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Aprovada pela OAB-PE, Robeyoncé Lima diz que "pessoas trans lutam pelo direito de ser"


Por Neto Lucon
Diretamente de Recife a convite do Recifest
Fotos: Paula Passos


Robeyoncé Lima se tornou notícia neste ano ao ser aprovada no 18º Exame de Ordem Unificado, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Tudo porque ela seria a primeira mulher trans aprovada no teste no estado do Pernambuco.

Aos 28 anos, ela é estudante do curso de direito da Universidade Federal de Pernambuco, deu nome à turma de 2016 e, detalhe, esteve entre os 21% que passaram na segunda fase do exame da Ordem. Robeyoncé também é formada em geografia pela UFPE.

A trajetória, que teve ampla divulgação na TV, jornais e sites, a tornou conhecida em Recife. E hoje ela é das referências de mulher trans negra e periférica. Tanto que é comumente abordada e parabenizada (o que ocorreu logo após a entrevista em uma lanchonete).

O NLUCON conversou com a universitária durante o Recifest – Festival da Diversidade Sexual e de Gênero – que ocorreu no último mês em Recife. E falou sobre transgeneridade, direito, faculdade, transfobia, relacionamento e, claro, Beyoncé.

- Quando falei que te entrevistaria, muita gente pediu para perguntar se o seu nome é em homenagem à Beyoncé. Você é fã da cantora?

Sim, sou fã da cantora. E adicionado a isso veio a primeira Semana LGBT da faculdade de direito, quando fiz uma performance ao vivo. Então, digamos que esse evento foi o estopim para que meu nome começasse a ganhar mais destaque. Primeiro ficou no ambiente interno, mas quando chegou a aprovação da OAB ele foi mais divulgado e oficializado. Hoje em dia o meu nome social é Robeyoncé Lima.

- Você já conseguiu retificar o nome nos documentos?

Dei entrada no judiciário no início do ano e estou aguardando eles decidirem. Porque você sabe que para ter a retificação dos documentos tem que ter a autorização do juiz ou da magistrada, que quer entender porque queremos mudar o nome. Inclusive a própria repercussão da prova da OAB foi fator fundamental na ação, porque todas as matérias que saíram nos jornais e na internet me tratam como Robeyoncé. Então, a gente (eu e meu advogado) incluiu na petição para comprovar que as pessoas me conheciam por este nome. Já teve um parecer favorável do Ministério Público, voltou para o magistrado e, enfim, estamos aguardando.

- O que você acha dessas ações que comumente exigem laudos médicos e, em alguns casos, até cirurgias para a retificação de nome e gênero dos documentos?

Hoje está mais flexível do que antes em termos de necessidade de cirurgia. Porque hoje você não precisa mais estar operada ou operado para trocar de nome, mas às vezes a gente ainda encontra situações que são peculiares. Tem uma amiga do Rio Grande do Norte que o magistrado pediu uma foto da genitália. Obviamente o advogado levou para o Tribunal e ele reformou a decisão. O magistrado que pediu foto da genitália estava resumindo toda uma pessoa e a identidade dela naquilo que ela tinha no meio das pernas.


- Que absurdo! E a questão do laudo psiquiátrico?

Ah, a gente precisa desassociar a transexualidade da patologia. Ela afeta a forma como as pessoas trans se veem e afeta o modo como as demais pessoas veem a gente. Até certo ponto ela provoca uma política única e exclusiva de assistencialismo. “Ah, a bichinha é trans e é doentinha, né? Tá classificada no CID como doente, coitada, vamos dar uma ajudinha para ela, porque ela nunca vai conseguir nada”, pensam. Então ser considerada como uma enfermidade incentiva esse pensamento e não se trabalha o empoderamento das pessoas trans, a questão de a pessoa trans ser autora do seu próprio destino e com autonomia para decidir, por exemplo, como quer ser chamada ou chamado. Mas tem gente que acha que ser considerada doente é um fator positivo.

- Positivo em qual sentido?

