daniela Andrade

Eu acreditava que só teria paz na vida quando meus pais morressem ou quando eu fosse embora de casa. Frequentemente rezava para Deus me levar embora, para que tudo aquilo acabasse, mas Deus nunca apareceu para me ajudar.

Na realidade nunca tive pais, eles apenas me colocaram no mundo e durante algum tempo deixaram eu dormir debaixo do teto deles e pagaram a comida que eu comia. Encaravam aquilo mais como uma obrigação religiosa e social do que como um ato de amor.

Nunca ouvi nenhuma palavra de afeto ou carinho. Nunca disseram que me amavam. Diziam que iriam me quebrar para eu 'virar homem'.

Minha mãe arrancava sangue de mim, e eu dizia que ia denunciá-la na polícia e era ainda mais espancada. 
Meu pai me batia até eu ficar mole, cheia de hematomas pelo corpo, e minha mãe dizia para ele ter 'cuidado ao me bater' que eu ia acabar no hospital e ele preso. Meu pai dizia que eu iria terminar 'sozinho, infeliz e aidético como todo traveco', nas palavras dele.

Que outro grupo é linchado dentro da casa da própria família, todos os dias, para deixar de ser quem é?

A gente aprende desde criança o que é violência, aprende o quanto dói ser tratada como o que há de mais medonho na terra. Aprende que não existe infância, não existe adolescência, não existe vida, existe apenas a violência.

A VIOLÊNCIA QUE ME CRIOU, QUE ME COLOCOU NO MUNDO


A violência foi durante muitos anos a única coisa que eu tive na vida, e passava muito tempo tentando pensar que coisa era aquela tão pesada que eu sentia, que me sufocava a ponto de me faltar ar, de me asfixiar. Que cruz tão dolorosa era aquela que eu tinha que carregar.

E o cristianismo e a hipocrisia social combinados também me adestraram durante muitos anos a entender toda aquela violência como necessária: honra teu pai e tua mãe, diz Mateus na bíblia.

Mas quem me honraria? Meus pais nunca me honraram. É muito fácil ser hipócrita quando não tem esses pais te apedrejando constantemente.

Nunca pude contar com eles, tinha que ser espancada na escola, xingada na rua, estuprada no coletivo e não falar absolutamente nada.

Lá na periferia de São Paulo, onde não havia internet para encontrar pessoas próximas, onde não havia informação, onde não havia qualquer pessoa que eu supusesse que estivesse passando algo parecido que eu, só me restava a solidão de todas as noites que não dormi, tendo apenas o travesseiro para confidenciar minhas lágrimas.



Tive que passar por tudo sozinha, não podia desabafar com ninguém - sempre havia o risco de que contassem para os meus pais e eu apanhasse mais.

Eu aguentei violência a vida inteira, e estou aqui, viva, para dizer que não podemos passar a mão na cabeça de agressores apenas por serem pai e mãe.

Sinto o esmagador peso da solidão, mas eu suporto, já aguentei pesos maiores. Ainda que continue tendo problema para dormir, continue tendo pesadelos constantes com essa vida que não se apaga com palavras bonitas.

CRIANÇAS E ADOLESCENTES LGBT PRECISAM DE AJUDA


É preciso que ajudemos as crianças e os adolescentes LGBTs, são eles que precisam de ajuda, são eles as vítimas dessa sociedade doente que nos vê como o que há de pior, que negligencia os crueis espancamentos, xingamentos e inclusive assassinatos no conforto do ambiente doméstico.

E tudo isso é apenas a preparação para que sejamos expulsas e expulsos de todo o restante: da escola, do mercado de trabalho, da sociedade, da vida.

Não venham cobrar simpatia e docilidade, nessa vida o código que me ensinaram foi o da violência. E desde que me entendo por gente, já dentro da casa de pai e mãe.

Parem de exigir da vítima de agressão que ela que tenha que se modificar. Vão cobrar de quem nos agride que nos respeite como gente.

Na minha vida, pai e mãe são apenas duas palavras que a sociedade inventou, apenas isso. Mas podem ser tão estranhas e agressoras como qualquer um sempre é quando se é transexual, da comunidade LGBT.

Eu sou meu pai e minha mãe, eu que tive que me parir, me criar, me entender, me confidenciar, me dar força, me fazer não desistir, me apoiar - nunca tive isso de pai e mãe.

Sou a sobrevivente de um mundo que me tirou tudo, menos a esperança que tenho em mim mesma. Uma esperança inexplicável, estou viva, sei lá porquê.



* Daniela Andrade é transfeminista, militante independente pelos direitos humanos e desenvolve um importante trabalho de conscientização e de combate ao preconceito contra as identidades trans. É especializada em Tecnologia da Informação (TI) e uma das responsáveis pela criação dos sites TranServiços e TransEmpregos. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

5 comentários:

Anônimo disse...

Queria ter pelo menos um terço da força dessa mulher!! <3

Juca disse...

Daniela, como queria poder te dar um abraço agora, enquanto leio seu texto dolorido e cheio de esperança ao mesmo tempo! Parabéns por ter vencido! <3

Roberta CrossDressing disse...

Infelizmente vivemos numa violência sem explicação, a religião tem muita culpa em colocar na cabeça das pessoas coisas que a própria religião deveria combater e ensinar que o amor ao próximo é o mais importante no Ser Humano.

Unknown disse...

Daniela, fico feliz por vc ter superado uma situação tão limite,tão dura. Pai e mãe são apenas nomes quando não exercem a função de amar e acolher. Parabéns a vc ,que é uma sobrevivente de uma crueldade feita por preconceito ou em nome de alguma religião equivocada. Sabe, outro dia li que quem precisa de companhia constante é pq não possui paz, vc suporta a solidão pq gosta de si mesma,com razão.Abraço apertado de uma mãe de lgbt

ofelia peres disse...

Não saiu meu nome acima Daniela

Tecnologia do Blogger.