Pride

"Travestis e transexuais têm muito a agregar no mundo corporativo", diz Angela Lopes


Por Neto Lucon

A Câmara Americana de Comércio trouxe o tema “A questão T no mundo corporativo” para uma palestra do Fórum de Gestão de Pessoas da Amcham, que ocorreu no último dia 23, na AmCham, em São Paulo. Eles discutiram a inclusão de profissionais travestis e transexuais nas empresas.

A técnica administrativa do Programa Transcidadania, Ariel Nolasco afirmou que a população trans tem a cidadania tirada desde a infância e adolescência, e que as diversas transfobias que enfrentam compremetem automaticamente a vida profissional. “Como seremos inseridas no mercado de trabalho sem termos direitos básicos?”, questionou.

Ângela Lopes, ex-diretora da Divisão de Políticas para a Diversidade Sexual de São Carlos e primeira gestora transexual, diz que o trabalho é um direito elementar, mas que ele quase nunca é oferecido à população trans. “Por que será que 90% das travestis e transexuais subsistem da prostituição? (de acordo com a ANTRA)”.

Já a advogada travesti Márcia Rocha - também responsável pelo site TransEmpregos - frisou que ser uma pessoa trans não é uma opção. “Não escolhemos ser quem somos. A opção sexual e de gênero que existe é de assumir ou não, porque a opção de escolher não existe”, disse ela, salientando que a primeira coisa que a pessoa trans perde quando assume é a família. “E quando ela fica no armário e não se assume, perde a vida”.

Diante do cenário de transfobia institucional, Cristina Saturnino, da Rede Cidadã, diz o esforço atual é capacitar as pessoas trans e também sensibilizar as empresas para contratar essas pessoas. Não é um trabalho simples ou fácil e poucas empresas se engajam nisso. Quando ouço que uma empresa de 50 mil funcionários tem 30 pessoas trans contratadas, fico triste. Isso me mostra o quanto precisamos melhorar”, declarou.

EMPRESÁRIOS CIS DEBATEM

Empresários e representantes de entidades também participaram do debate. Dentre eles, Claudio Neszlinger, Chief Talent Officer Brazil, da Dentsu Aegis Network, que admitiu que as empresas ainda são ignorantes no assunto. “Todas as empresas falam que precisam de inovação. E a inovação começa com a inclusão da diversidade, que é essencial para a sustentabilidade das organizações a longo prazo”.

A gerente de responsabilidade social e Diversidade do Carrefor, Karine Chaves, afirma que o tema trans é relevante porque tem colaboradores e clientes. “Mas nem sempre foi fácil, pois o tema ainda é muito novo”. Dentre as dificuldades, ela aponta para a legislação que não facilita a retificação de nome e gênero da documentação, que pode em algum momento constranger a pessoa trans.

João Torres, que é líder de projetos da Dow, defende que a população trans precisa de políticas afirmativas e positivas. E diz que as empresas costumam dar desculpas para a não contratação. “Uma das desculpas que ouvimos nas empresas é que elas não estão preparadas para receber a diversidade. Mas as empresas nunca estarão preparadas para isso”, frisa.

A diretora de Recursos Humanos Ana Lúcia Caltabiano garantiu que a GE Latin America tem uma abordagem educacional em relação à diversidade. “Acreditamos que o caminho a percorrer é do entendimento”, disse. “"Dentro das empresas, buscamos competitividade e resultado e nosso trabalho é perguntar de que forma o aspecto humano faz com que essa entrega seja a melhor possível”, contou.


Nós pessoas trans temos muito a agregar
“ALÉM DAS DISCUSSÕES, PRECISAMOS DA EMPREGABILIDADE DE FATO”

Após o evento, conversamos com exclusividade com Ângela Lopes, que após ser gestora em São Carlos, enfrenta a transfobia institucional e velada no exercício de se recolocar no mercado formal de trabalho. Dentre os apontamos, ela destaca a importância dos espaços de discussão, mas sobretudo na empregabilidade de fato.

- Qual é a avaliação que você faz da palestra?

Foi um evento muito grande, organizado pela Câmara Americana de Comércio e contou com mais de 100 empresas associadas. O evento trouxe um tema até então considerado tabu de discussão a partir dos espaços de recursos humanos das corporações. Pude perceber uma empatia e uma preocupação em discutir o assunto.

- Qual reflexão você considera importante destacar?

Destaquei a necessidade de ir além dos espaços de discussões. Pontuei a importância da empregabilidade de fato. É preciso que o universo corporativo vença aquilo que considero ser um medo em lidar com corpos trans, reflexo evidente da transfobia, ainda que velada. Destaquei que travestis, mulheres transexuais e homens trans representariam potenciais humanos positivos no universo corporativo. Trazemos a partir de nossas vivências, qualidades e potencialidades que nos diferenciam das demais pessoais e que no âmbito onde a competitividade, a resiliência, a resolução de conflitos e até mesmo os resultados em produtividade são condições essenciais, nós pessoas trans, temos muito a agregar. Fui convidada para participar do evento em razão da minha trajetória desde os 15 anos de idade no universo corporativo e recentemente pela minha atuação como gestora pública. Mas inegavelmente precisei trazer a tona minha atual realidade - sendo extremamente qualificada e capacitada, entretanto, desprezada pelo mercado corporativo.

- Embora haja o debate, você acredita que haja portas abertas para a população trans na gestão empresarial?

Honestamente? Eu saí do evento muito empolgada, fiz vários networks com vários representantes de empresas ali presentes, deixei o meu e-mail e ontem mesmo enviei o meu curriculum para várias destas instituições. Até o presente momento nenhuma resposta concreta. Não estou falando de filantropia corporativa, estou falando de uma mão de obra transexual com QUALIFICAÇÃO e com histórico profissional. O discurso revelado no evento me pareceu positivo. As reflexões foram honestas e pontuais. O retorno naquele momento pareceu-me abrir um horizonte, mas ainda estou aguardando o resultado final, a partir da minha própria realidade e de outras com grandes potenciais.

- Da sua vivência, a transfobia afeta de qual maneira os profissionais capacitados?

As potencialidades são secundarizadas. Infelizmente. Principalmente para aquelas pessoas trans que não possuem determinados privilégios de passabilidade. O corpo fala e denuncia negativamente, ou seja, vivemos um sistema binário e marcado pela obrigatoriedade de corpos habitando e existindo apenas nesse sistema. Enfrentar um corpo que denuncia a possibilidade de romper com essa lógica é extremamente incômodo, principalmente nos espaços de trabalho. Além do que, existe os estereótipos disseminados pelo senso comum que objetifica e marginaliza a nossa existência, determinando que os espaços formais de trabalho não são condizentes com nossas construções identitárias. De qualquer forma, eventos como este organizados pelo AMCHAM, e protagonizado por pessoas trans e suas histórias, acredito que vá criando uma cultura da humanização e da empatia.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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