Entrevista

“Sociedade nos cobra em dobro”, diz universitária travesti Rebecka de França


Por Neto Lucon

A universitária e militante potiguar Rebecka de França, 31 anos, é uma travesti consciente, resistente e que nasceu com o dom de ensinar, educar e dar aulas. Atividades que ela admirava e se inspirava nas professoras desde quando estava no ensino médio.

Porém, num país com latente transfobia e num estado conhecido como o terceiro mais violento do Brasil, ela teve que batalhar muito, se subsidiar de muita informação e ter um empenho quase sobre-humano para que pudesse seguir sua vocação.

Em sua trajetória, enfrentou portas fechadas no mercado formal de trabalho, barreiras para ter as suas habilidades reconhecidas, foi empurrada para a margem e chegou a fazer trabalhos escolares enquanto estava nas esquinas.

Hoje, Rebecka é estudante do 4º período de geografia no Instituto Federal de Ciências, Educação e Tecnologia do RN, é estagiária pelo Instituto Euvaldo Lodi na Escola Municipal Ferreira Itajubá e bolsista do Programa de Incentivo a Bolsistas de Iniciação a Docência na Escola Professor Francisco Ivo Cavalcante. Além de ser fundadora da organização Atransparência.


Ela foi eleita coordenadora geral do CA de Geografia
Em entrevista sincera ao NLUCON, Rebecka revela o contato com colegas de faculdade, desafios da profissão, transfobia, contato com os alunos e o medo após o estágio e a bolsa acabarem. Ela diz que ainda hoje precisa resistir à transfobia. Confira:


- Estudando geografia e atuando como militante, o que poderia falar sobre a realidade que a população trans vive e enfrenta no Rio Grande do Norte?

O Rio Grande do Norte foi classificado como o terceiro estado mais violento do país e o primeiro da região nordeste, violência herdada pela influência do machismo e do coronelismo presentes na nossa região. É muito perigoso ser LGBT no nosso estado, mais difícil ainda é ser travesti e transexual e desafiar essas leis impostas por esse patriarcado arcaico que insiste em nos oprimir. Talvez por eu ser uma figura pública e está sempre nos meios de comunicação divulgando esses números o preconceito seja mais sutil comigo, mas com meus irmãos LGBTs já não tem a mesma sorte. No estudo desenvolvido pela Rede Trans, instituição em que eu atuo, já foram 7 transexuais mortos esse ano, sendo 1 por suicídio. Estes dados estão presentes dentro das 127 mortes ocorridas até agora no Brasil.

- E alguma coisa está sendo feita para combater a LGBTfobia e sobretudo a transfobia no estado?

Não, ainda temos muito que avançar. Amargamos não termos sequer um conselho estadual ou municipal LGBT. Viver no nosso estado onde não existe sequer um órgão específico para tentar viabilizar as políticas públicas para este contingente populacional é amargar o esquecimento e retardamento de algo tangível e real. Para mim, a primeira coisa que precisa ser feita é ter um de nós no poder, para que a população entenda o quanto sofremos com tudo isso e o quanto somos vítimas de fato.

- Como se deu a vivência trans no Rio Grande do Norte?

Desde a minha infância sempre gostei de cor de rosa, de brincar com meninas e de estar com elas nos espaços. Sempre acompanhei a Xuxa na Globo e a Angélica na Manchete. Eram minhas inspirações e eu sabia coreografias e músicas de ambas. Foi através delas que comecei a descobrir o quanto era feminina e queria ser menina. Porém sempre fui reprimida, pedia bem cedo para deixar o cabelo crescer e era um sacrifício para cortar. Fazia de tudo para fugir do barbeiro (risos). Mas na hora certa consegui expor toda minha feminilidade e transpor a barreira do preconceito e ser a Rebecka que vocês conhecem hoje. Na verdade, acho que apenas retardei meu processo transexualizador. No final dos 90 para o começo dos anos 2000 ainda era um pouco constrangedor ser trans. As pessoas ainda viam com maus olhos, ligavam muito a prostituição.

- E qual é a sua opinião sobre a profissão do sexo?

Sou totalmente a favor da prostituição, só não gostaria que ela fosse a única alternativa de sobrevivência. Nunca tive muito sucesso na prostituição, porque até para se prostituir precisa de uma dedicação, com horários, alimentação e disposição. Não é só chegar no local indicado e esperar rios de dinheiro caírem nas suas mãos. Gostaria que as travestis pudessem optar se queriam está na prostituição ou no mercado formal de trabalho, como outras pessoas, e claro que pudessem ser contratadas sem deixarem suas essências...


