Entrevista

Diva Jane Di Castro fala sobre história de amor de 50 anos: "Sofrimento nos uniu"


Por Neto Lucon
Diretamente de Recife, a convite do Recifest

A atriz e cantora Jane Di Castro, 67 anos, é uma das grandes estrelas do filme “Divinas Divas”, dirigido por Leandra Leal, e que teve a estreia em Pernambuco na última semana, durante o Recifest – Festival da Diversidade Sexual e de Gênero, que ocorreu no cinema São Luiz, em Recife.

Jane esteve presente com Eloína dos Leopardos, foi ovacionada e homenageada. “Conheço Recife pelos shows que já fiz, mas é mais que uma honra participar de um evento tão especial como este e lançar um filme premiadíssimo e tão emocionante como esse”, declarou ao NLUCON.

Divinas Divas conta a história da primeira geração de artistas travestis e transformistas do Brasil, que completam 50 anos de carreira. Além de Jane, estão Rogéria, Divina Valéria, Camille K, Fukika de Halliday, Marquesa e Brigitte Búzios, que falam sobre suas trajetórias, o preconceito, mudanças corporais e arte.

Antes de iniciar a entrevista, Jane posou para nossas lentes e jogou o véu em menção à Sônia Braga – que recentemente estrelou o filme Aquarius, rodado em Recife - e que costuma repetir o gesto em estreias. Todos que aguardavam na fila viram a estrela brilhar e a abordavam para parabenizá-la pela história de resistência, superação, arte e... AMOR.


UMA HISTÓRIA DE AMOR

Sim, a obra também fala sobre a história de amor de Jane e o marido, Otávio Bonfim, com quem está prestes a completar 50 anos de união no Rio de Janeiro. Eles se conheceram quando Jane tinha 18 anos e ele 19 durante o show “Vem quente que eu estou Fervendo”, no Teatro Rival, em 1967.

Ao se conhecerem após o show, Otávio disse: “nossa amizade será eterna”. Apesar de Jane desconfiar num primeiro momento, principalmente porque não encontrava relacionamentos duradouros entre LGBT na época, ele estava certo.

Ele disse que a amizade seria eterna e
estão juntos há quase 50 anos
O depoimento do marido de Jane é um dos principais momentos do filme e provoca emoção no público, que literalmente chora com ele. “Nem eu acompanhei a gravação do Otávio, pois a Leandra não deixou. Ele também não me contou nada. Só depois é que assisti e que virei uma cachoeira. Vê-lo chorando e contando a nossa história fez passar um filme daquilo tudo que vivemos nos anos 60”.

Uma relação que enfrentou preconceito de familiares e amigos, e que chegou a ser noticiada em revistas e jornais da época. Em uma reportagem, Jane conta que ele chegou a ficar anos sem conseguir emprego por conta do preconceito. 

“Nada foi cor-de-rosa, nós sofremos muito. Mas acho até que foi por isso que acabou sendo duradouro, que nos fortaleceu. Sabe aquela coisa de ‘eles querem nos separar, mas nós não vamos permitir’? Acho que foi isso que sentimos”, conta.

Em um dos momentos, Otávio diz que sente muito orgulho do trabalho da esposa e chora. Em outro, surge na plateia do novo espetáculo, exatamente no lugar em que assistiu Jane na primeira vez. Ele caminha, leva flores ao palco e o público aplaude. Tanto dos que presenciaram ao vivo quanto aqueles que estavam na sala do cinema. “As pessoas me abraçam chorando e acho que Otávio virou até a estrela do filme (risos). As pessoas se emocionam com o que é de verdade”, conta.

Eles se casaram oficialmente em 2014, no Rio de Janeiro

NOSSO ATIVISMO ERA NO PALCO

Vivendo como artista transformista ou travesti desde os anos 50, Jane e suas colegas enfrentaram o forte período de ditadura, que ocorreu de 1964 até 1985. Elas não podiam andar nas ruas vestidas com trajes atribuídos ao gênero feminino, precisavam encenar os espetáculos primeiramente para os censores, nunca apareciam na televisão, e muitas vezes acabavam sendo presas, agredidas e mortas.

