Pride

Trump como presidente dos EUA será um “desastre” para pessoas trans, dizem ativistas


Por Neto Lucon

A vitória de 
Donald Trump na presidência dos EUA surpreendeu e causou impacto em todo mundo. Ativistas trans norte-americanas escreveram textos em que temem que a presidência do republicano seja um verdadeiro “desastre” para a população trans. Nem mesmo a bandeira LGBT levantada em comício no Colorado e o apoio da socialite trans Caitlyn Jenner convenceram.

Jessica Lachenal, do site The Mary Sue, diz que pessoas trans irão sofrer nas mãos desta administração. Já Samantha Allen, do Fusion, escreveu que toda a mudança gradual feita por Barack Obama – como a proteção aos estudantes trans, o uso do banheiro conforme a identidade de gênero e o acesso à saúde sem preconceito – pode simplesmente cair.

As justificativas são as promessas que Trump e sobretudo o vice Mike Pence fizeram durante a campanha eleitoral. No programa aprovado em julho, a plataforma republicana não tinha uma linha a favor da população LGBT. Ao contrário, colocava-se contra a adoção por casais LGBT, à proibição de terapias de conversão de LGBT e defendia medidas que justificassem a discriminação pelo "direito à liberdade religiosa".

Mike - que é conhecido por ser anti-LGBT e por ser defensor das terapias de "cura LGBT" - manifestou não concordar que pessoas trans vão a banheiros de acordo com a sua identidade de gênero. E disse que irá reverter as medidas da administração de Obama, que orienta que escolas autorizem estudantes trans a usarem o banheiro que quiserem e que sejam respeitados em sua identidade de gênero.

Para ele, que já soltou que não quer "macho no banheiro de mulher", a questão do banheiro pode ser resolvida com o "bom senso de cada estado". Resultado: a revogação da medida pode comprometer o acesso de pessoas trans aos banheiros e vestiários, servir de pretexto para a discriminação e resultar no abandono escolar. “E também o aumento de tentativas de suicídio entre estudantes”, continua Samantha.



Curiosamente, Trump surpreendeu durante a campanha ao se manifestar contra a lei considerada transfóbica na Carolina do Norte, que exigia que pessoas trans usassem o banheiro de acordo com o genital. Segundo ele, a lei prejudicou a imagem do Estado, fez várias empresas e famosos boicotarem o local. Ao comentar a possibilidade de um terceiro banheiro, Trump negou porque seria "muito caro". Ele também disse que a socialite trans Caitlyn Jenner poderia usar o banheiro que quisesse em sua empresa.

Para muita gente ele está mais preocupado com dinheiro que com a dignidade e respeito por pessoas trans. Exatamente o que aconteceu em 2012 com a presença da miss canadá Jenna Talackova, que é uma mulher trans, no Miss Universo, evento do magnata. Jenna chegou a ser desclassificada por Trump, mas voltou à competição após uma ação judicial de sua advogada e a mídia negativa ao concurso. 


SUPREMO TRIBUNAL E CONGRESSO

A nova composição do Supremo Tribunal também pode causar um impacto negativo. Isto porque que Trump já disse que não indicará nenhum juiz liberal para substituir Antonin Scalia (1936-2016). E a presença de um tribunal de tendência conservadora pode dificultar os avanços dos direitos da população trans e de outras populações sujeitas à vulnerabilidade social.

“Em outubro, a Suprema Corte anunciou que irá ouvir o caso de Gavim Grimm, um rapaz trans que teve negado o banheiro dos homens em sua escola em Virgínia. Se eles decidem que ficará no banco, o tribunal pode apagar anos de processo judicial dos direitos trans de uma só vez”, teme. 

No texto, Samantha afirma ainda que as piores consequências devem vir mesmo do Congresso, uma vez que a plataforma GOP é considerada a mais “anti-LGBT da história”. E o motivo é que ela se opõe diretamente à tentativa de considerar a transfobia ilegal e até defende a prática da terapia de conversão de pessoas trans, apesar da oposição de médicos e associações.

“Trump também disse que vai assinar o First Amendement Defense Act (Lei Pela Defesa da Primeira Emenda) se o Congresso o colocar em sua mesa. Essa legislação tornaria legal a nível federal que empregadores e outras organizações discriminem pessoas LGBT em nome da ‘liberdade religiosa’”, explica. Ou seja, a legalização da LGBTfobia. 

SAÚDE 

Além disso, o presidente eleito também soltou que pretende revogar a Affordable Care Act (Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente), uma lei federal do governo de Obama que regulamenta preços de planos de saúde e expande os cuidados para maior parte da população, sobretudo os mais pobres. Ela também é conhecida como Obamacare. 
Samantha e Jessica

Desta maneira, a população trans – que ganhou o direito de ter acesso à transição de gênero por meio dos planos de saúde e assegurado o direito sem discriminação, como ocorria anteriormente – podem ser uma das maiores afetadas com as mudanças. E perder esse direito. 

“Para as pessoas trans que experimentam a pobreza, o desemprego e taxas assombrosas de morte, enfrentar ainda mais as dificuldade aos cuidados de saúde mental, terapia hormonal e tratamento cirúrgico, pode significar a perda de uma linha de vida”, diz.

Ainda sobre saúde, nada foi falado em referência ao combate ao HIV/Aids, apesar da necessidade e urgência de ações mediante as novas pesquisas. O descaso é justificado ao longo do histórico de Trump e Mike. 


Enquanto Trump teria fingido ser doador em um evento para crianças com HIV em 1996 - e depois saído sem dar dinheiro - Mike quis cortar o financiamento no combate e prevenção do vírus para focar em terapias de conversão quando era governador de Indiana em 2000. 

O FUTURO

Samantha diz que nenhum dos problemas mencionados são novos, mas que as soluções tendem a ficar cada vez mais distantes. “Pessoas trans tem sobrevivido por décadas, sem expectativa alguma. Mas muitos de nós, pelo menos, esperávamos que a situação melhorasse num próximo presidente. Mas, como se vê, nosso próximo presidente é Donald Trump”.



Jessica afirma que apesar de ser um tempo terrível para a população trans, ela deve saber que não está sozinha. “Se você sente que é um perigo para si mesmo, então por favor não hesite em obter ajuda”, escreveu, ressaltando o trabalho da Lifeline Trans e do National Suicide Prevention Lifeline. “Você não está sozinho”, defendeu.

Para a surpresa de todos,
 Trump levantou uma bandeira do arco-íris com as palavras “LGBT para Trump” no último domingo, durante um comício em Colorado. O momento não foi noticiado pela grande mídia, mas o porta-voz Jason Miller declarou: “Sr. Trump está fazendo campanha para ser o presidente de todos os americanos e está orgulhoso por carregar a bandeira dos LGBT”.

Entre incertas e dúvidas, provocações e compromissos, o medo do que está por vir é real.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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