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Rede Trans contabiliza pela 1ª vez mortes por transfobia e pedirá intervenção de órgãos internacionais


Por Neto Lucon

Neste ano, a Rede Trans Brasil começou a contabilizar pela primeira vez o número de assassinatos contra travestis, mulheres transexuais e homens trans no país. O número serve de subsídio para a ong internacional Transgender Europe, que considera o Brasil o país que mais mata a população trans no mundo.


Até a terça-feira, 1º de outubro, 117 travestis, mulheres transexuais e homens trans foram assassinados. Dentre elas, Jenifer Toledo, de 27 anos foi asfixiada na segunda-feira (31) no centro de Balneário Camboriú. Bellah Soosa foi encontrada morta no dia no domingo (30) na rodovia 183, em Carité, Ceará. No sábado (29), uma travesti não identificada foi queimada em Belo Horizonte.

Durante II Workshop Regional da RedeTrans Brasil, que ocorreu entre os dias 21 a 24 de outubro, a presidenta Thatiane Araújo declarou que, apesar de todos terem ideia do alto número de pessoas trans assassinadas, mediante aos relatos e reportagens, faltava um dado confiável e oficial para servir de subsídio na luta contra a transfobia, na cobrança de políticas públicas voltadas para essa população. E para servir de base e confrontamento em espaços que discutem violações de direitos humanos.

“Já cansamos de ir a reuniões, conferências, congressos e posar para foto com político. Eles já sabem qual é a cara de uma travesti e nada acontece. Agora a gente quer que alguma coisa seja realmente feita contra essa violência e, para isso, precisamos de números que não tínhamos. Com esses dados mapeados pela RedeTrans a gente terá subsídio para fazer a cobrança. Mostramos esses números, damos um choque de realidade e colocamos a responsabilidade nas mãos deles”, afirmou.

O mapeamento servirá para cobrar autoridades brasileiras sobre a transfobia no Brasil. E também para solicitar que organizações internacionais se atentem para a violência que a população trans é submetida e ignorada no país.



MORTES DE TRAVESTIS CONTABILIZADAS COMO DE HOMOSSEXUAIS

Thatiane frisou que anteriormente os dados era mapeados por grupos formados majoritariamente por homens gays cisgêneros, que muitas vezes não demonstravam sensibilidade à causa trans e que não respeitavam a identidade de gênero dessa população. De acordo com ela, muitas das mortes de travestis e mulheres transexuais eram contabilizadas como sendo mortes de homossexuais.

“A gente ia lá ver a matéria contabilizada como homossexual e estava lá: ‘Morreu rapaz de 18 anos em Pernambuco... E depois de ter falado a desgraçada toda, tava lá no fim: ‘estava com roupas femininas e tinha o codinome de Gretchen’. E a gente ia olhar a foto e a pessoa tinha quadris largos, o peito na bandeja. Ou seja, prejudicaram a população trans por um bom tempo”, disse.

A presidenta afirmou também que até março deste ano todos os casos envolvendo mortes de travestis eram contabilizados pelo Disque 100 como sendo do gênero masculino. “Sabe o que isso significa? Que quando chega nas mãos dos gestores, eles falam sem olhar profundamente: ‘quem está morrendo mais é o gênero masculino, é o gay cis’, porque o homem trans é contabilizado como gênero feminino. E nem cogita que a travesti está no meio, porque elas se reivindicam do gênero feminino. E ninguém se atenta que a travesti está morrendo”.

Ela afirmou que a Rede Trans está pela primeira vez fazendo o dever de casa e colhendo dados para pode cobrar de maneira mais eficaz. “A gente não pode esperar que o outro vá pensar na nossa dor, esperar que o outro vá procurar a verdade de uma matéria para não invisibilizar as trans. A gente está fazendo o nosso dever de casa”.

NÃO SÃO APENAS NÚMEROS

Todos os casos são vistos, checados e contabilizados pela militante e professora Sayonara Nogueira e o seu marido, o professor Euclides Afonso Cabral. Eles são obtidos por meio de pesquisas em sites de busca, matérias jornalistas e denúncias. “Tudo baseado em fontes, dados e referências”, declarou.

Além do monitoramento dos assassinatos, a Rede Trans também contabiliza os suicídios de pessoas trans, tentativas de homicídios e violação de direitos humanos. Todos os casos estão disponibilizados no site da Rede Trans Brasil e podem ser vistos clicando aqui.


Sayonara afirma que todo mês os casos são passados para uma planilha do Excel, as matérias são transformadas em PDF e tudo é passado para a ong Transgender Europe. “No fim do ano vamos escrever um texto em várias mãos e vamos fazer um relatório final onde vai ser cobrado dos organismos internacionais uma intervenção dentro do país, já que o governo não faz nada”.

Sobre o trabalho, a professora e o marido afirmam que ficam chocados com os casos e passam noites sem dormir. “Não é fácil a gente se deparar com esses casos e receber as fotos da vítima. Um assassinato de travesti nunca é com um tiro e pronto. É com vários tiros, com o genital queimado, com várias facadas... É um crime de ódio mesmo”, afirma Euclides.

Sayonara lamenta as mortes de travestis, mulheres transexuais e homens trans no Brasil e também fala sobre a invisibilização destes crimes em outros lugares do mundo. “A gente percebe que na Uganda, que criminaliza, os dados são de uma ou cinco mortes por ano. No Paquistão, onde faço capacitação, não há nenhuma morte notificada. Mas eu vi casos de travestis que foram queimadas e assassinadas lá, mas que se você for buscar na mídia, você não encontra o caso. Ou seja, a gente sabe que existe, mas ela não é divulgada”, disse.

Assista: 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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