“Nossa geração foi libertária. Foi a que lutou contra a polícia e a política, pois tudo era contra a gente. Então a gente era contra eles. Foi muito difícil, fomos presas, apanhamos, ficamos sem trabalhar e enfrentamos. Eles diziam que a gente não podia andar vestida de mulher, mas a gente saía sim. A gente não tinha medo de apanhar ou de ser morta”, afirma.
"A gente não tinha medo de apanhar ou de ser morta"

Ela declara que o grupo de artistas passou a conquistar um pouco mais de respeito quando se apresentou e surpreendeu o público, que esperava uma imagem caricata. “Quando nós estreamos na época da ditadura, muita gente achava que iam ver apenas homens vestidos de mulher. Mas quando chegavam no teatro, diziam: ‘Meu Deus, são artistas, atrizes, cantoras’ e passaram a nos respeitar como artista. A gente tinha que mostrar dignidade, comportamento, política e talento”.

Com talento como atriz e cantora, Jane estrelou diversos musicais, foi dirigida por Bibi Ferreira (no espetáculo Gay Fantasy) e Ney Latorraca (Passando Batom) e chegou a se apresentar por todo o Brasil e no exterior. Ela também conciliou a carreira artística com a de cabeleireira e síndica do seu prédio. 


Jane frisa que foi a base de muita resistência que conseguiram promover alguns avanços na sociedade. E frisa que a maneira que elas se tornaram ativistas foi dando à cara a tapa nos palcos. “Antes de sermos artistas nós já lutávamos por essa liberdade. Não admitíamos sermos excluídas, sermos humilhadas ou sermos chamadas de anormal nas ruas. Isso nos revoltava e também nos fortalecia. O nosso ativismo foi em cima do palco. E, se não fôssemos nós lá atrás, não existiria Parada, festival Mix Brasil e tudo o que acontece com a comunidade LGBT”.

COBAIAS DOS HORMÔNIOS

A artista destaca também que o pioneirismo foi além dos palcos. Ela e suas amigas e colegas também foram as pioneiras a testar os efeitos de hormônios, silicones e outras transformações no corpo. “Fui a cobaia do hormônio, pois ninguém tomava na época”, declara.

“A gente não sabia se matava ou não, mas ao mesmo tempo a gente queria ser feminina, mulher. Informaram que o peito iria crescer se tomasse hormônio. E ele cresceu realmente, tomei um susto. Comecei a tomar e cada dia ele estava maior, até que teve uma época que eu falei: ‘chega, para, Jane!”, lembra.

A artista admite que foi uma loucura fazer a hormonização sem acompanhamento médico – apesar da inexistência de cuidados médicos na época. E observa a evolução da hormonioterapia no processo de transição de gênero ao longo dos anos. “Hoje em dia, elas têm essa possibilidade”, diz.


No filme, ela revela que Eloína a levou pela primeira vez para colocar as primeiras próteses de silicone.

O SUCESSO DE DIVINAS DIVAS

O filme Divinas Divas vem sendo aclamado em todos os festivais em que participa. Já venceu dois prêmios no Festival do Rio, pelo júri popular e o prêmio Félix, destinado aos filmes com temática LGBT. E foi premiado no Recifest em homenagem a Jane e Eloína, em reconhecimento à contribuição à cultura e direitos humanos.

Jane destaca a sensibilidade que Leandra Leal teve com todas as artistas. “Já recebi propostas para biografias, mas sempre preferi que minha história fosse eternizada no cinema. E Leandra, que nasceu na coxia do teatro, conviveu com a gente, foi a pessoa mais indicada para contar a nossa história. Tudo o que ela conta é muito verdadeiro e, como eu já disse, a verdade emociona”, declara.

A artista faz questão de ir em todas as mostras e festivais. E faz um convite a todas as pessoas, sobretudo a população LGB e de travestis e transexuais. “A gente precisa saber que os avanços que temos hoje se deve a todo mundo que batalhou lá atrás. Não olhar para o passado é não reconhecer a nossa própria história”, finaliza a divina diva, que merece muitos e muitos aplausos!


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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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