- Quando você revelou ser uma travesti, estar em uma faculdade, fazer um estágio e estar inserida no mercado formal de trabalho eram possibilidades reais ou era algo que você nem imaginava?

Já na minha construção como trans, lembro de pesquisar as travestis que não trabalhavam na rua se prostituindo. E uma delas foi a minha professora no ensino médio, a Shala Cambatta, que dava a disciplina de sociologia na mesma escola onde hoje sou bolsista. Em 2002 ou 2003, quando eu cursava o ensino médio, sempre almejei um trabalho formal, mas infelizmente como somos empurradas para fora do mercado formal de trabalho não consegui muitas experiências exitosas. Sinceramente, já me preocupo com o final do curso, onde prevejo meus colegas de sala trabalhando numa escola, e eu desempregada por conta da transfobia. Espero muito que não seja assim, pois sempre sonhei em atuar no mercado formal e não me dei por vencida. Por isso que hoje estou aqui.

- É verdade que existiu um momento em que você teve que conciliar a carreira na profissão do sexo com outros trabalhos?

Na verdade eu nem queria entrar no mercado do sexo, eu fui empurrada. Trabalhava na gestão da prefeitura como cargo comissionado, e minha prefeita perdeu e eu tive de sair. Amarguei muito tempo sem emprego, e logo em seguida não tinha outro caminho a não ser me vender. Foi duro e triste, pois durante minha adolescência - onde a maioria entra nesse caminho - fiz de tudo para não entrar nele, tentando me adequar e sobreviver sem precisar dele. Porém com o tempo isso foi se afunilando e eu tive que experimentar a rotina noturna das ruas. Claro que todos os dias eu orava para aquilo passar logo. Tentei ENEM várias vezes, mas como eu não estudava um cursinho antes de fazê-los minhas notas não eram tão boas. Quando passei no curso, ainda tive de conciliar nos primeiros períodos que estava transitando entre a faculdade e as ruas. Levava textos e trabalhos e fazia ali nas esquinas esperando o próximo cliente.

- E como conseguiu mudar?

Tive ajuda de algumas pessoas que me ajudavam com as passagens, dentre elas posso citar o Gustavo Rodrigues, de São Paulo, que fez uma entrevista comigo quando eu morava em SP e começou a gostar da minha luta. Desabafei que não tinha mais como continuar, precisava pagar xerox, passagens e ele fez uma vaquinha com os amigos dele e me conseguiram 150,00 para me ajudar. Depois fez outra vaquinha e com isso consegui me manter nos dois primeiros períodos, até passar na bolsa e conseguir o estagio que remuneram com quantias simbólicas, mas que já são uma ajuda e tanto e que me deixam longe das ruas.

- Por qual motivo escolheu o curso de geografia?

(Risos). A geografia que me escolheu. Com a geografia posso estudar a minha população, posso mostrar a região que vivo, posso identificar violências, ataques, taxas de suicídio e a LGBTfobia, através das estatísticas posso falar e comprovar. A geografia é uma ciência que abraça a população e não fica só vendo e contemplando mapas. A geografia é tão ampla que me conquistou, foi um namoro que começou ainda na antiga 5ª série e se perdurou por muito tempo. Lembro de me debruçar por livros de geografia e ficar olhando os mapas e decorando por mim mesma as regiões, vegetações, climas, relevos, hidrografias, capitais, estados, continentes. Enfim, primeiro fui conquistada pela geografia física e depois a geografia humana me encantou.

- O seu contato com os colegas da faculdade sempre foi positivo? Vi em uma entrevista que no primeiro dia existiu o medo de sofrer transfobia...

Cheguei na instituição com medo do que poderia acontecer comigo. Mas minha turma foi muito especial e entenderam de cara todo o preconceito que já sofri na vida. E me entendem e aceitam como sou. Nunca perguntaram nada do que as pessoas costumam perguntar, como ‘você é operada’, ‘qual seu nome verdadeiro? ’, ‘como você esconde seu pênis?’. Sou muito sortuda por estar em uma turma onde sou Rebecka e que, sem eu precisar explicar, sempre usaram os pronomes e artigos corretos comigo. Já me dá tristeza de lembrar do fim do curso. Me emociono antes do dia chegar.


