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Abertura do 4° Recifest tira o véu da hipocrisia envolvendo religião e LGBTs


Por Neto Lucon
Diretamente de Recife
Fotos: Divulgação Recifest


A abertura da 4ª edição do Recifest – Festival da Diversidade Sexual e de Gênero – que ocorreu na terça-feira (15), às 19h, no Cinema São Luiz, em Recife, foi marcada por muita emoção, cinema cheio, homenagens póstumas. E por meio do filme Amores Santos provocou o debate sobre líderes religiosos LGBT e no armário e seus discursos que comumente legitimam a LGBTfobia. 

Por volta das 18h, uma lavagem da calçada do São Luís foi realizada por um grupo de candomblé e trouxe boas energias ao festival. Logo após, o pai de santo e professor Jorge Arruda divulgou e autografou o livro “Homoafetividade e as religiões: Educando pela diversidade”.

A obra faz parte de uma coleção de oito livros que discute com professores temas necessários a ser debatidos em sala de aula, como fé, negritude e, agora, homoafetividade.

“Mostro o que as diversas religiões falam sobre a homoafetividade e encaminho reflexões para o acolhimento ao aluno homoafetivo. É um enfrentamento contra a homofobia. Afinal, se a escola não acolhe o homoafetivo, ela vai continuar fingindo que ensina e o aluno fingindo que aprende. Mas não é um livro apenas para educadores, é um livro feito para todo mundo”, declarou o escritor ao NLUCON.





A apresentação da noite ficou por conta da Fabiana Melo Oliveira, mulher trans que trabalha como assessora parlamentar, é estudante de psicologia e militante da Amotrans – Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco.
Fabiana Melo é uma das apresentadoras trans

 “Este é um espaço em que se prevalece a liberdade”, disse ela em seu discurso. Aliás, todas as noites uma mulher trans ou travesti que conseguiram driblar a transfobia e ter algum destaque no Estado apresentará o Festival. 

Antes do filme, foi encenado um trecho da peça “Ossos”, de Marcelino Freire,
 do coletivo Angu de Teatro. A peça fala sobre a história do escritor Heleno Gusmão, que ao entregar os restos mortais do seu amante à família dele, retorna às origens.

HOMENAGEADOS

Um dos momentos de emoção foi a homenagem destinada a atriz transexual Phedra de Córdoba (cubana radicada no Brasil que fez história no teatro de revista, palcos de casas gays e no grupo de teatro paulistano Satyros) e o crítico de cinema Christian Petermann, que morreram no início deste ano.

O vídeo exibido em todas as sessões fala brevemente sobre a carreira de ambos e exibem imagens de trabalhos de Phedra e Christian, sobretudo da participação que tiveram em outras edições do Recifest. Phedra, por exemplo, esteve divulgando o filme Cuba Libre – do grupo Satyros – e chegou a fazer uma apresentação no festival.

Um “muito obrigado” finaliza a homenagem, provocando muitos aplausos.





FILME DE ESTREIA

"Amores Santos", do diretor Dener Giovanini, foi o grande filme da noite. Polêmico e com espírito de estreia – é a segunda vez que é exibido no Brasil, a primeira foi no Rio Festival Gênero e Sexualidade no Cinema de 2016 - ele mostra arcebispos, pastores, padres e bispos da vida real flagrados flertando, fazendo sexo virtual e até apaixonados pelo ator Darico Macedo, um moreno alto, bonito e sensual.

Com apenas um borrão nos rostos e vozes distorcidas, o filme traz discursos e imagens explícitas de quem não sabia que estava sendo gravado. Um padre afirma que mais da metade dos colegas são gays. Outro revela que foi homofóbico até conseguir sair da igreja. E tem até um pastor que cogita abandonar a família para ficar com o jovem. Nele, todos babam pelo ator, que se exibe em várias posições e finge interesse neles, que também se exibem e seduzem pelados, de calcinha e em trajes religiosos.

A obra também faz um paralelo com os resultados dos discursos mencionados em igrejas e templos, que estimulariam a LGBTfobia e violências como o suicídio, rejeição familiar, agressões e mortes. Traz, por exemplo, a psicóloga Marisa Lobo dizendo que LGBT querem privilégios, ao mesmo tempo em que mostra várias pessoas LGBT sendo agredidas e mortas. Traz Lobo dizendo que héteros estão sendo perseguidos, ao mesmo tempo em que a psicoterapeuta Edith Modesto diz que LGBT sofrem desde a infância e que nem mesmo a família acolhe.

Ao conversar com os expectadores, Dener declarou que sua ideia foi tirar o “véu da hipocrisia”. E contou que o filme surgiu quando ele, numa pesquisa para um filme sobre LGBT e religião, conversou com um padre e contou que era gay. “Pensei que o padre fosse fazer um discurso homofóbico e que iria colher esses dados, mas ele perguntou: ‘Você é ativo ou passivo?’. E daí nasceu a ideia do filme”, disse, revelando que atualmente vem recebendo ameaças.



RISOS?

Durante a sessão, muitas pessoas riram quando os padres gays contavam os seus desejos e fantasias sexuais. E posteriormente houve quem, na contramão, apontasse: tais pessoas também são gays, não se sabe se elas em suas individualidades ajudam a reforçar preconceitos e, ao contrário, muitas vezes também estão inseridas num espaço de violências, dor e preconceito. Fora que se trata de um festival de cinema da diversidade sexual e de gênero, e não há motivo para tratar da sexualidade alheia como motivo de riso, né?

Eleonora Pereira, que teve o seu filho assassinado em 2010, disse: “Não é fácil ouvir esses risos. Essas pessoas também estão sofrendo, eu vejo muito sofrimento por não poderem externalizar o que são. E, para quem perdeu o seu filho pelo preconceito isso machuca muito”, disse. Um rapaz, que chegou a ver colegas gays serem excluídos da igreja, argumentou que o filme o ajudou a entender sobre ele mesmo e a relação com a instituição religiosa. E um ex-seminarista alegou que conseguiu enxergar a realidade por meio do filme.

Ao fim da exibição e do debate com o diretor, o público continuou comentando sobre a obra no hall do cinema. Aplaudida, fica evidente que ela mexe em um assunto espinhoso, necessário e embrionário em relação ao preconceito social. Mas ainda divide opiniões em relação ao formato – como a câmera escondida (utilizadas em pegadinhas de TV, que assim como o filme provocam o riso), a exposição de pessoas indiretamente e a falta de humanização em relação aos próprios padres GBT, que estão inseridos em uma instituição historicamente LGBTfóbica.

O diretor contou, por exemplo, que um deles confessou durante o processo pensar em suicídio por conta do preconceito, mas que achou melhor não incluir. Talvez devesse trazer este importante relato, sim, ao invés das várias e várias exibições do corpo do belo ator. Sugestões de um mero jornalista sobre uma marcante e importante abertura de Festival.

O Recifest segue a sua programação, que pode ser vista clicando aqui.

Assista ao trailer: 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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