Realidade

Jô Soares derrapa na transfobia ao fazer defesa pelo terceiro banheiro


Por Neto Lucon

Na última temporada de seu programa, Jô Soares fez uma brincadeira considerada transfóbica em seu programa exibido no dia 21 deste mês pela TV Globo. Nela, o apresentador defende o uso do terceiro banheiro – pauta que não faz parte dos anseios da população trans - e desrespeita a identidade de gênero das travestis.

“Eu lancei, fazendo campanha pelo terceiro banheiro, a seguinte marca ‘masculino, feminino e transexo (sic)’. Na porta da minha sala tem isso, eu mandei botar porque eu acho uma injustiça não ter um banheiro. Faz parte da campanha pelo terceiro banheiro, que é justo que a pessoa tenha”, declarou, exibindo três placas de banheiro. Em uma delas, há uma com vestido e pênis.

Não satisfeito, ele continuou: “Se não, acontece o que aconteceu com o Paulo Silvino [humorista do Zorra Total] ... Ele estava lá no Rio, no Canecão (...) Chegou um (sic) travesti e ia entrar no banheiro das mulheres... Tinha uma senhora ao lado [que] falou: “Mas o senhor não tá vendo aqui o que tá escrito? SENHORAS!”... Ele (sic) falou: “E por acaso eu sou alguma puta?”. A plateia gargalhou. 

Jô só se esqueceu de pesquisar que a militância trans NÃO levanta a ideia da criação de um terceiro banheiro. Ao contrário, o terceiro banheiro é visto como um espaço de segregação e desrespeito a identidade da pessoa trans. O grupo defende a entrada no banheiro seja de acordo e em respeito à identidade de gênero (ou seja, como travestis são do gênero feminino que elas vão ao banheiro feminino) ou então que acabe as divisões do banheiro por gênero.

Esqueceu também que a população de travestis e mulheres transexuais defende o respeito integral à identidade de gênero, seja no uso ao banheiro das mulheres, no discurso e também tratamento. Ou seja, que sejam tratadas por artigos e pronomes femininos: “a”, “ela”, “delas”, “senhora” – o que não aconteceu no programa. E que tal desrespeito incentiva o desrespeito pela identidade construída, o preconceito e causam mortes.



Após o momento, ele disse que é preciso dar respeito às pessoas de todas as formas. Jô, comece escutando o que essa população tem para falar, antes de emitir opiniões e fazer piadas. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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