Pop e Art

Maestrina Júlia de Oliveira emociona com canto lírico e dá show de visibilidade trans


Por Neto Lucon (09/11/2016)

A maestrina, cantora lírica e professora de música
Júlia de Oliveira, que é uma mulher trans, mostrou todo o seu talento durante o II Workshop Regional da Rede Trans Brasil, que ocorreu entre os dias 21 e 24 do último mês em Uberlândia, Minas Gerais.

Júlia cantou à capella da música “L’amour est um oiseau rebelle” – conhecida na voz da cantora erudita norte-americana Maria Callas (1923-1977) - e emocionou a todos os presentes com sua bela voz. Com direito a bis. 

Natural de Juiz de Fora, Minas Gerais, a artista é formada em Canto Lírico pela Universidade Federal de Juiz de Fora. E trabalha atualmente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia e também no Conservatório Estadual de Música Haideé França Americano.

"Faço música desde que me entendo por gente. Minha família conta que meu primeiro 'espetáculo' foi  na noite de natal quando eu tinha três anos. Fizeram uma engenhoca e eu desci do teto pendurada cantando 'Noite Feliz'. Eles contam que foi lindo e emocionante. E eu não parei mais de fazer música", declara ela ao NLUCON.

Júlia sempre teve uma voz afinada e bonita, mas o fato de ter feito aula de canto e trabalhado a voz durante o processo transexualizador a proporcionou uma voz única. "Por conta das mudanças hormonais, tanto as naturais da puberdade masculina quanto às mudanças do tratamento hormonal feminino e cirurgias, eu consegui adaptar tudo. Hoje conto com a graça divina de ter quatro oitavas de extensão vocal. Praticamente a terceira maior voz do mundo, como diz minha professora de canto. Consigo cantar com voz 'masculina' também", diz.


Assista à performance:




PROFESSORA E MAESTRINA

Apesar do talento, Júlia demorou a se profissionalizar na música e passou por outras áreas. "Nem sempre a música é uma profissão respeitada. Estudei outras coisas para me garantir profissionalmente e financeiramente. Fiz contabilidade, veterinária e até trabalhei na área. Na época do nascimento do meu filho, voltei a fazer Conservatório de Música e fui encontrando espaços na música, principalmente no canto erudito (lírico) e na regência". 

No bate-papo do workshop, Julia afirmou que não deixa que o fato de ser trans “fale mais alto” em sua profissão. E que, apesar de já ter enfrentado preconceito na carreira de professora com novos alunos, consegue “desarmá-los” com respeito e profissionalismo. “Já disseram: 'não quero ter aula com traveco'. Mas naquele momento mostro que sou uma professora como qualquer outra”, declarou.

Júlia já regeu mais de 100 instrumentistas
Ela conta que já deu aulas para alguns alunos e alunas trans e que o contato é sensível e importante. “Tenho um aluno que é homem trans que, de tanto engrossar a voz, acabou comprometendo as cordas vocais. Daí faço um trabalho especial para que ele não prejudique tanto e que consiga utilizar a voz dele, que é linda, da melhor maneira”, afirma. 

Júlia também é maestrina e esteve em frente de grandes orquestras em Minas Gerais. “Já cheguei a reger cerca de 100 instrumentistas. Era um projeto do Conservatório da cidade chamado Coral do CEM (Conservatório Estadual de Música Haydee França Americano) com alunos e pessoas da comunidade escolar. Foi uma grande surpresa quando o projeto alcançou mais de 100 pessoas e a sala ficou pequena para todos”, comemora.

Os aplausos voltaram a percorrer e fazer parte da sala formada em sua maioria por travestis, mulheres transexuais e homens trans, demonstrando orgulho pela representante trans simplesmente arrasar no talento e na profissão.


Assista outras apresentações:







About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Layssa Oliveira disse...

Uma das melhores professoras que já tive!

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