Tem parte do movimento que diz que continuando como doença vamos continuar tendo direito ao acompanhamento médico em termos de hormônios e cirurgias. Embora saibamos que o fato de ser retirado do CID não implica na retirada desses direitos de saúde, porque ainda assim precisamos dele, eu entendo essa preocupação das meninas perderem esses poucos direitos conquistados. Sobretudo nesse governo que está querendo e priorizando corte de gastos. Ele pode pensar: “por que dar hormônio para as travestis e transexuais se não são mais doentes? Vai dar remédio para quem não é doente? Corta”. Aqui em Pernambuco somos até privilegiadas porque temos atendimento no espaço trans no Hospital das Clínicas da UFPE, que é o único do nordeste. Vem até gente de outras regiões aqui. Mas se é para eu ter um posicionamento, eu não quero ser considerada doente e quero ter o direito ao corpo.

- Em sua opinião, qual é a principal pauta do movimento LGBT em termos de reconhecimento de direito?

O movimento LGBT de uma maneira geral traz pautas muito fragmentadas. Por exemplo, enquanto os gays brigavam pelo reconhecimento da união estável, as travestis e transexuais estão preocupadas com a questão hormonal e a retificação ao nome. Então essas pautas distintas afastam um pouco as letrinhas da sigla LGBT. Fica uma coisa meio desfocada e até certo ponto atrapalha a articulação política da gente. Também precisamos trabalhar essa desarticulação que ocorre. Sobre direitos das pessoas trans, eu acho que o principal direito é ser reconhecida pelo nome, de ser tratada ou tratado de acordo com a identidade de gênero, independente do que tenhamos no meio das pernas. Enfim, ainda é um direito de ser.

- Quando você teve consciência de que é uma mulher trans?

Eu costumo dividir a minha vida em termos de identidade de gênero em duas partes: antes e depois da faculdade de direito. Porque na faculdade eu encontrei um ambiente favorável para estas questões. O ambiente acadêmico é um ambiente de reflexão realmente, então encontrei o acolhimento que foi fundamental para a minha descoberta. Foi como se eu me encontrasse comigo mesma, não consigo nem explicar. É você realmente entender aquilo que você olha no espelho, porque antes ficava uma interrogação na minha mente. Eu me olhava no espelho, mas não me sentia bem, não sabia o que estava acontecendo. E aí depois dos debates eu começo a me descobrir.

- Mas essas questões já existiam dentro de você?

Já existia, mas eu não entendia. Eu não sabia o que eu era. Chegou um momento na minha vida que eu me assumi homossexual, devido a uma fórmula tão louca: “Bem, se eu tenho a genitália masculina e gosto de pessoas da genitália masculina então eu sou, tcharam, gay” (risos). Exclui totalmente nessa forma a questão de gênero. Eu ficava dizendo que era gay, gay, gay e entrei na faculdade me assumindo como gay. Mas com o passar do tempo eu fui percebendo que mesmo entre meus amigos gays eu era diferente. Porque os meus amigos gays usavam roupas masculinas e eu não gostava de usar. Os meus amigos gays não queriam mudar o corpo e eu queria. Os meus amigos gays não se importavam quando chamavam pelo nome civil, e eu me incomodava. Aos poucos, eu fui percebendo que eu não era gay, mas o que eu era então? Fiquei meio perdida e foi por meio dos debates da faculdade que eu me descobri e me encontrei.



- E você se define travesti, mulher transexual...

Costumo englobar o termo “trans”, que é mais abrangente. Mas se a gente for entrar na caixinha, daí temos a transexual e a travesti. Em termos médicos, a transexual é a pessoa que já operou (fez a cirurgia de transgenitalização) ou quer operar. Neste ponto, eu não seria transexual, porque tenho plena consciência de que não preciso ter vagina para ser mulher. Durante muito tempo tentaram enfiar isso na minha cabeça e, se você sair por aí, vai ver muitas meninas desesperadas para operar porque a sociedade impôs que elas só vão ser mulheres se operarem. Então, eu acho que se a vontade for sua, ok. Mas se a vontade é do outro, daí é bom tomar cuidado. Para ser sincera, eu sinto mais a falta de peito que de vagina. Se você me perguntar: “você quer um peito ou uma vagina agora?”. Eu respondo que quero peito. Porque o peito está num lugar estratégico do corpo ligado automaticamente ao feminino. Numa perspectiva bem binária, você pensa em peito você pensa em mulher. Tipo: “Eu estou com o peito na sua cara e você me tratando no masculino ainda?”. Mas por outro lado, em termos de classe social, a rica sempre será trans e a pobre a travesti. 

- E como é se dizer mulher trans em Recife? Foi uma mudança muito grande?

