Realidade

“Casos de Família” derrapa na transfobia e diz mais de 20 vezes que convidada trans não é mulher


Por Neto Lucon

A mulher trans
Thífany e o homem cis Célio têm uma linda história de amor para contar. Eles se conheceram há três anos, quando Thífany era líder da equipe em que Célio trabalhava como carregador. O “amor à primeira vista” não deu espaço para a transfobia e eles logo decidiram morar juntos. Na vida a dois, enfrentaram desafios, mas não desistiram um do outro. Thífany afirma que vai viver para sempre ao lado do marido, o seu primeiro amor. E ele diz que ela será sempre a sua mulher.

Mas a história de amor acabou virando piada no programa “Casos de Família”, do SBT, na última semana. A história do casal foi exposta com o seguinte tema “Gay, eu? Nem a pau! Quem é feminino é o meu namorado”. E a transfobia, o deboche e a desinformação sobre “gênero” e orientação sexual” reinaram ao quererem entender a orientação sexual do rapaz.

Questionaram o tempo todo se ele é gay. E mesmo Célio dizendo com todas as letras que se define heterossexual, afinal é um HOMEM que se relaciona com uma MULHER, pois é exatamente assim como ele a observa e que ela é, o questionamento persistia. Christina Rocha fez uma pesquisa com a plateia, que confirmou a desinformação. A psicóloga Anahí disse que “acredita que ele acredita que é”, sem se aprofundar. E até a voz do rapaz se tornou-alvo: “Se você não falar mais alto, vou achar que você não é hétero”.

Em uma das conversas, a apresentadora perguntou: “Você se acha hétero?". O convidado respondeu: “Eu não me acho, eu sou hétero”. E Christina devolveu: “Mas você sabe que ela NÃO é mulher”. A conversa continuou, mas a transfobia foi detectada.

Thífany, que na primeira parte não apareceu, foi alvo em diversos momentos. Teve que ouvir mais de 20 vezes de maneiras diferentes que não era mesmo uma mulher – sendo que 18 delas esteve na boca da apresentadora. “Mulher que não era mulher”, “plateia percebeu que não é mulher de cara”, “porque não ficou com mulher mesmo?”, “você pensou que era literalmente mulher ou teve alguma dúvida”, “mas ela nasceu homem”, “o cara está com uma mulher entre aspas”, foram algumas delas.
Tema do programa desrespeita identidade da mulher trans e leva relacionamento com deboche

Em certo momento, após a apresentadora pedir novamente a opinião da plateia e dizer que ela percebeu que Thífany "não é mulher", a convidada esbravejou: “mas eu sou mulher e quero ver quem vai vir provar que eu não sou”. E Christina jurou de “pé junto” que o programa não tinha preconceito, dando a entender que ela estava irritada sem motivo. 

Deve ter esquecido (ou então sequer percebido) os tantos programas com conteúdo transfóbico que exibiu e da vez em que, ao promover uma "brincadeira" na atração para adivinharem quem era mulher cis e trans, colocou a palavra “homem” na frente de uma mulher trans. Não lembra? Olha aí...

Depois perguntou se ela tinha próteses de silicone, se havia passado pela cirurgia de redesignação sexual (genital), disse que Thífany era um barato e quaaase perguntou o que eles faziam na cama. Oiii??? Quando Thífany comentou que havia sido discriminada em uma empresa, Christina declarou que todo mundo sofre preconceito. 

GÊNEROS DIFERENTES

Este texto não tem a intenção de investigar se a história é verídica ou armada. Nem para defender os convidados que vão ao programa, que já deveriam estar cientes de como essa população é tratada. Tampouco acreditar que vão parar com esse tipo de conteúdo. Mas para ajudar na compreensão sobre o assunto envolvendo a orientação sexual de parceiros de pessoas trans e estas vivências. Afinal, tal abordagem só reforça a invisibilidade e o preconceito.

Primeiro, é necessário dizer que 
Célio é um homem cis – aquele que foi designado homem ao nascer e que está confortável dentro deste gênero atribuído. E que Thífany é uma mulher trans, que se identifica com o gênero feminino, sente-se mulher, vive enquanto mulher na sociedade e é uma mulher - independente do genital e do gênero atribuído a ela no nascimento.

Ou seja, são pessoas de GÊNEROS diferentes – ela é uma MULHER trans e ele é um HOMEM cis. E que, portanto, formam sim um casal heterossexual.

“Mas ela tem um pênis”, dirão. Sabemos que a sociedade costuma genitalizar pessoas para defini-las, mas cada vez mais entendemos que gênero é diferente de genital ("ninguém nasce mulher, torna-se", já dizia Simone de Beauvouir), e que nossas atrações sexual/afetiva estão mais ligadas à construção da pessoa em um TODO e não apenas a UMA PARTE. Certamente Célio se interessou por Thífany por seu gênero feminino, pela pessoa que ela é e o fato de ter ou não determinado genital pode ou não fazer parte dessa atração.

