Pop e Art

Mulher trans em situação de rua relata vivências em curta-metragem, Elise


Por Neto Lucon

Quarenta e um por cento (41%) das pessoas trans negras já tiveram experiência em situação de rua, informa a pesquisa da National Transgender Discrimination Survey de 2011. Dentre elas, está a jovem Elise, de 22 anos, uma mulher trans negra heterossexual norte-americana que foi tema de um documentário homônimo.

Dirigido por Evan Sterrett e Jo Bradlle, o curta de 12 min e 3 seg foi exibido na quarta-feira (15) durante o Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, no Cinema São Luiz, em Recife Pernambuco. E emocionou ao contar a história da jovem, que foi expulsa de casa pela mãe aos 16 e que luta para viver em Whashington DC.

“(Após me assumir trans e passar a viver dentro do gênero feminino) foi como se todas as mulheres se afastassem de mim e os homens começassem a se aproximar”, declarou ela, referindo-se à rejeição de mulheres (cis) do círculo familiar e de amigos em paralelo ao assédio dos homens inseridos na profissão do sexo. "Foi um caminho difícil". 

O curador dos curtas internacionais Alexander Melo contou ao NLUCON que selecionou o curta Elise para o Recifest pela representatividade trans e negra e para evidenciar a transfobia que ocorre em outros países. “É um curta de 2015 que está relacionado com a realidade norte-americana, que após essa nova política tende a piorar. Pode ser, por exemplo, que mais pessoas trans fiquem sem abrigo. A transfobia é um problema mundial e as pessoas trans estão sendo esquecidas mundialmente, sobretudo quando são trans e negras”.

TRANSFORMAÇÕES

Durante o curta, Elise diz que trabalha na profissão do sexo porque "foi forçada" pela falta de oportunidades em outras áreas, devido à transfobia. “Por que você não pode simplesmente conseguir um emprego e, você sabe, um trabalho como todos os outros? Eu tive que ter um jeito de ganhar dinheiro e, sim, eu realmente recorri às ruas. E é para onde estamos indo", afirmou. 

No caminho, ela abre uma bolsa e mostra que carrega camisinhas, lubrificante, creme para as mãos, escova de cabelo e... Uma máquina de choque e uma soqueira, para se livrar da violência transfóbica. De acordo com a 
Coalizão Nacional de Programas Anti-Violência, 55% dos homicídios LGBTQfóbicos são contra as mulheres trans. Nas ruas, Elise está sujeita à toda violência.

Ela frisa que está na prostituição também porque consegue dinheiro rápido, sobretudo para comprar hormônios femininos. Eles não são oferecidos gratuitamente pelo sistema de saúde e, de acordo com ela, são caros
. "Eu também quero fazer uma sessão de laser para tirar os pelos. Quando fizer isso, vou me sentir uma grande garota". 

A jovem afirma, dentre outras particularidades, que pensa em passar pela cirurgia de redesignação sexual (genital) desde que tenha a garantia e esteja segura de que a cirurgia seja funcional. Ela diz, por exemplo, que por enquanto mulheres trans não podem engravidar. Mas que futuramente isso pode ser uma realidade.

NO ABRIGO, NA RUA


Elise mostra seu quarto em um abrigo - a Casa Wanda Alston, para jovens LGBT - e revela as suas intimidades. “O  meu quarto é bagunçado, não vou mentir, mas eu sei onde está tudo e acho que é melhor assim”, entrega com bom humor, destacando que até então estava acostumada a ter os seus pertences em sacos plásticos.

Ela declarou ainda que gostaria de ter uma vida corriqueira, sem que sua transgeneridade estivesse sempre em primeiro lugar e sendo alvo de preconceito. “Eu quero ter uma normalidade e não quero ser lembrada o tempo todo que sou trans”, disse.


Apesar de todo sofrimento e opressão, Elise frisa que não se arrepende de nada. "Vim de muito longe para voltar atrás agora. Eu não mudaria nada, pois isso me fez uma pessoa melhor, mais sábia, mais forte e mais bonita". Ao fim, o curta fecha na imagem de Elise na rua e traz dados alarmantes sobre a transfobia em que ela está inserida - que mencionamos ao longo do texto.

Assista ao curta abaixo e acompanhe a programação do Recifest clicando aqui.


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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