A gente vive em um ambiente hostil, né? Não só aqui em Recife, mas no país todo. Agora é claro que Pernambuco é um tanto mais grave, porque se você olhar nas estatísticas é um dos Estados onde as trans e as travestis mais morrem. Eu vejo um monte de gente falando daquele crime contra LGBT de Orlando. E foi Orlando, Orlando... Claro que lamento muito pelo que ocorreu lá, mas aqui é Orlando todo dia e a gente não vê isso nas matérias e na mídia de jornal.

- “Aqui é Orlando todo dia” é forte...

A gente ficou invisibilizada nesta questão de Orlando. Porque tem todo dia a gente vê LGBT morrendo aqui. Todo dia, todo dia, todo dia... Daí acontece alguma coisa lá fora e todo mundo se revolta. Nós somos cifras ocultas, porque para o Estado a gente não existe, não nos reconhece como travestis se a gente não mudar de nome. Se você for no IML agora, for procurar o corpo das travestis você vai encontrar o que? O corpo da travesti com o nome civil. Então nem depois da morte ela é reconhecida. A mídia muitas vezes também não respeita e noticia como gay. Ou quando fala que é travesti, diz que é “o” travesti.

- Você teve medo que essa violência chegasse até você?

Eu ainda tenho. Tenho medo de apanhar enquanto estou na parada do ônibus, por exemplo. Mas é claro que a repercussão da minha aprovação da OAB pela mídia me ajudou a ter certa respeitabilidade no meio da rua. Até porque quando você diz que é advogada, as pessoas te veem com certo status. Na sociedade, é “não mexa com a advogada”. E o pior é que na prática isso é verdade. Mas reconheço que é um privilégio único e exclusivamente meu aqui no estado por enquanto. A gente não pode esquecer de todas as meninas que continuam sendo vítimas de violência. Às vezes elas estão nas esquinas, fazendo programa, descem quatro caras, espancam, jogam pedras. É uma coisa que eu sinceramente não vejo razão ou sentido. Muitas vezes não é nem punida.

- Num cenário de mais de 90% das travestis e transexuais na prostituição, segundo a ANTRA, como é para você ser exceção?

Eu não tive experiência de me prostituir, principalmente em virtude da família. Porque quando eu assumi a minha transexualidade, a minha família chegou para mim e disse: “a gente não concorda muito, não apoia muito esse negócio de transexualidade, mas se você quiser um prato de comida tem aqui, uma cama tem aqui, se quiser uma cama lavada tem aqui”. Então a minha família neste contexto entrou mais com o apoio material. Mas apoio sentimental eu tive muito pouco, quase nenhum. Foi justamente na faculdade, com o movimento estudantil que eu tive esse apoio. E aí neste contexto o apoio da família foi fundamental porque evitou que eu fosse para o mundo da prostituição obrigatoriamente. Eu digo que só não sou prostituta hoje por causa da minha família e do apoio financeiro que eles me deram. Senão provavelmente eu iria ser. Acho a nossa sociedade muito cheia de máscaras. Encara tabu falar de sexo, como se não fizesse. Fora que os homens que são clientes das minhas amigas são justamente aqueles casados com mulher cis, que não assumem e muitas vezes demonstram ter preconceito.



- Hoje em dia você faz estágio na área de direito. Como está sendo a experiência?

Estou tendo uma boa experiência em escritório, porque antes eu era de órgão público, né? Nunca tinha tido a experiência de estar do outro lado no âmbito privado. Estou gostando, achando bom, interessante. Mas admito que sinto falta da advocacia popular no escritório, que não tem. Os clientes na sua maioria é firma, então sinto falta de uma advocacia mais humana.

- Neste ambiente de trabalho, as pessoas te tratam pelo nome social e respeitam a sua identidade de gênero?

Depois da aprovação da OAB e das matérias que saíram, eu comecei a ter voz. E as pessoas começaram a escutar a minha voz. Então passei a ter mais respeitabilidade em relação ao nome no trabalho. Mas a grande dificuldade está sendo mesmo é na comunidade onde nasci e me criei, que é na periferia. As pessoas ainda estranham me chamar por Robeyoncé, depois de muitos anos me chamando por outro nome. Eu entendo, mas não vejo outra opção senão corrigir.

- E as pessoas costumam a se policiar mais e a respeitar depois das correções?