- Você acaba de ser eleita coordenadora geral do Centro Acadêmico de Geografia. Como se deu a vontade de se candidatar e como foi essa vitória?

A ideia foi de alguns companheiros de sala. Eles montaram uma possível chapa onde eu encabeçaria se houvesse outras chapas. Mas como fui aprovada por aclamação, não foi necessária a disputa. Eles tiveram a ideia de revitalizar o CA, mas achei que seria um cargo secundário, como secretária, tesoureira ou diretora de eventos. E eles me surpreenderam quando falaram que eu seria coordenadora por conta da minha luta e da visibilidade positiva que tinha, além da minha personalidade conhecida no campus como ‘alguém que corre e luta por tudo que deseja’.

- O que representa ter sido a primeira travesti estudar no espaço e conseguir, mais que respeito dos colegas, incentivo e reconhecimento pelas suas habilidades?

Representa a continuidade de um sonho. Eu já me candidatei a vereadora na minha cidade, mas não obtive êxito e ainda fiquei inadimplente, porque o partido não prestou minhas contas. Assim, deste 2012 eu já me dispunha a representar a população LGBT e os demais que sentissem representados por mim. Na faculdade, a surpresa de ser eleita foi justamente não haver nenhuma objeção e ter o reconhecimento dos veteranos do curso e dos professores. Todos concordaram com meu nome.

- Como foi fazer estágio com alunos do ensino médio e fundamental? Como foi o primeiro dia?

Cada dia foi um dia completamente diferente. Com o pessoal do ensino infantil, me tremi bastante, fiquei com a garganta seca e a voz tremula. Porém eles me receberam com muito carinho e afeto, me abraçam, ficam tristes quando não me veem. No primeiro dia de aula, eles não fizeram muita questão de eu ser trans, mas acho que eles nem perceberam (risos). Depois de quase um mês é que eles foram notando algumas diferenças e questionando. “Porque sua voz é diferente?” “É normal mulher ter pelos no rosto?” “como fiz pra ter seios?”. Enfim, me bombardearam de perguntas que a sociedade adora fazer. Mas como estamos proibidos de falar de “gênero” nas escolas graças aos nosso planos estaduais e municipais, não entrei muito no assunto. Preferi sair pela tangente.

- E no ensino médio?

Foi onde eu achava que seria mais rápida a minha aceitação, mas foi onde eu obtive algumas surpresas. No primeiro dia de aula, coloquei bem grande no quadro as letras “LGBT” - uma metodologia que aprendi com uma amiga chamada Karen, que mora em Porto Velho-RO – e pedi para cada um identificar o que conhecia sobre cada letra. Advinha qual foi a letra mais bombardeada, escrachada e que sofreu mais? Com certeza a “T”. Em uma das cartas, uma menina falava que ser “travesti, era questão de opção, que eu poderia simplesmente abandonar minhas roupas femininas e minha identidade de gênero e me comportar com as características do sexo biológico que eu tinha”. Enfim, você vê como é importante o debate de gênero? Pois guardei essa cartinha para ler e explicar mais sobre a vivência no nosso último dia de aula. Ela não perde por esperar.

- Como é dar aula para você? É uma experiência que te dá prazer?

Na verdade eu digo que já nasci com esse dom. Não sei como, mas consigo prender a atenção dos alunos. Deve ser pela minha identidade de gênero causar curiosidade, daí eles prestam atenção em mim (risos). Enfim, dar aula e compartilhar o conhecimento é tudo o que sei fazer e faço com muito carinho.


- Em algum momento houve questionamento e alunos ou de pais referente à sua identidade travesti?

Não. Tem um episódio envolvendo uma aluna que detém um tipo de deficiência e que, ao notar que ela tinha poucos amigos, me aproximei dela. Recebia todo o carinho dela, mas ela começou a me chamar para frequentar os cultos de sua religião. Eu não estava entendendo onde ela queria chegar, até que um dia ela chegou muito irritada e disse que não me abraçaria mais porque eu estava condenada a ir para o inferno. Certamente foi orientada pelos seus familiares ou religiosos que não estavam satisfeitos com a nossa amizade – não sei quem de fato, pois ela possui uma irmã que nunca comentou nada disso. Fiquei bem angustiada por alguns dias e tentei me afastar dela. Mas como ela é bem solitária e carente de amigos, ela mesma me procurava e eu tentava me esquivar para que não plantassem mais maldades no coração daquela criança. Hoje, continuamos amigas. Superei isso, foi a única coisa que aconteceu nesse período até hoje.

