Pride

Morre Marcia Medeiros, ícone da beleza trans dos anos 2000


Por Neto Lucon

Morreu neste fim de semana a mulher transexual Marcia Medeiros, profissional do sexo, porn star, cabeleireira e ícone de beleza dos anos 2000. Marcia estava com 36 anos e, de acordo com familiares e amigos, foi encontrada morta após cometer suicídio em São Paulo.

A informação foi dada pelo irmão mais novo dela, Kelvin, e confirmada por amigas próximas, que lamentaram a triste perda nas redes sociais.

Marcia foi um dos símbolos de beleza trans, sobretudo nos anos 2000. Natural do Paraná, ela foi considerada uma das mais belas de São Paulo, onde morou desde os três anos. Além dos comentados ensaios e filmes de conteúdo adulto, teve destaque na televisão em programas de auditório.

Ela aparecia em programas de TV
e encantava com sua beleza
Figurou em programas de Sérgio Malandro, na TV Gazeta, em que ora ela elogiada pela beleza ora era encarada como pegadinha. Após algumas participações, se negou a participar de tais quadros, pois os considerava preconceituosos demais.

Também esteve no filme “Na Praça Rossevelt”, de Rodolfo Garcia Vásquez e Carlos Ebert, onde falava sobre a vida amorosa. E no ensaio TransAfrica, de Claudia Guimarães, styling de Dudu Bertholini e vídeo de Dácio Pinheiro.

Nos últimos anos Márcia esteve longe dos holofotes e não fazia questão nenhuma de aparecer na mídia e tampouco dar novas entrevistas. Certa vez, agradeceu o convite de uma entrevista ao NLUCON, mas disse que não estava em uma boa fase para aparecer ao público novamente.

Amigas relatam que ela enfrentou sérios problemas e esteve numa fase bastante conturbada envolvendo drogas. Porém que neste ano ela conseguiu se recuperar e aparentemente retomar a vida. 
Com novo visual, Marcia havia acabado de se formar em cabeleireira, iniciado o trabalho no salão e parecia estar mais feliz. Até mesmo a beleza que a tornou conhecida parecia revigorada. 

A repentina morte chocou amigos, familiares e admiradores. De acordo com o irmão, ela foi enterrada no Cemitério Municipal de Suzano, São Paulo.
Marcia nos últimos anos

HISTÓRIA

A trajetória de Márcia é semelhante a de muitas travestis e mulheres transexuais. Ela afirmou em entrevista a Paulinho Cazé, e Maite Schneider, do site Casa da Maite, em 2004, que desde pequena adorava brincar com bonecas e estar entre as amigas cis. Por outro lado, enfrentava piadinhas, xingamentos e passadas de mãos dos meninos.

Para ela, não havia nada a se assumir. Ela sempre foi. Mas tudo ficou mais nítido quando viu Roberta Close na televisão. Havia um nome para o que ela era. E resolveu falar que é uma "mulher transexual" aos 17 anos, no dia 6 de setembro de 1999. Ou seja, “um dia antes da independência do Brasil eu declarei a minha”.

Para a sua surpresa, a família a acolheu e até a mãe, que era bastante religiosa, disse que o amor estaria acima de tudo. Ela se emocionava quando falava da relação com eles.


A primeira relação sexual também foi aos 17, logo em um programa. Segundo Márcia, foi horrível porque o cliente ignorou que era a primeira vez e não foi nada carinhoso. Marcia afirma que entrou na profissão do sexo porque não tinha condições financeiras para iniciar o processo transexualizador e nem oportunidade no mercado de trabalho para dar continuidade em seus sonhos. 


Não demorou muito para perceber que muitos homens com quem sairia eram hipócritas. “Eles são capazes de dizer que nos amam e eu pergunto: que amor é esse que tem vergonha de assumir? Pelo que aprendi, sendo nós femininas ou não, seremos sempre motivos de vergonha. Para mim, vergonha é ser covarde. Enquanto essa hipocrisia não acabar o preconceito vai continuar vivo e falso”, declarou.

E ao falar sobre preconceito e direitos LGBT, ela mostra ser muito mais que um rostinho bonito. Defendeu que a profissão do sexo deve ser regularizada, que casais LGB devem ter o direito de adotar e até fez uma crítica frente a um episódio transfóbico que sofreu. Márcia havia sido barrada de entrar em um hotel ao apresentar seus documentos.

“Disseram que não era mais permitida a entrada de travestis, pois uma havia armado barrado. Argumentei que paguei sem ter culpa. Aí me ficou a pergunta: será que se uma garota de programa (cis) armasse um barraco eles também iriam proibir a entrada das demais?”, declarou. Ela pensou em processar, mas temeu que a transfobia institucionalizada falasse mais alto.


Com a amiga Danyella di Biaggio, que também
participava de quadros na TV
Nos anos 2000, foi convidada para participar de programas de televisão. Mas se por um lado ela era valorizada como uma mulher transexual linda, por outro a sua beleza a fazia ser encarada como uma "pegadinha". Não foi por acaso que Sergio Malandro trouxe Marcia para a TV em seus quadros com brincadeiras são consideradas transfóbicas.

Após algumas participações, Marcia se negou a participar do programa. E ao longo dos anos, embora tenha protagonizado ensaios e vídeos adultos, foi preferindo evitar a exposição. E passou por um período complicado em sua vida particular, até aparentemente conseguir se recuperar.

Na entrevista em 2004, ela se definia verdadeira, boa de coração, sincera e extremamente simpática. E diz que seus sonhos giravam em passar pela cirurgia de redesignação sexual (genital), casar, cursar uma faculdade e ter filhos - desejos que ela não conseguiu conquistar na tal sociedade hipócrita. Para ela, o que mais dava prazer na vida era vive-la intensamente, sem medo, vergonha e preconceito de nada. E o que mais a desestimulava era saber que as pessoas não viviam assim. 


Marcia, presente!





Transafrica from Dacio Pinheiro on Vimeo.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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