Eu observo dois tipos de pessoas: as que estão abertas ao debate, pedem desculpas e pedem que, quando esquecer de novo, que eu corrija. E também as pessoas que estão mais fechadas e que dizem: “Eu sei que você mudou o nome, que quer ser tratada pelo feminino, mas eu vou continuar te chamando pelo nome masculino”. E eu digo: “se você me chamar pelo nome antigo eu simplesmente não vou te atender. Você vai falar pelo vento, porque essa pessoa só existiu na carteira. E aquele documento não sou eu. Eu não vou passar vergonha ou vexame na rua por causa de uma falta de respeito da sua parte”.

- E como é a sua vida afetiva em Recife?

Descobri a transexualidade há uns dois anos e estou há quatro sem ninguém. O meu coração está aceitando currículo (risos). Mas acho que comecei a dar outras prioridades na minha vida depois da faculdade. Claro que não estou completamente fechada, estou aberta a relacionamentos, mas não é prioridade. Minha prioridade é organizar a minha vida em termo de estudo e trabalho. Mas sabe que talvez esses quatro anos na solidão foram incentivados e contribuídos pela vergonha da minha própria genitália.

- Como assim?

Não chego a ter nojo da genitália, como tem uma amiga, que pegou infecção por não gostar e ter problema até para lavar e mostrar para o médico. Mas quando eu estava entre quatro paredes com um homem eu não queria que ele visse a minha genitália em estado ereto, sabe? Eu tinha vergonha. Não vergonha da genitália, mas do estado ereto. Apagava a luz, colocava travesseiro, a mão, tinha uns que queriam pegar, eu não deixava e ficava aquela briga em cima da cama (risos). Acho que isso contribuiu para que eu deixasse a vida sexual de lado. Mas daí me pergunto: vou ficar o tempo todo sem sexo e sem ter orgasmo? Ter orgasmo é bom, minha gente. Se tivesse um método de sentir prazer sem ter o estado ereto da minha genitália seria ótimo.

- Talvez seja porque nenhum deles te deixou tão confortável e tal...

É, estou tentando entender a minha mente binária. Talvez quando o homem tentava pegar na minha genitália fosse como se ele quisesse me deslegitimar enquanto mulher. O meu raciocínio ia para esse sentido e eu ficava com medo de ele deslegitimar de alguma forma. “O meu Deus, como diz que é mulher e me deixou chupar o órgão genital dela?”. Eu ficava meio com esse receio, aí a minha genitália ficava intocável. Na minha cabeça, uma mulher trans ou um gay não deveria deixar o machão pegar na genitália. Ainda tenho isso na minha mente e que precisa ser trabalhado. Mas você pode ver, mais uma vez é essa sociedade dizendo para a gente que o que é ser mulher por meio do genital. Preciso trabalhar isso ainda dentro da minha mente. 


- Hoje qual seria o seu maior sonho, conhecer a Beyoncé?

(risos) Também, mas eu já tive uma proximidade de 20 metros dela, quando fui ao show em Fortaleza em 2013. Não consigo descrever como é ver sua ídola cara a cara. Quando eu vi aquela mulher no palco eu me acabei de chorar. Aquele bate-volta valeu a pena. Você sabe como é esse bate-volta, né? Junta um monte de gente, vai num ônibus, só para o show e volta. Foi uma experiência incrível, mas não sei se ela sabe que eu existo.

- Vamos marcar ela nas postagens... E o sonho?

É por um mundo mais justo, com mais respeito e que tenha menos desigualdade. Mas sei que esse mundo tá muito longe. Particularmente eu gostaria de ser feliz, mas como? Quando eu estou na faculdade eu estou feliz, quando eu vejo que estou ajudando outras pessoas eu estou feliz, sempre quando eu aprendo algo novo eu tô feliz. São pingos de felicidade que vou tendo no decorrer da minha vida e quero continuar tendo.

- Gostaria de complementar com mais alguma coisa? Quer deixar um recadinho para as meninas trans?

Que vocês sigam os seus sonhos e os seus objetivos, porque muitas vezes desistimos de tudo quando encontramos o primeiro obstáculo. E foi só o primeiro. Mas devemos fazer o contrário. Devemos fazer deste obstáculo um fator impulsionador para conquistar os sonhos. E eu espero que eu esteja inspirando outras meninas para que elas criem mais força interior e mais perspectiva do futuro.
Foto: Paula Passos
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