- Como é o contato com os outros profissionais da escola: professores, diretores... ? É verdade que não enfrentou problemas em relação ao nome social?

Pois é, nunca enfrentei, apesar de não ter meu nome e nem meu gênero retificados na documentação, sou muito bem tratada por “professora Rebecka”. Na escola todos me tratam assim, dos profissionais que cuidam da limpeza até a direção. Tenho muito orgulho e carinho da escola que atuo e ajudo a construir.

- Tem outra história dentro da sala de aula que gostaria de contar? Quais são os seus atuais desafios na profissão?

Acho que me desafio será quando terminar o curso, por enquanto estou literalmente “forçada” dentro das salas. Uma por conta do estagio que é obrigatório e outra por conta da bolsa. Ao me formar quero ver a escola que me contratará, temo em ver meus amigos se formando e entrando em escolas para dar aulas e eu ficar para trás. Assim é a nossa sociedade, sempre excluindo os diferentes e quem foge dos padrões impostos por ela.

- Durante o Workshop da Rede Trans em Uberlândia, você disse que já chegou a ser questionada quando entrou no mercado formal, que alguém disse que você “Não tinha capacidade de fazer aquele relatório” que entregou. Esse tipo de descrédito à pessoa trans é real?

Ah, sem dúvida. Você é julgada antes mesmo de mostrar o seu trabalho. É algo que você engole seco. Quando estou certa e me tiram do sério, fico muito inquieta. Naquela hora em que duvidaram que o relatório havia saído das minhas mãos, tive que fazer muitos outros para poder comprovar a minha competência. Para nós, travestis e transexuais, tudo é comprovado em dobro. Se as pessoas cis são boas no que fazem para a sociedade, nós precisamos ser as melhores. É uma cobrança dobrada e injusta, pois nem todas estudamos em escolas boas. Por exemplo, saí do ensino médio sem noção alguma de física e química, pois não tínhamos professores na área e hoje sinto as dificuldades de não ter visto estas matérias. Ou seja, para sobreviver nesta sociedade preciso dar um jeito de aprender essas disciplinas, nem que seja por conta própria. É o que a sociedade faz conosco, joga a demanda e não está nem aí para nos ensinar. Mas quer o retorno em instantes.


- Em sua opinião, é importante falar sobre gênero nas escolas? Por qual motivo?

Sem dúvidas, o estudo do gênero foi o que proporcionou à nossa volta as escolas e nossa entrada no ensino superior. O respeito ao nome social e a entrada no banheiro de acordo com o gênero foram avanços primordiais para existir uma qualidade melhor na vida das travestis e transexuais que querem adentrar de volta as escolas e universidades. Com a retirada deste tema das discussões da sala, a nossa população sai perdendo, e quando falo na população, falo de todos que estão nas salas de aula destas instituições. Proporcionar um ambiente acolhedor para nossa população seria o mínimo que o governo poderia nos garantir, uma população historicamente excluída e massacrada. Desta forma alguns fundamentalistas religiosos, colocam suas religiões para nos menosprezar e retirar os poucos direitos que temos - no nosso país não temos quase nenhum direito a não ser o nome social e mesmo assim desrespeitado diariamente.

- E o que teria para falar sobre “ideologia de gênero”, termo tão propagado por fundamentalistas para barrar a discussão sobre gênero?

Essa conotação que criaram como “Ideologia de Gênero” foi algo para que as pessoas com pouco entendimento seguisse a instrução dos seus lideres religiosos sem ao menos questionar o que viria a ser. Acham que é algo que a ideia é de que seus filhos iriam se “transformar” em LGBTs. Sabemos que não é assim. Discutir gênero é orientar professores a lidar da melhor maneira com essas demandas dentro da sala de aula. Sabemos que uma criança LGBT sofre bullying, é perseguida e quase sempre abandonam as escolas por não serem entendidas. Espero que a sociedade um dia se arrependa deste crime. O que me entristece é que vemos mulheres cis defendendo o combate a “ideologia de gênero”, quando sabemos que a sociedade é machista. Elas esquecem que quando falamos de gênero é a própria mulher (cis) ou a pessoa do gênero feminino é que serão beneficiadas. Mas ninguém explica isso.