Detalhe: dizer que
 o parceiro de uma travesti ou uma mulher é gay, é o mesmo que dizer que ela é um homem. E isso seria esbarrar na transfobia e desrespeitá-la em sua identidade de gênero. Afinal, uma das maiores bandeiras da população de mulheres transexuais e travestis é que elas sejam respeitadas e referidas em seu gênero feminino e que tenham direito e acesso como toda e qualquer mulher cis. 



OUTROS MITOS

“Mas há muitos homens que são passivos”. Sabemos que nossa sociedade tende a fiscalizar o ânus alheio, mas não é uma prática que vai definir a orientação sexual. É com QUEM você está praticando. Há muitas mulheres cis que são ativas com os seus namorados cis por meio de vibradores e consolos – e o casal continua sendo hétero. Da mesma maneira que mulheres transexuais ou travestis podem ser passivas ou ativas com seus parceiros, e elas e eles continuam sendo héteros, se assim se definirem.

Ou seja, só seriam gays se fossem dois homens (cis ou trans) transando – e vale dizer que quem é apenas ativo também é gay.

“Mas trans hétero, não entendi”. Embora a comunidade LGBT esteja dentro de uma mesma sigla, nem todas as letras querem dizer a mesma coisa. Lésbicas, gays e bissexuais são categorias de “ORIENTAÇÃO SEXUAL” – ou seja, por quem você sente atração física ou afetiva. Já a letra T (das travestis, mulheres transexuais e homens tras) refere-se à categoria de IDENTIDADE DE GÊNERO – ou seja, como eu me identifico dentro das questões envolvendo gênero.

Embora as mulheres trans sejam conhecidas por lutar por sua identidade de gênero, elas também tem a sua orientação sexual, que pode ser hétero (caso se relacione com homens cis ou trans), lésbica (caso se relacione com mulheres cis, trans ou travestis), bissexuais (caso se relacionem com os dois)... No caso, Thífany é uma mulher trans (porque é esta a sua identidade de gênero) e é heterossexual (porque se atrai por homens e esta é a sua orientação sexual). 

CLASSIFICAÇÂO

Reconhecemos que as classificações ainda são cisnormativas e binárias, ou seja, levam em conta apenas a existência e a vida de pessoas cis. Nunca a de pessoas trans – que ao longo da história foram invisibilizadas, minimizadas e mortas. Mas apesar de dada a dificuldade, há vários debates, estudos e textos falando sobre o assunto e desmistificando essas questões.

Sendo assim, não há mais espaço para invisibilidades e transfobias. Sobretudo em um programa de televisão. Afinal, ao contrário do que dizem, pessoas trans não são meras ideologias. Elas existem, sempre existiram, vivem e convivem em sociedade. E merecem dignidade e respeito.


Ao fim, a psicóloga diz: “Fica evidente que vocês se gostam. Você se sente uma mulher, então ele é o seu homem. E acabou, fechou”. Thífany diz que, se fosse depender do preconceito do Brasil, viveria bêbada. E a psicóloga afirma que preconceito tem em todo lugar, mas que o mal do brasileiro é que ele não admite que tem preconceito. Não poderia terminar fazendo uma autocrítica da atração da melhor maneira possível.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

6 comentários:

Ígaro Cardoso disse...

Só retificaria o uso do termo "ORIENTAÇÃO SEXUAL" utilizado pelo redator, trocando-o por CONDIÇÃO SEXUAL, afinal de contas, ninguém é orientado nesse sentido. Parabéns pela reflexão, excelente texto e crítica.

LUNNA TBG disse...

Eu chamei atenção sobre este caso absurdo e transfobico...

Onde a tal psicologa Anahí D'Amico e a apresentadora Cristina Rocha soltava laudos de heterossexualidade e do que vem a ser mulher ou homem. Foi um absurdo o programa não respeitar a auto designação dos indivíduos dentro dos princípios da YOGYAKARTA a qual o Brasil também
assinou.

Unknown disse...

ÍGARO: ORIENTAÇÃO SEXUAL NÃO É NO SENTIDO DE QUE A PESSOA FOI ORIENTADA A SER ASSIM, MAS DE QUE ELA SE ORIENTA DESSA FORMA, COMO SE FOSSE O SEU NORTE, O SEU CAMINHO, EU ME ORIENTO DESSA FORMA...

Juliana Oliveira disse...

Orientação e o caminho q ela sai e se indentifica como trans,e vive assim.Condição é outra coisa,mais imposta,coisa de momento.

Frajolla disse...

Se é uma "condição" significa que a qualquer momento vc pode mudar e não é assim que a sexualidade funciona. Condição significa que, por algum motivo, vc faz aquilo e algum fator pode fazê-lo mudar.
Orientação é o correto. A orientação sexual é biológica e é determinada por fatores genéticos e desenvolvimento intrauterino.

Anônimo disse...


O PROGRAMA NÃO É SÉRIO E A SUJEIÇÃO É PROVAVELMENTE ARRANJADA

Quem vai para um programa como esse, conhecendo a apresentadora, na condição de transexual, sabe que não será bem tratado. O programa explora o grotesco. Não é sério. Não entendo como alguém pode se sujeitar a ir para um programa desses e chego a acreditar que se trata de uma encenação do grotesco, em que os participantes são pagos para estarem lá.

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