- Você também já foi aluna. Como foi o período escolar para você? Teve algum professor ou professora que tenha te marcado positivamente?

Sim, poderia citar todos, tive sempre uma relação de paixão pelos meus professores, e todos sempre retribuíram esse carinho. Alguns deles posso citar aqui: Vanda de português - fiz ditados de palavras com ela da 5ª série até o 3º ano do ensino médio (risos). No último dia de aula ela me deu uma blusa cor de rosa que parecia o formato de asas de borboleta. Eu sempre rabiscava borboletas nas provas e escrevia de cor de rosa, até hoje lembro com imenso carinho dela. Outra que me influenciou na escolha da Geografia foi a Sivanira, que todos reclamavam dela dando aula de geografia, falavam que era muito carrasca, mas sempre absorvi essa disciplina com muita facilidade.

- Após se formar, quais são os caminhos que pretende seguir? Você pretende continuar dando aula?

Pretendo dar entrada no meu mestrado e logo após doutorado. Quero ver qual será a desculpa que vão me dar para não me contratarem.

- Você também é militante, certo? Como se dá a sua atuação na ong Atransparencia?

É difícil militar, estudar um curso superior, estagiar e fazer parte de uma bolsa. Imagina só meu dia, acordo às 5h, saiu às 6h45 para o estágio e fico lá até 11h. Daí vou para casa, durmo um pouco e saiu para a bolsa das 14h às 17h. Pego o ônibus e vou direto para o curso de licenciatura em geografia no IFRN das 19h às 22h. Quando termina a aula, pego o ônibus e chego em casa quase 23h. Nesse período uso para fazer as atividades, estudar os textos, publicar algo na página da ATRANSPARENCIA – Associação de Travestis e Transexuais Potiguares na Ação pela Coerência no Rio Grande do Norte. Dentre esse período me convidam a palestrar e fazer algumas falar nos eventos referentes à população LGBT ou ainda participar de ações do governo. Arranjar tempo para militar é quase um milagre. E ainda assim, quando digo que não posso ir a um evento, dizem que estou com “estrelismo”. Infelizmente tive que reduzir drasticamente minha participação no movimento social devido a essa correria, que caracteriza minha sobrevivência. Conciliar tudo tem sido duro, mas necessário, pois não não deixar de lado o que me proporcionou estar onde estou.



- Em sua opinião, qual é o principal direito que uma travesti, mulher transexual e homem trans devem ir atrás?

Deveriam primeiramente se empoderar para correr atrás de qualquer coisa. Você acredita que até para usar o nome social eu tenho que ir em escolas para explicar que é uma ordem e não um pedido? As pessoas travestis e transexuais muitas vezes não atendem o chamado do movimento social e se capsulam numa bolha que até nós mesmos temos dificuldades de furar. Lembro que pra ter a participação do meu publico em eventos, muitas vezes preciso tirar do bolso pra pagar passagens, taxi e uber pra que assistam as palestras e se empoderem para as atrocidades que a sociedade pode tentar fazer elas passarem. Então o primeiro direito que a chave de tudo na minha opinião seria o CONHECIMENTO, entender que nada que o que você pede é seu direito e não um favor.

- Hoje, qual é o seu grande sonho?

Meu grande sonho é ter minha casa própria, vivo de aluguel, o que dificulta muita coisa em minha vida. Moro com minha mãe, que não tem nenhuma renda, e adoraria dar uma velhice sossegada a ela, num local aonde ela pudesse ficar em paz e curtir os momentos com a família. Poder levá-la numa praia num final de semana em nosso carro, fazer viagens em família, fazer grandes ceias natalinas, comemorar nossos aniversários juntos, fazer tudo que agregue nossa família. Na verdade, minha família nunca me renegou, por isso que tenho tanto carinho por todos. E claro conseguir realizar alguns sonhos, como o de me formar, ser concursada e finalmente ser coordenadora de políticas públicas LGBT no meu estado. Conseguir fazer de fato essa população se integrar e ter direito ao mesmo sol que todos, além de sonhar com mais travestis e transexuais no mercado de trabalho formal e podendo escolher se querem se prostituir ou não. Antes de morrer também sonho em tirar meu status de estado mais violento do Nordeste e terceiro mais violento do Brasil.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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